ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


O erudito Gebrüll    

(Uma brincadeira em torno da erudição)

 

 

Ser devido ao fardo, quem fala mal, emprega muito o ser: ser agitado. Ou mesmo o ter: ter fome de ser. Na forma do infinitivo: O cacho de flores ter feixes de vegetação, o maço de papel ser meada, o preço das notas ser comprometido. As taxas, os impostos, as propinas, as isenções, as livranças empenham-se em ter e ser em barda.

 

 

As costas de Gebrüll estão bem dobradas, e não foi o decoro nem a decência que as dobrou, foi antes uma relação enferma entre o possuir e o precisar de ter. Por princípio sou um homem, diz Gebrüll, há-de pagar-mas o mundo! E senta-se com paciência até ser atacado. Pregar um susto é uma boa possibilidade de ser generoso com a humanidade, não está ela sempre assustada?, o número de atracção, no circo ou na mente costuma ser assustar alguém, provocar medo, ou atracção, em suma ter um coração de pólvora, explosivo, e com ares de fanfarrão de bairro.

 

As irmãs de Gebrüll vivem na cisma de que ele um dia ainda acaba na cova. Devaneiam na ansiedade de tal evento, o erudito Gebrüll esqueceu-se da sua constituição, na urdidura da velocidade absoluta que pretendeu imprimir à sua vida, esqueceu-se que tinha um esqueleto raquítico e que horas e horas sentado a uma secretária redundariam numas costas dobradas e bem dobradas. Os alicerces que se supôs não eram de boa qualidade, como supôs a sua mente minuciosa, escrupulosa, hiper-sólida. Esquecera-se do esqueleto hiper-fraco. Não ajudou a este macabro acontecimento, o ter ignorado uma premissa, a dieta que se impôs: rins salteados com ovos mexidos, café, sobretudo requentado, para não perder tempo a fazer um fresco, e pudim de sémola. Esta dieta, sempre a mesma, e o frio a entrar dia e noite pela janela entreaberta muito o molestavam.

 

•     Degolo alguém um dia! Um dia degolo alguém!

 

Pensava, mas quando abria a boca defronte às suas visitas era uma metralhadora de galanteios que atacava. O galanteio saía tão forte numa descarga anelante de fogo cerrado que chegava a ser grosseiro. As criaturas ofertadas com tal jogo, cobriam o bolo com um guardanapo, encostavam o joelho um ao outro, não fosse aquela enxurrada de piropos atacar-lhes as partes pudibundas e fazer soltar alguma secreção menos própria, e depois espetavam com a faca o bolo de chocolate com cobertura de açúcar que Gebrüll tinha para estas ocasiões. Bolo em que não tocava porque, como dizia em voz pungida, os seus intestinos andavam periclitantes.

 

•     Privo-me de certas regalias, mas sou um homem feliz, porque sou a estátua e ao mesmo tempo o plinto, sou uma arquitectura perfeita.

 

Ajeitava a fivela do cinto e continuava na fundição calculada de que a sua erudição de uma só peça tinha um valor incalculável. A ressalva que fazia, falando das suas privações, mais não era que uma passadeira vermelha que o conduziria às refrescantes e tonificantes bátegas da glória.

 

Em poucas palavras Gebrüll é um bom animal, mas é um frete aturá-lo!
Uma das irmãs falava com a autoridade de ser irmã. Perita no restauro de móveis, não havia mercadoria em madeira, ou posse do mesmo material que alguém abandonasse na rua, a que ela não desse bom préstimo com suprema habilidade e desvelo. Uma mesa por ela folheada a raíz de nogueira era o mesmo que um cavalo puro sangue cavalgado por cavaleiro emérito. Era bem comportada, honesta, preocupada com o futuro, e quando não gostava de alguém mostrava a sua autoridade falando com pertinácia e nenhum decoro da pessoa em causa, e acabava as longas sentenças, verdadeiros cadafalsos, com o leitmotiv: para bom entendedor meia palavra basta.

