ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista sobre o livro Hidroavião, de Alberto Bresciani    

 

1-) Seus poemas parecem ser feitos por uma certa pulsão que não é da morte, mesmo com seus riscos nas ações dos poemas. Existe uma certa casualidade entre relações, entre ações e seus efeitos? Não de forma científica, mas sim, política, no sentido plenamente ético. Fale um pouco disso.

 

 

Antes de mais nada, obrigado, Fernando, pelo convite e pela chance de falar a você sobre  meu trabalho. Com diferentes intensidades, pulsões de vida e de morte alternam-se em nossa existência. Ou porque as sentimos, ou porque as testemunhamos. Tantas vezes, presenciamos o terror alcançando nossos iguais, crianças, os desafortunados. Não há como ser indiferente a isso. Por outro lado, também precisamos receber com vigor as boas palavras que nos chegam, as inesperadas, os gestos de generosidade, pequenos movimentos de acolhimento, a respiração que, por sorte, ainda praticamos. À poesia cabe acolher todas essas inflexões e fotografar, por intermédio do verbo, os “amantes abraçados contra a morte”, como no poema de Alexandre O’Neill. Essa imagem de O’Neill sintetiza, para mim, um belo conceito para a poesia: luta contra a morte. Sob a comoção que a ideia me traz, busco, pela poesia, as vias disponíveis de salvação e de esperança, como você observou. A morte é um fato da vida e a valoriza. A perspectiva da finitude alimenta a pulsão de vida. Experimentamos, hoje, um momento trágico na história da humanidade, sem precedentes para muitas das gerações que dividem o planeta. O mundo não nos permite adivinhar amanhãs. Tudo parece ruir. Apesar disso, sob nossas máscaras, seguimos cada dia que chega. Abrigamo-nos. O temor pela nossa sobrevivência e pelo bem de nossos afetos nos impele a prosseguir. Ao liberarmos nossos corações à dor e ao sofrimento, veremos que a fraternidade é o caminho. A dualidade: vida vencendo a morte. E o poeta registrando o seu tempo.

 

2-) Esta relação entre meios ou estados da terra e da água me parece que é uma imagem que você usa com frequência nos seus livros. E quando usa certos organismos que se adaptam ou não a estes meios, tua poesia parece um espaço não de demarcação, ou territorialização, mas sim, de sobrepor fronteiras aqui tanto geográficas quanto biológicas. E existe a questão do perigo sobre elas? Como são estas linhas do tracejado na sua poesia e porque elas adquirem tanta força até dramatúrgica?

 

A imagem do hidroavião (ou poderia ser um avião anfíbio), que dá título ao meu último livro, traduz, tenta representar o enfrentamento de eventos imprevisíveis que nos esperam, quando, a cada manhã, abrimos nossas portas. Um hidroavião, desde que disponha também de rodas (há tais modelos), pode movimentar-se na terra, na água, no ar. Estamos longe – e ainda mais nos dias que seguem – de habitarmos o Éden. As intempéries chegam, os amores cessam ou não se refletem, adoecemos, a bala perdida pode estar no trajeto. A evocação da terra, do ar e da água, elementos que nos são claramente presentes, metaforiza os diferentes universos daqueles inesperados, na verdade bastante calculáveis. Porque sabemos dos obstáculos, é necessário que aprendamos a suplantá-los, pilotando um hidroavião imaginário, imitando anfíbios ou outros seres, como os tardígrados microscópicos, que sobrevivem quaisquer que sejam as condições. É preciso atenção para as lições que a vida deixa. Diante desses milhões de enredos que a natureza e nós mesmos criamos, a poesia contemporânea, de forma objetiva, amplia a incorporação de algo da crônica, da fábula, do épico. Quando organizo um livro, tento criar capítulos que abriguem os poemas segundo o conteúdo dramático de cada qual. Depois, alinho os capítulos de acordo com determinado plano: a conclusão chegando pelo trágico ou pelo salvífico.

