ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Luís Giffoni


O que é uma crônica?    

Começo de tarde no centro da cidade. Sol de verão. Asfalto escaldante. Barulho de motores, buzinas e camelôs. Cheiro de combustível queimado. Pessoas se atropelam no passeio. Um homem de terno vende Jesus Cristo em módicas contribuições mensais para uma igreja. Sim, pode pagar com o cartão de crédito e ganhar milhagem para as férias. Ao lado, uma senhora anuncia bilhetes de loteria. Diz que o final é o ano de meu nascimento. Erra para mais. Um pedinte estende a mão. Yesterday, a música dos Beatles, vem da banca de gravação pirata. Um eleitor xinga o presidente e o governador. Outro eleitor devolve em dobro o xingamento.

 

Caminho, observando a diversidade humana. Uma questão, levantada por um amigo, me persegue desde a manhã: o que é uma crônica? Não sei. A ignorância me incomoda. Exerço um ofício que desconheço.

 

Compro uma caixa de chicletes do garoto que jura alimentar a família, pego um dos quadradinhos brancos, levo-o à boca. O gosto de menta inunda as papilas. Descubro o sinal de pedestres aberto. Preciso atravessar a larga avenida. Apresso-me. Cruzo a faixa, de olho nos carros à direita. Rosnam ao acelerador, quais pitbulls contidos pela frágil cerca de luz vermelha. Devo andar ainda mais ligeiro.

 

Entre uma e outra passada, ocorre-me que tenho todos os sentidos em alerta. Percebo sons, cores, odores, gosto, o toque dos pés no chão, até o sentido das metáforas. Na infinitude de um átimo, penso no cérebro. Imagino-me dentro dele. Os estímulos chegam de todos os lados, são processados em áreas diferentes, do occipital ao frontal, no entanto eu não me vejo dividido. Sou um só, consolidado, como se possuísse um único sentido.

 

Essa ideia me leva em frente. Deve haver um centro integrador dos estímulos, talvez tenhamos uma matriz da consciência, do eu, do ego, do self, uma cozinha na qual todos os neurônios têm um pezinho lá dentro. Talvez exista um superneurônio da subjetividade. Talvez o cérebro inteiro exerça a função de ator, diretor e observador simultâneo do filme da consciência e nos iluda com a impressão de unicidade. Talvez é uma boa palavra para remediar minha ignorância.

 

Em outro lampejo, suponho que, por causa desse centro sintetizador, buscamos sentido nos eventos mais díspares. Faz parte da fisiologia cerebral unificar o mundo, alcançar uma Teoria de Tudo ou a Verdade Última. Ou criar teorias de conspiração. E também rir ou lamentar a condição humana. Rememoro uma piadinha recém-ouvida: "eu sempre pensei ser o cérebro o principal órgão do corpo, até descobrir quem me fez pensar isso". O sinal fecha, os pitbulls mecânicos rosnam ainda mais alto e partem para o ataque. Começo a correr, olhando para trás. Ao pisar no meio-fio, meu pé tromba numa base de concreto abandonada pelo departamento de trânsito, perco o equilíbrio. Danço um balé de bêbado, ora à esquerda, ora à direita. Solto patadas sobre o chão, no inútil esforço de me manter em pé.

 

Aterrisso junto a vários transeuntes. Minhas mãos, joelhos e queixo ficam esfolados. Alguém começa a dar uma gargalhada, as testemunhas deixam-se contagiar.

 

Morro de vergonha. E raiva. E dor. Sinto que o coração, não o cérebro, é o centro de tudo. Levanto-me, limpo os ferimentos com a roupa, a pergunta insiste: o que é mesmo uma crônica?

 

 

Luís Giffoni (nome completo: Luís Ângelo da Silva Giffoni), nasceu em Baependi, Minas Gerais, em 1949, onde cursou as quatro primeiras séries do ensino básico. Continuou sua formação em Belo Horizonte, para onde veio em 1960, até se graduar em 1972 em engenharia civil pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais. Também cursou astronomia na UFMG e literatura norte-americana no ICBEU-BH – Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos. Tem 21 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, ensaios e novelas juvenis. Essas obras receberam diversas premiações, além de estudos, traduções e adaptações no Brasil e no exterior. Sua peça In Memoriam foi encenada pelo Oficinão do Grupo Galpão, em 2004. É palestrante em todo o Brasil, bem como nos Estados Unidos e Europa. Mora em Belo Horizonte. Tem 3 filhos.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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