 

Que meia era esta não se sabe, porque os seus enunciados eram vastas fazendas de impropérios capazes de denegrirem e tremularem até aqueles que, porque mortos, já não levantariam voz contra tal carga de terra negra e lamacenta que lhes houvesse caído em cima.

 

Ainda tenho que fazer alguma coisa, ora aí tens!, quantos são hoje?, está, está bem, não trago hoje dinheiro comigo, tudo tem o seu fim, não sejas esquisito, vá lá!

 

Afastada da hasta pública do insulto, era uma mulher de poucas palavras, e falava com aqueles termos que de tão vagos que são não se podem aplicar a diversas situações. Dava meio pão ao filho para comer, pela manhã, com um ovo mal cozido e despachava-o com uma palmada semidura no rabo. Dividia a outra metade do pão em partes iguais e ia-o comendo migalha a migalha ao longo do semestre, numa homenagem inesperada à sua grande heroína de infância e de adolescência, uma velha galinha que a mãe de Gebrüll havia criado desde que era pintainha e que costumava passear-se pela casa em atitude de semideus, crista altaneira e debicando com ar de triunfo as migalhas, espalhadas no chão pela mãe, em forma de hemiciclo, que ela sistemática ia comendo por ordem até o desenho do hemiciclo se apagar por completo. Tal amor ao método encantara-a e perdurara-lhe no espírito. Não era invenção sua esta prática da galinha. Efectivamente o galinácio demonstrava grande capacidade de avaliação. A prova dos nove tirara-a quando lhe ocorrera fazer um colar de migalhas de pão, ou antes, bolinhas de pão. Amassou-as e torneou-as bem torneadinhas e com uma agulha e linha juntou-as todas, deixou-as uns meses a secar, comprou um bom fecho numa retrosaria. E na hora H vestiu uma camisola de malha bem grossa, colocou o colar, deitou-se no chão e a galinha não se fez rogada. Saltou-lhe para o peito, à bicada puxou o fecho do colar para a frente e foi comendo as bolinhas de pão por ordem. Ela apanhou um torcícolo na ânsia de ver a labuta da ave, mas tirou a limpo a habilidade excepcional desta para comer com método.

 

A outra irmã era uma gnomo-pneumática, ficara com as terras dos pais e constantemente em trepidação martelada abria buracos na terra para efectuar o transplante de grandes árvores, que ela recolhia de terrenos que iam ser construídos, e depois vendia estas grandes árvores para outros terrenos, cujos donos ansiavam ter uma velha e grande árvore nas suas novas propriedades e não tinham tempo para esperar que uma árvore daquela idade crescesse.

 

Esta irmã de Gebrüll parecia uma bigorna, pescoço taurino, braços pouco femininos, e os olhos eram escuros e profundos como brocas em funcionamento. Apertava a mão forte e a terra para ela não tinha segredos, os pulsos pareciam cabos de aço, e ao fazer um chá, ou outra tarefa caseira, tudo nela se assemelhava a manípulos, alavancas, manivelas, puxadores, cujo único truque para manejar era força e destreza.

 

As irmãs não gostavam de Gebrüll, chamavam-lhe o dicionário de bolso.

 

A empregada  de Gebrüll fazia questão de lhes dar notícias; que ele andava muito em baixo, curvado, os lábios cobertos de herpes.

 

A gnomo-pneumática levantava o guindaste e vociferava:

 

•     Deve ser de tanto galanteio!

 

Conformes aos seus ofícios, rubricavam duplamente a sua opinião de Gebrüll, e a empregada, eufórica por ver que tudo se mantinha na mesma, voltava ao antro dos livros, regalada com tanto carpo-metacarpo de desprezo. Não fora sofrer de micturição levantaria vôo de tanto bem estar, mas a urina não lho permitia, urgia sair e assim lhe manietava aquele ascenso de alegria catódica.

