ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: De Passagem    

Todos que me conhecem sabem que amo a 6ª Arte (a Literatura enquanto palavra), mas também sou apaixonada pela 7ª, as artes audiovisuais, que incluem a literatura para roteiro e o cinema. Tenho registrado mais de 5000 filmes vistos, sem contar com os que eu esqueci, pois comecei a anotá-los já na fase adulta. Muitos cineastas, entre eles Fellini, Buñel, Saura, Almodóvar, Spielberg, Hitchcock, Truffaut, Kubrick, Woody Allen, Polanski, Bergman, Godard, Coppola, Lumet, Szabo, Zemeckis foram responsáveis por mudar minha visão limitada de mundo. Eu considero a obra desses diretores e dos respectivos roteiristas como meus audiovisuais livros anteriores à era digital... Por falar em passado, sugiro aos cinéfilos um excelente documentário francês no YouTube “E a mulher criou Hollywood” (2016, direção das irmãs Clara Kuperberg e Julia Kuperberg), registrando o fato de que, antes do boom da indústria cinematográfica norte-americana, já havia cineastas mulheres pioneiras produzindo e exibindo seus filmes de forma não comercial. Porém voltemos ao presente. Tenho visto ultimamente ótimos longas metragens, citarei dois: o latino-americano WHISKY, uruguaio, com vários prêmios, inclusive o Goya. Notável atuação, roteiro, enredo, e, dependendo da interpretação que cada um der, teremos conclusões diferentes para o mesmo enredo; dos espanhóis, deliciei-me com O AUTOR (2017), especial para quem lida ou gosta de estrutura de roteiros, seja de romance, novela literária, ou teledramaturgia. O nome em inglês – “The Motive” – já sinaliza que o filme trata de um fundamento considerado básico na criação e na criatividade de uma sinopse: o que gera e move o conflito. É preciso, portanto, que haja um motivo suficientemente forte e impactante, pois sobre ele é lançada a pedra fundamental da ficção. Por isto, quando o professor de dramaturgia orienta Álvaro, o aluno que quer ser um grande escritor, para que observe tudo ao seu redor, a fim de basear-se em fatos e vivências da vida real, é exatamente isto o que ele faz, ao pé da letra (ipsis litteris)... O filme ainda se refere a outras técnicas de linguagem narrativa, sem esquecer a famosa reversão de expectativa...

 

Nesta crônica, no entanto, decidi falar de um filme americano, visto há poucos dias: OS PASSAGEIROS, (“Passengers”). A direção é de  Morten Tyldum, a produção de Stephen Hamel, Michael Maher, Ori Marmur e Neal H. Moritz, e o roteiro de Jon Spaihts. No elenco, Jennifer Lawrence e Chris Pratt. O filme foi lançado em dezembro de 2016 nos Estados Unidos e em Portugal,  e em janeiro de 2017 no Brasil, tendo recebido duas indicações ao Oscar nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Design de Produção. O enredo transcorre dentro de uma sofisticadíssima nave espacial (de última geração) que leva a bordo 5.000 passageiros em estado de animação suspensa, e que sofre uma pane devido a uma colisão com um campo de asteroides; as avarias atingem justamente a área das cápsulas de hibernação, abrindo uma delas e despertando um homem noventa anos – mais precisamente 90 anos, 3 semanas e 1 dia – antes da chegada da aeronave ao seu destino (o tempo total da viagem da Terra para Homestead II é de 120 anos). Ele é o único a estar acordado em uma nave totalmente automatizada, sem poder ter acesso a nenhum sistema operacional, sozinho em meio a uma multidão que dorme seu longo sono, esperando pelo futuro.

 

Categorizado de ficção científica (o que realmente é), o longa-metragem não conseguiu o sucesso esperado: os críticos torceram o nariz, porque nele não há ETs, monstrinhos, metamorfoses, etc. Porém talvez por estas razões eu tenha gostado tanto dele: é a prova de que um bom filme de ficção científica não precisa, necessariamente, exagerar no exotismo; mas entendo a decepção da crítica especializada, que não encontrou os esperados clichês do gênero. A filmagem é realizada em estúdio (sem externas) e em ilhas de edição (para a criação de efeitos especiais), com praticamente dois únicos personagens, um casal – ele engenheiro mecânico, ela escritora (Jim e Aurora), além de curtas (mas importantes) participações de um androide bartender (Artur) e de Gus (o chefe do convés). Para mim, é justamente esta aparente simplicidade que faz com que a real intenção do filme brilhe; a ênfase dada à mensagem, em vez da aventura intergaláctica em si.

 

A diferença entre a realidade fantástica e a ficção científica é que a primeira lida totalmente com a fantasia desenfreada, com hipóteses que jamais poderão suceder de jeito nenhum (burro falar, rato cozinhar, babá voar, recém-nascido dialogar como adulto, entre outras); já a ficção científica diz respeito a uma história que talvez possa vir a acontecer em uma época futura (exemplo: muitas invenções criadas por Júlio Verne se concretizaram na vida real). Só que no caso de PASSAGEIROS o futurismo é ilusório: constituindo-se em uma metáfora da nossa viagem existencial nesta “nave” azul chamada Terra, o questionamento maior é vivermos fincados nas lembranças passadas ou nas metas por vir, sem acordarmos para a realidade do presente.