 

3-) Há um certa dialética na sua linguagem em criar quase duelos de imagens sobre vida e morte. Sua linguagem não é excessiva no sentido de gastar verbo ou palavras em demasia. Como é sua dilapidação vocabular e também imagética na hora de começar os poemas?

 

Meus poemas podem começar do final, o último verso a justificar os precedentes. Depende da imagem que me ocorra diante de uma leitura, um filme, biografia, de uma cena ou de uma experiência pessoal. Essa imagem, frase ou verso nunca vem só. Há toda uma trama que a circula. O desafio e o prazer estão na transmutação de algo que, no bom sentido, seria prosaico em linguagem poética, escapando dos clichês, das fórmulas excessivamente açucaradas.  Meus poemas, quase sempre, são trabalhados para que uma quebra final surpreenda o leitor, sem fugir do discurso. Até que um poema seja publicado, eu o reescrevo, podo ou estendo muitas vezes. Os cortes são mais habituais. Talvez porque eu não seja afeito a longos discursos, porque prefira algum silêncio ao excesso de ruído, o minimalismo surge espontaneamente. O trabalho está em tornar a mensagem ou a ideia claras, sem deixar de esgarçar a linguagem ao extremo possível.

 

4-) A ciência acho que pode até perpassar o livro, numa linha que talvez avalie hipóteses, sobre a vida e seus encontros entre matéria e espírito, entre acaso e pragmatismo, mas o trabalho com a palavra na sua mais fina tapeçaria poética descontrói este intuito científico, pois todo livro é alinhavado pelo mais completo trabalho poético. Fale um pouco sobre isso.

 

Você tem razão. Em um primeiro ângulo, para o fazer poético, é necessário que o poeta identifique as ferramentas que estão ao seu alcance. No escrever acadêmico, as normas de versificação devem ser conhecidas. Conhecidas, mas não necessariamente utilizadas. Picasso teve formação acadêmica, mas não se tornaria o criador excepcional que veio a ser se não ousasse a liberdade de expressão em suas obras. Quero dizer que as normas gramaticais de versificação auxiliam e ensinam, mas, na contemporaneidade, a meu ver, quando utilizadas em sua ortodoxia e em demasia, podem desaguar em trabalhos anacrônicos (com o devido respeito a opiniões contrárias). Noto que há poetas que, com muito sabor, desconstroem (nos cortes, separação ou reunião de estrofes) poemas originalmente acadêmicos (em relação à técnica), obtendo resultados para lá de interessantes. Um pouco de métrica, um pouco da disseminação e recolha do barroco, as assonâncias, em doses adequadas, não atrapalham. A minha opção, no entanto, caminha para o rompimento com todo o protocolo. Prefiro os versos brancos e livres. E não é a escolha mais fácil. Compor um poema não é tarefa simples. Confissões adolescentes (ou adultas) podem estar repletas de poesia, mas, levadas ao papel, não serão, necessariamente, um poema. Podem manter sua natureza original: só uma confissão. Podem também, com a metamorfose necessária, transformarem-se em obras potentes – como no movimento americano composto por Robert Lowell, Anne Sexton, Sylvia Plath e outros. A formação de todo escritor exige leitura, muita leitura. Nenhum poeta ganha estatura sem ler boa poesia. A leitura é a maior daquelas ferramentas a que me referi. Sob outro ângulo, a escrita ficcional jamais estará presa à realidade crua, canonizada, dura, científica e verossímil. Em poesia sobretudo. Para quem não está acostumado à leitura de poesia, o primeiro e maior dos erros é ser literal. Poesia é linguagem levada a extremos, transformada. Quando o poeta diz voo, necessariamente não estará recorrendo a um super-herói como eu lírico. O voo, ali, pode ser a sensação do voo, ou a oferta de redenção e leveza. A suspensão da incredulidade que o escritor de prosa deve provocar, no caso da poesia há de estar no bolso do leitor, antes de iniciar um livro. A pensada combinação de palavras, de ideias, sentimentos, sem obviedades, é que traz o assombro ao poema.

 

 Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011), Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura - Poesia de 2015), Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019) e Hidroavião (Editora Patuá, 2020). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine (Revista Pessoa, édition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

 

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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