 

Catódica porque ela sofria. Gebrüll praticamente não lhe dirigia a palavra, mas ela dirigia-lhe muitos e variegados sentimentos. Não podia exsudar ódio, exsudava urina. Têmpera rija era a dele que ignorava toda esta indústria de dizer mal, e sabiam-lhe bem, cada vez melhor, os rins salteados com ovos mexidos e o pudim de sémola. Olhava a lebre empalhada na estante entre o Sade e o Stevenson e pensava como seria aquela mesma lebre salteada, mas o cheiro dos rins batia-lhe como uma vara no nariz e ele ficava tonto.

 

Qualquer hipótese de se afastar do mundo livral acabava ali, os olhos ficavam resina queimada e se havia nas redondezas alguma raposa manhosa que lhe pudesse mandar um hálito revivificante, ela envelhecia e morria nesse instante preciso, tornando-se estrume para as avelaneiras que rodeavam a casa, e que Gebrüll pensava serem estantes para além das janelas.

 

Na sua cabeça guia ele julgava-se um exemplo que vem de cima, algo semelhante ao criador, herdeiro da agência geral, o chefe de família, a carótida essencial que governa a petizada dos incultos. Ele se quisesse poderia organizar os outros em pequenos monturos, empilhá-los como a fardos de palha, armazená-los e servir-se em caso de falta de pasto, mas tinha que admitir que aquela palha era uma curva de frequência repetida, pouco interessante.

 

A empregada, de cabeça baixa vinha tirar o tabuleiro da comida, era a hora de ponta, Gebrüll momentâneamente não conseguia mover-se, a sala estava atravancada, o respirar de outro ser estragava-lhe a paz do domícilio, quero ir para casa, pensa ele, mas todas as casas estão à cunha, não há residência possível, não há linhagem de homem culto que não esteja alugada pela grande comissão orgânica das domésticas. As que economizam e poupam o que é dos outros, violam os lares da cultura com as suas mãos orquestradoras e remediadoras, querem ser maternais, julgam que por limpar os cagalhões dos que pensam têm direito a pensar, e a estabelecerem-se como orquestras.

 

•     Chouriço caseiro, senhor Gebrüll, ainda consegui arranjar um no Partie.

 

•     O quê? Já não havia rins?

 

•     Havia, julguei que...

 

•     Prefiro os rins.

 

Prefiro os rins salteados, agora também quer mandar no que eu como, julgou, ora vejam, julgou. Ah se eu pudesse perder tempo a limpar a cozinha, além do que a minha sensibilidade cutânea não o permite e..., assim sendo, tenho que ouvir a música deste esfregão, mas cada vez menos, o paquiderme vai aprendendo a calar-se. Que hoste de bambalhonas já havia passado por ali. Esta pelo menos aprendera a calar-se, percebera a sua postura de comando, percebera o que era um punho de rédeas na mão. Eram breves as suas intromissões no relicário livral. Quando tentava limpar os livros, Gebrüll mesmerizava-a, atraída pelo íman, ela aproximava-se da secretária. A secretária soltava as palavras:

 

•     Depravada, beata, venérea.

 

A cara da mulher ardia, cardinalícia, os olhos arrebatados transformavam-se em pratos de sopa quente colocados sobre a neve, engalfinhava as mãos uma na outra e saía rápida.

 

O colérico hálito da secretária enrouquecia e voltava novamente à calma, como se um grande cilindro de aquecimento rebolasse pelo relicário livral e desse aos livros e ao pó que os cobria um tom pardo de melancolia copiosa. Uma melancolia sem freio, deliciosa como um assado longamente maturado. Com dificuldade ele chegava as mãos às calças e sentia a suavidade do tecido de lã, ainda com mais esforço conseguia tactear a popeline da camisa. Este tactear da combinação calça-camisa limpava-o de todo o aviltamento daquela esfregona com mãos que por vezes descia em vôo picado sobre o relicário para o profanar, menosprezando o símbolo heráldico que era ele para aquela formação compósita de grandes obras por ele lidas e recriadas.

