ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Tanussi Cardoso


Poesia    

“Sou como o corifeu medieval
que percorre as aldeias e vai embora.
É necessário que quando eu partir
o palco não fique vazio.”
Franco Basaglia

 

Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

 

 

 

 

 

 

AS MORTES

 

quando o primeiro amor morreu
eu disse: morri

 

quando meu pai se foi
coração descontrolado
eu disse: morri

 

quando as irmãs mortas
a tia morta
eu disse: morri

 

depois, a avó do Norte
os amigos da sorte
os primos perdidos
o pequinês, o siamês
morri, morri

 

estou vivo
a poesia pulsa
a natureza explode
o amor me beija na boca
um Deus insiste que sim

 

sei não
acho que só vou
morrer
depois de mim

 

 

 

 

 

 

CERTAS RESPOSTAS

 

pelo prazer, pelo desprazer
para experimentar e doer
para de amor não morrer

 

pra ficar de bem comigo, pra ficar de mal comigo
pra ficar comigo

 

pela palavra céu, pela palavra flor, pela palavra terra
pela palavra pedra, pela palavra qualquer
pela palavra

 

por tudo que é certo e que medra
por tudo que é bom e se enterra

 

pela cor e pelo riso
para dar voz aos não-vivos
para espantar os fantasmas
por Letícia e por Isaura
por João e por Narciso

 

pelo aprendizado do homem, pelo aprendizado do pássaro
pela forma e pela fôrma
pelo mar da metáfora

 

pela aventura, pela desventura
pela desconstrução da morte, pela arquitetura da vida

 

pelo humano
pelo que está por trás do pano
pelo sagrado, pelo profano
por deus e o diabo-a-quatro
pelos santos sem pecado
pelo pecado

 

pelo absurdo, pelo susto
porque acredito no sexo e no parafuso

 

pela inútil beleza do nome
porque creio no pai, na mãe e no lobisomem

 

porque invento o que digo e inverto o que sinto
porque existe o osso e o paradoxo

 

porque tenho culpas ancestrais
porque acredito em Deus, e não

 

pela insônia
porque respiro o sono dos injustos

 

pela estultícia
pela agonia de sobreviver a tudo
porque sou funcionário público

 

pelas notícias do rádio
pelo concreto querer, pelo poder abstrato

 

pela explosão do desejo, pela intimidação do ego
por dinheiro, por sucesso
pela máquina que forja o que vomito e piro
porque suspiro
pelo que está à margem, na igreja, na prisão e no hospício

 

porque lírico
porque cínico
porque perverso

 

porque mar
porque deserto

 

por ser único
e ser primevo

 

porque escravo
porque liberto
                                    escrevo

 

 

 

 

 

 

CILADA

 

O amor não é a lua
iluminando o arco-íris
nem a estrela-guia
mirando o oceano

 

O amor não é o vinho
embebedando lençóis
nem o beijo louco
na boca úmida do dia

 

O amor não é a angústia
de se encontrar o sorriso
nem o vermelho
do coração dos pombos

 

O amor não é a vitória
dos navios e dos barcos
nem a paz cavalgando
cavalos alados

 

O amor é, sobretudo
a faca no laço do laçador
O amor é, exatamente
o tiro no peito do matador

 

 

 

 

 

 

DA POESIA

 

o canto do pássaro
à procura do vento
não

 

a promessa de amor
nas faces da lua
não

 

o medo do mundo
em cima do muro
não

 

o malabarista
na corda-bamba
não

 

o olho do tigre
exato certeiro
preciso

 

o olho do tigre
sim

 

 

 

 

 

 

DE FUMAÇA, A PALAVRA        

 

Toda palavra é noite.
Perpetua a angústia do não encontro.
Há sempre perda no contato,
Mesmo que se some à pele o espanto.

 

Toda palavra é prisão e liberdade.
Intervalo entre som e silêncio.
Toda palavra é falta.
Suspiro entre sopro e chama.

 

Toda palavra é não.
Dentes demasiados de dor.
Toda palavra é vã e vão.
Ainda que belamente perfeita.
Ainda que de adjetivos – cilada, aparência.

 

Toda palavra é falácia.
Nada e maravilha.
Toda palavra é nunca.
O amor, por exemplo. Ou como Deus se pronuncia.

 

(Eis que nenhuma palavra é dia.
A não ser alguma que à esperança mentia.)

 

Toda palavra ornamenta uma lápide
De mistérios e magias.
Daí, a incompletude – sua infinita largueza.
Daí, a poesia implícita em cada uma:
Barro e cimento. Pedra-viva.

 

Toda palavra diz-se cedo.
O adeus, por exemplo. Ou como o morto se anuncia.


 

 

 

 

 

DO APRENDIZADO DO AR

 

imaginemos o ar solto na atmosfera
o ar inexistente à luz dos olhos
imaginemos o ar sem senti-lo
sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre
o ar sem cortes e fronteiras
o ar sem o céu
o ar de esquecimentos
imaginemos fotografá-lo
fantasma sem textura
moldura inerte
quadro de sugestões e aparências
imaginemos o ar
paisagem branca sem o poema
vácuo impregnado de Deus
o ar que só os cegos veem
o ar silêncio de Bach

 

imaginemos o amor
assim como o ar

 

 

 

 

 

 

FIAT LUX
para Cristina da Costa Pereira

 

o tempo
vem dos pés e das mãos e da água e dos ventos
e da terra
e do fruto do ventre das mães
vem das árvores primevas
da paz que faísca em sua casca
nasce da pureza do sangue das areias
da existência da folha em branco
das ancestrais lembranças do caráter mágico
das palavras

