ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Vitor Eduardo Simon


Um pássaro em chamas colidindo contra as nuvens    

 

Anjo Voraz, segundo livro de poemas do escritor paranaense Marco Aurélio de Souza, como todo o bom livro de poesia, refuta a leitura ligeira. Requer apuro no olhar. Há que se devorar devagarinho cada bocado, deixar as imagens encherem os pulmões, sincronizar o relógio do coração no ritmo do verso, vasculhar as frestas do poema, de forma compassada, desfrutando a experiência.

 

O primeiro poema introduz o leitor na atmosfera que perdurará ao longo das 74 páginas, ora de forma mais gritante, ora mais muda, mas sempre ali. “Danúbio Azul” é o purgatório de onde corpos e almas, suspensas no tempo, desejam ser salvas, mesmo sabendo que fora dele não há salvação possível e nem desejada. “Danúbio Azul brilha esperanças fugidias / Em manhãs desencontradas”. O passado melancólico e fugaz faz contraponto com o rugido desafinado de um presente/futuro vazio e incerto. Esse é o fio de amarração do livro todo: o espetáculo de horrores da existência, ou de como a percebemos, mas que, ainda assim, é um espetáculo.

 

Há algo de podre nas entranhas do reino da mítica Rio Negro, paraíso alquebrado da infância, que se expõe qual um cadáver ao sol, mas que também se enleva ao som de trombetas ensurdecedoras.

 

O autor mostra ser exímio na arte de dosar o ritmo, transmutando com maestria (a metáfora do maestro cai muito bem aqui) os poemas da plena liberdade formal para um rigor que não é nem métrico, mas milimétrico, musical, como em “Enquanto as lágrimas vertiam em silêncio” e “A margem feia”: “Precoce a pele da flor preta está rugosa / Firme é o gracejo na paisagem de arrebol”.

 

Alguns versos são extensos: “Cinza celeste anunciando a prévia de mais um inverno melindroso”. Tal opção confere à escrita imagens complexas, reveladas de um só fôlego (respirar seria um desperdício), já que nos deixar sem ar é justamente o plano em andamento.

 

A vida de verdade, e também a morte, desfilam em ambientes bucólicos, cotidianos e solitários, onde a arte pulsa. A repetição do vocativo, como em 15 versos de “Eu te espero hoje à tarde e veremos tevê nesta sala de estar”, dá a dramaticidade perfeita para encerrar o poema, mostrando que o autor é cheio de recursos: “Bruno, o teu modo de amar era belo e por isso também eu te amei / Bruno, quando foi o cristal se quebrando no escuro do medo?”.

 

Os finais são na maioria muito bem marcados. Não há hesitação no que é dito e isso se mantém suspenso no ar que já não podemos respirar sem desassossego, com todo impacto que isso representa.

 

Quem lê é provocado a se ver dentro do poema, vislumbrando a si mesmo sob a égide do imaginário, fiel refúgio. Isso posto, vale o destaque para “Aborto onírico”, com sua riqueza de detalhes visuais, e certamente “Nenhum amor jamais hesita”: “Mãe, o quanto em ti / Era a menina organizando suas bonecas / Antes de lavar a louça e varrer a casa / Procurando Deus no brilho dos móveis”.

 

Em “E foi aí que a patrulha me pegou” e “Longe de mim a perfeição” há uma ironia mordaz, direcionada a quem se deixa despersonalizar por discursos panfletários: “Ficou o avatar empoeirado / Em descompasso com o vento das ideias”.

 

“Maitê (Uma carta ao futuro)”, que o autor dedica à própria filha, é de uma beleza sem par: “Pequena joia que costura a sua ostra / Sob a sombra de um herói desprotegido”.

 

Na terra dos pinheirais, onde polacos fumam cigarros contrabandeados e o frio congela as juntas da alma, um Anjo Voraz abre caminho com impetuosidade. Semelhante a um “pássaro em chamas” colidindo contra as nuvens (do poema homônimo que encerra o livro), num espetáculo de luz e sombras, de som e fúria. E que seja voraz enquanto dure.

 

[Anjo Voraz, Marco Aurélio de Souza - Editora Benfazeja, 2018]

 

 

Vitor Eduardo Simon é publicitário e acadêmico de Filosofia. Publicou dois livros de contos: "Bravos contos breves", em 2014, edição do autor, e "Moedas soltas no bolso", em 2018, pela Benfazeja. Fez a sua estreia como poeta em 2020, com "Cata-vento imóvel", edição do autor.

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