 

Percebera quantos homens naquelas páginas? Tinha tirado as conclusões que eles não haviam conseguido tirar. Nascera de um ventre para viver num ovo, e não saía dali para ser seleccionado por qualquer um. As suas obras eram muitas, no entanto Gebrüll via-se em apuros para conseguir que elas se tornassem visíveis.

 

As suas potencialidades como mesmerizador não eram extensivas às obras que lhe saíam debaixo dos olhos, ele publicava-as, e elas pareciam rebanhos loucos que se encaminhavam para encostas em fogo, ardiam sem mesmo se ouvirem os seus chocalhos, talvez porque o vento que ateava o fogo se engalfinhasse nos chocalhos e os silen-ciasse.

 

As obras não eram gregárias, não iam e vinham, iam e ficavam pelo vestiário. Quando as visitas de Gebrüll procuravam comprar um dos seus livros, julgando que assim o deviam fazer, porque não era todos os dias que se encontrava um homem disposto a mimar os egos dos outros. Procuravam e não encontravam! Incandesciam de brios, um grande erudito os tinha vangloriado como eruditos. Envolviam-se então num jogo bajulatório inaudito, dias e dias de conversações queridas, gentis, anelos palpitantes do coração, efusivas cordialidades para levar o outro ao bem temperado e saboroso prato de ter como certo uma genialidade ímpar, ousada, intrépida.

 

Só o cansaço físico fazia interromper estas maratonas de visões celestes e firmamentos habitados por génios-titânicos. Lá saíam as visitas chaladas de tanto chá para irem descansar nas suas eruditas camas. Porém, alguém na rua, sabedor de tais maratonas, apressava-se a explicar aos atletas que os anabolisantes que tomavam não eram os melhores, e talvez não fosse muito inteligente subir para baixo e descer para cima, isto enquanto espreitavam à volta, receosos que as suas explicações fossem ouvidas por ouvidos menos esclarecidos, que pudessem protelar tão vital sessão de esclarecimento. Raspava-se com os atletas para sítio escuro e golfava os esclarecimentos com destemida precisão e tal saliência abrutanada que os atletas ficavam esclarecidos para todo o sempre.

 

Na verdade os livros de Gebrüll não se conseguiam encontrar porque ninguém conhecia os livros de Gebrüll, nem mesmo as irmãs tinham os livros, e mesmo as irmãs tinham dificuldade em responder à pergunta: quem é Gebrüll?

 

Com os egos executados sem sequer lhes colocarem a venda preta pensavam que o melhor era terem-nos decapitado, electrocutado ou, mesmo, enforcado. Antes o suplício de um ego enforcado, do que um ego que tinha que sofrer no corpo a humilhação de um corpo estranho, uma bala ofensiva que continuaria a doer mesmo noutra reencarnação. A bala ofensiva era aquela impossibilidade de encontrarem, lerem, plasmarem as obras de Gebrüll. Trucidados por esta assaz descoberta e pelo veneno das balas da execução claudicavam e não tornavam a visitar Gebrüll.

 

A empregada aproximava-se do hálito masculino da secretária e susurrava: o orgulho precede a queda. Muito louvável, pensava Gebrüll ao ouvi-la, a honra da classe doméstica que cospe na mão de quem a protege. Ao mínimo adormecimento do patrão tornam-se pregadores, falam com máximas, falam de orgulho e queda.  Como se o orgulho fosse uma espécie de cortar lenha, quanto mais se corta mais se empilha junto à lareira, e como se a queda fosse uma escorregadela infantil, um joelho ferido que a mão materna desinfecta prontamente.

 

O susurro da empregada parecia-lhe uma corneta. Com a mão ele tapava os orgãos auditivos:

 

•     Por princípio sou um homem, se quer cortar peça uma faca, se quer chicotear compre um chicote, se quer correr arranje umas sapatilhas, se quer gentalha chame-lhes, vis , corja, cambada, hidras mias quem não tem chifres é mocho!