 

o tempo
nasce das escrituras dos pássaros
ou do seu canto
ou do riso do primeiro galo na primeira manhã
ou antes
quando a ideia de um Deus queimava os olhos
e as crianças brincavam
no sopro da espuma dos versos dos poetas

 

vem da seda das abelhas
da pele das tartarugas
do encontro da aranha e sua rede
do ínfimo grão dos desertos

 

 

 

o tempo
começa em ti
no teu gemido diante do umbigo da lua
e das espirais das nuvens
nasce das cidades invisíveis
do movimento que existe no jugo do criador
e da pedra fundamental
nasce do amor das lagartas
das uvas moídas no vinho
do fogo dos vulcões
dos céus e dos parques
do espírito que perfuma o ar
nasce do mistério gozoso
que existe entre o espinho e a rosa
dos relâmpagos que iluminam os cabelos
da primeira formiga no seu labor diário
das asas dos peixes quando esses voaram

 

o tempo
nasce do acaso das galáxias e das estrelas
do húmus das chuvas
nasce da memória da poeira
dos incêndios do desejo
vem ungido pelas dores dos profetas
nasce do voo de Deus e seu suor
e do dedo do sol entre as sombras

 

o tempo
resiste no sorriso lento da noite
ofertando-se à boca estelar e melancólica
da aurora mais longínqua
e harmoniza o silêncio
apascenta o vinagre
colhe os estrumes e o mel
e nos faz estremecer

 

sós e humanos

 

 

 

 

 

 

O TÊNUE FIO DO TEMPO

 

o menino, o pai e o violino
unidos, únicos, sozinhos

 

árvores num jardim de delícias
dedos de brinquedos do destino

 

delicados, os gestos do pai
ensinam ao menino o violino

 

cordas num mesmo abraço
sons de um mesmo sino

 

(só a vida determina
a equação dos caminhos)

 

não se sabe onde doeu o grito
quando o elo foi perdido

 

o menino cresceu do pai
entre solidões e atritos

 

e nunca mais se tocaram
como se toca um violino

 

 

 

 

 

 

POEMA PARA QUALQUER ANO-NOVO
para minha sobrinha, Liane

 

Acolher pássaros.
Suas sombras de liberdade e beleza.
Ouvir seus piares de dor, fome e prazer.
Compreender a expressão das asas.
Pousá-los nos ombros, deixar-se com eles,
nessa viagem de busca e de calma.
Ser pássaro na sabedoria
de maravilhar-se com a vida
– ínfima e pouca –
em seus mínimos detalhes
de mistério e poesia.
Aprender a transformar migalhas
em sementes de ninhos.
: dividi-las.
Entender a nervura das distâncias
: obstáculos.
E quedar-se quieto à espera do canto.
E do voo.


 

 

 

 

 

SOBRE O AMOR

 

O amor acaba quando começa.
Como morremos no momento de nascer.

 

Morre sem hora marcada,
já que toda hora é a exata para se morrer.

 

Morre sem pressa e razão.
Na esquina, num beco da Lapa ou de Copa,
debaixo de chuva ou de sol.
Sangrando nas manchetes,
de tiro, faca ou flor.

 

O amor não sabe do nada ou quando.
Não tem rascunho ou projeto.
Não faz roteiro algum.
Morre por morrer, simplesmente.
De agonia ou de alegria,
aos poucos, aos solavancos,
ou empurrado de um barranco.

 

Num hospício, onde os loucos mandam.
Numa igreja, antes do sim.
Num trem, num barco, num táxi,
num avião, morre o amor.
Todo dia o amor é um cão, um santo,
um deus, um diabo,
um talvez; um salve-salve!
Mas, cheio de sentimentos;
de mágoa, dor e desprezo;
de desespero, morre.
O amor morre sempre do próprio amor.
Morre de amor.

 

Cheio de histórias comoventes
e sem sentido.
Cheio de dedos para dizer acabou.
O amor é assim: queima no peito
e explode como vulcão.
Deixa cinzas e rastros.
Covarde,
porque sabe que nenhuma palavra
é maior que o não.

 

 

 

 

 

 

SUBSTANTIVOS

 

Faca é faca
pão é pão
fome é fome
amor é amor.
Estranho desígnio das coisas
de serem exatamente elas
quando as olhamos sem paixão.

 

 

 

 

 

 

ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA

 

I
Os olhos de Marlon Brando na tela
e o peito sussurrante da menina bela.
A boca de Marlon Brando na tela
e as mãos da sorte nos seios dela.
As coxas de Marlon Brando na tela
e o suor do púbis doía nela.

 

II

 

A mão no escuro
escolhe o momento
exato de agir.
Ágil,
segura as coxas
da menina ao lado.

 

(Rock Hudson
beija
Elizabeth Taylor.)

 

As pipocas
se contorcem
de prazer.

 

 

TANUSSI CARDOSO é natural do Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo e Direito. Poeta, crítico, contista, tradutor, compositor e letrista de MPB. Tem poemas publicados em diversos países e traduzidos para o inglês, francês, espanhol, italiano e russo. Publicou 12 livros de poemas e está incluído em dezenas de antologias, nacionais e internacionais. Ganhou vários prêmios literários, aqui e no exterior. Seu livro mais recente, “Eu e Outras Consequências”, Ed. Penalux, 2018, ganhou o Prêmio Manuel Bandeira 2019, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. É membro do Pen Clube do Brasil, da União Brasileira de Escritores, da Associação Profissional de Poetas do Rio de Janeiro. Ex-Presidente do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro.

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Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

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