 

A princípio achei que minha mente pudesse estar também “viajando” pelo espaço sideral; mas a flagrante confirmação de que esta ideia realmente estava nas intenções do roteiro surgiu na cena em que, depois de perder todas as suas mais remotas esperanças de encontrar uma saída para o seu problema, e sem coragem de pular fora da nave (embora ele tenha vislumbrado esta possibilidade), Jim desabafa sua angústia com o bartender Artur. O belo diálogo entre os dois é o seguinte:

 

Jim – Eu vou morrer de velhice nesta nave.

 

Artur – Vamos todos morrer. Até androides acabam em uma pilha de sucata.

 

Jim – Sou seu único cliente. Por quê está sempre polindo um copo?

 

Artur – Truque do ofício. Um barman parado deixa as pessoas ansiosas...

 

Jim – Então compartilhe comigo sua sabedoria de barman. Estou perdido no espaço.

 

Artur – Você não está onde quer estar. E acha que deveria estar em outro lugar.  Se pudesse estalar os dedos e estar onde quisesse... aposto que ainda se sentiria assim... Deslocado.  Procure não se fixar tanto em onde preferia estar ou você não aproveitará ao máximo onde está.

 

Jim – O que está me dizendo?

 

Artur – Pare de se preocupar com o que você não pode controlar. Viva um pouco.

 

Jim (REFLETINDO) – Viver um pouco...

 

Simples assim. Não, não tão simples: como se pode apenas viver um pouco?... Além do mais, essa fala  aparentemente inofensiva introduz o “jogo de duplos”, mencionado por Michel Maffesoli como sendo um dos elementos responsáveis pela atual mitologia das máscaras humanas. Máscaras? Mitologia? Como assim? Todos os filmes de aventura são a recriação de sagas (sejam de ficção científica ou não, entre humanos ou entre humanos e/ou alienígenas), sagas estas que, embora continuem lidando com arquétipos universais, (emoções e sentimentos comuns a todos, como solidão, passado, futuro, metas, amor, tristeza, raiva, ética, fatalidade, destino, desterro, exílio, medo, amor, agressão, livre arbítrio, aceitação), aparecem hoje distantes do elemento “maravilhoso” de antigamente (com bruxas, gigantes e varinhas de condão); diferentes das narrativas históricas, que sempre se baseiam em um sujeito senhor de si, as epopeias de agora estão ligadas a universos fantásticos manifestados no desejo de estar-se em um outro lugar, permitindo, segundo o sociólogo francês, “que todas as facetas de uma pessoa se atualizem” – ou seja, autorizando que os personagens também apresentem o seu lado sombra. É exatamente o que acontece em PASSAGEIROS: ao optar por seguir o conselho do androide, Jim resolve realmente "viver um pouco": primeiro, invade a área da primeira classe para ter melhor comida, melhores acomodações e alguma opção de lazer (ele viaja na classe econômica, e, mesmo isso só foi possível por ter assinado um contrato de trabalho com a companhia de turismo, no qual ela receberia, a título de comissão, um percentual de todo o trabalho que ele fizesse no novo mundo – portanto, um mundo novo bem semelhante à Terra, com divisão de classes e exploração de mão de obra...); por fim, nosso herói-mártir transforma-se em um anti-herói carente, e no auge do politicamente incorreto, um ano depois de lutar bravamente consigo mesmo, ele sucumbe à tentação de abrir a cápsula de Aurora. Embora sua atitude seja inaceitavelmente invasiva é esta irracionalidade ética que acaba “tornando possível a resistência e a permanência da sociabilidade”, com todas as consequências desprazerosas e agradáveis advindas da atuação do duplo – a encenação (daí as máscaras) e o desmascaramento (daí a face soturna).

 

O filme é denso, mas bem-humorado, e de uma ironia fina, muito sutil: quando Aurora sabe que foi Jim quem a acordou deliberadamente, se revolta e comenta com Gus: – Isso é assassinato! Aqui, no caso, não se trata de matá-la, mas, ao contrário, de “revivê-la”, de libertá-la do estado de apatia, de despertá-la para a consciência e para a vida do aqui-agora (provavelmente o roteirista deve ter lido o livro de Eckhart Tolle sobre o assunto...). Lógico que ela tem todo o direito de não aceitar ou querer este momento presente (“presente de grego”?) que não escolheu; mas, diante do irreparável, do irremediável, do irreversível... e agora, Aurora?

 

O filme evidencia o que McLuhan certa vez afirmou: “Não há passageiros na nave espacial Terra; somos todos tripulação”. Dentro deste contexto, gostei de não haver os estereótipos corriqueiros de brigas ou conflitos entre estranhas raças que se estranham, pois este viés mais simbólico levou-me a indagar como estamos vivenciando nossa permanência no tempo e no espaço dentro desta nossa nave interplanetária: escolhendo passar os anos que nos restam encapsulados ou atentos?, adormecidos ou conscientes?, sendo sugados aparentemente à nossa revelia em direção a um buraco negro ou nos sentindo gratos por termos, apesar dos perigos das colisões, sensibilidade para admirar a beleza da rota desta Jornada nas Estrelas?

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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