 

A gnomo-pneumática soube que o irmão estava macambúzio. Sentiu que era seu dever antes dele começar a descer à cova envidar um esforço para o tirar daquela apatia.

 

As avelaneiras que se viam através das janelas do relicário livral, para quem as via, estavam com um aspecto monocromático que não lhes adivinhava bom fim. A gnomo-pneumática determinou-lhes um destino a curto prazo realizável, acabar-lhes com a monocromia. Uma semana de trabalhos perpétuos do amanhecer ao anoitecer, de escavadora bem aprumada e pneumatizada as erradicaria do terreno.

 

Em discussão com a irmã idólatra das galinhas  tinham que decidir como marcar a paisagem que Gebrüll divisava através da janela. Uma tarde de conversa entre as irmãs, chegou para tomarem uma decisão, a gnomo-pneumática plantaria palémons.

 

Os palémons eram grandes, frios e davam frutos todo o ano, económicamente eram uma boa opção porque assim Gebrüll não tinha que comprar gelo, a empregada facilmente podia fazer a colheita, porque os cubos de gelo quando estavam maduros, caíam das árvores e mantinham-se praticamente inalteráveis durante uma semana. Com um ancinho, ou mesmo uma vassoura, podiam juntar-se em montes e depois com uma pá era de encher os sacos, os cestos ou os baldes num ápice. O gelo dos palémons tinha ainda uma particularidade curiosa, era que quando caía no chão cantava. Cantava trechos populares por vezes enriquecidos com arranjos hiper-modernos. O som destes cubos com certeza iria acordar Gebrüll do seu internamento apático.

 

A empregada continuava a interpelá-lo com o seu susurro, “depois do orgulho a queda”, mas o mutismo permanecia intacto.

 

A gnomo-pneumática começou por remover os nós de profundidade da terra e iniciou o trabalho de escava. Os palémons não foram serôdios, não se sabe porque  calúnia tardaram a crescer. Quanto aos frutos nasceram na noite de S. João, mas nem pio, caíam fazendo malabarismos no ar, mas mais silenciosos que um livro sem leitor. A gnomo-pneumática deitou a culpa aos pirilampos que haviam exposto os solos a luz em excesso e haviam consumido as cordas vocais dos cubos de gelo, na fase mais sensível do crescimento destes frutos, quando ainda estavam em formação. A juntar aos pirilampos que enchamearam os palémons, as ovelhas atacadas de percevejos vieram coçar-se no tronco das árvores, deixando nelas uma tal camada gordurosa, que as pobres não puderam respirar. Os troncos pareciam couro e quando se lhes tocava com as mãos ficava-se com um prurido desgraçado, pior que herpes provocada por beijo de traidor.

 

A idólatra das galinhas já dera para aquele milhafre muitos pintainhos e não queria ouvir falar mais de Gebrüll e no seu mutismo de balança em contas de eterna verificação.

 

Gebrüll com um esforço cada vez maior, lá olhava, muita rara vez para além das janelas e via confortado que as estantes com livros lá continuavam e que a empregada em nada tocara.

 

Recebeu uma visita, mas o seu estado não lhe permitiu vê-la. A visita entrou devagar, pé ante pé, um pequeno saco de juta na mão. Desejava falar com o erudito Gebrüll, o diamante da nossa cultura, o velo de ouro da sabedoria clarividente. Gebrüll percebeu que ela se sentara, a empregada trouxe o chá e o bolo de chocolate coberto com açúcar. A visita falou de dignidade, honra, e, sobretudo, sobretudo mérito, cortou ainda na casaca de uns certos estronços incapazes de reconhecerem as almas ilustres quando com elas privam.

 

•     E aqui tem! (silêncio). É capaz de já não reconhecer, já passaram muitos anos, mas é uma edição do seu primeiro livro, sei que acabou por ficar sem nenhum exemplar.

 

Gebrüll disse:
­­– “A pele da foca”

 

•     Isso mesmo, isso mesmo, brilhante, que memória! Que memória!

 

Desejoso de falar, Gebrüll tentou levantar o hálito do tampo da secretária mas um machado pesado parecia cravado sobre o seu pescoço e nem mesmo os esforços-campeões que desenvolveu o conseguiram desintrincheirar. Agonizo, agonizo, disse Gebrüll. A visita continuava a falar a propósito das pistas que “A pele da foca” lhe tinha dado para poder viver a sua vida de uma forma justa. As mãos de tão palavrosa visita estavam agora arrumadas lado a lado em forma de pente sobre o pequeno saco de juta. Um ou outro dedo levantava-se quando ela pronunciava a palavra circulação, a capitalista, sim, a do crime, porque não?, história à parte, na absorção dos capitais também havia circulação, a circulação é vital, acumular, sim, investir, dar amplitude às necessidades, desobstruir a circulação, dotar de um fundo seguro a circulação monetária. Os dedos pianizavam. Gebrüll não via.

 

•     A circulação dos bens, sabe, olhe eu vinha ver se o Dr. Gebrüll não podia vender o anel que era da sua mãe.

 

Gebrüll sentia o cheiro do papelão que cobria a secretária e protegia a pele trabalhada que lhe embelezava o tampo. A mão, procurou rapidamente no dicionário mental a palavra mãe, não conseguia decifrar o termo. Esta visita era douta!, empregara uma palavra que ele não conhecia, ele, mestre em códigos! Mãe! O que significará?

 

Os dedos, os da visita, pareciam vendedores ambulantes a fugir da polícia, percorriam, agora de cabo a rabo o relicário livral. Gavetas, escrínios, caixas e até os livros iam deslocando com piparotes certos, e a boca continuava a catequizar Gebrüll em torno da palavra mãe, que nunca lhe dera os pêsames, mas forçoso era fazê-lo agora, confessava a admiração que tinha por aquela senhora que criara tão categorizada cabeça. Os livros despencavam-se das prateleiras deixando no ar uma nuvem de pó que se não fora ser negra, teria dado ao relicário livral uma atmosfera de padaria, na hora de grande azáfama quando a farinha volita fina, e leve e cobre todos.

 

A visita tinha num dos dedos um anel de senhora e foi saindo às arrecuas.

 

Gebrüll sentiu que ia ganhar uma hérnia discal por estar sempre naquela posição. As costas dobradas, de tal modo arqueadas impossibilitavam-no de escrever, mesmo de pensar. A cara de Gebrüll estava onde devia estar a folha de papel, e os braços ficavam afastados e espalmados sobre a secretária ao lado da cabeça. Ler, só era possível consoante o tamanho do livro, o pescoço totalmente dobrado não permitia recuo em relação à obra. Só os livros de tamanho minúsculo se lhe podiam adequar aos olhos. Voltara a ler os pequenos livros da sua infância: “Os anões de Walser”, “O burrinho Quixote”, “O feijão trágico”, “Três açoites e um cu”.

 

Mas tais obras não conseguiam servir de pasto a tal mente super italianizada germano-anglofilada pelo que era a grande literatura, Gebrüll desistiu, agarrou o relógio que estava em cima da secretária e chamou o guarda-nocturno.

 

O guarda nocturno respondeu:
–       Pronto, cá estou!

 

NOTAS

 

Carótida- cada uma das grandes artérias que da aorta levam o sangue à cabeça.

 

Estronços- (de stronzo-cagalhão, idiota, estúpido) (italiano)

 

Sade- Marquês de Sade, escritor francês (1740-1814). Autor de obras eróticas, em que se explora por vezes a ténue margem que existe entre o prazer e o sofrimento.

 

Stevenson- Robert Louis Balfour Stevenson poeta, ensaísta e romancista escocês (1850-1894). Entre outros romances escreveu The Strange Case  of Doctor Jekyll and Mr. Hyde, em que retrata um desdobramento maniqueísta da personalidade e os valores simbólicos a ela inerentes.

 

Palémon-constelação do hemisfério boreal, Hércules.

 

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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