ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Genocidas    

Minhas crônicas são normalmente itinerantes. Sou visto caminhando pelas ruas, observando as pessoas, falando com elas, gosto do contato informal com gente, divirto-me, há sempre uma história a ser conhecida, desde menino sou apaixonado por relatos, a oralidade acaba me remetendo ao meu bisavô Américo, minha avó Heloísa, eles enchiam minha cabeça de aventuras.

 

A pandemia isolou-me em casa, mas sinto saudade das calçadas, caminhar pelo bairro, tomar um cafezinho nos botecos. Contudo, não posso, nem devo me arriscar. Tenho mais de sessenta anos, estou classificado nas estatísticas entre aqueles do grupo de risco maior, o Covid-19, covarde, tem mais facilidade em destruir idosos. Quem não tem?

 

Gostaria de estar aqui falando de coisas mais amenas. Da música que ouvi um cantor ambulante tocar no metrô, do pastel comido na feira, das minhas amigas maritacas, do casal de tucanos visto outro dia de relance, da vida e surpresas por ela trazidas. Mas a rotina anda sem graça demais. Já nem me lembro da última vez em que andei de metrô. Vejo da janela as pessoas passarem mascaradas e a imagem é para mim aterrorizadora. Tudo remete à possibilidade da morte, há já algum tempo estamos flertando com ela. 

 

Não providenciaram com antecedência um jeito científico de lidar com o vírus. Ele chegou ao Brasil, encantou-se com a terra como todo mundo se encanta e resolveu fazer por aqui a sua festa. Os nossos governos genocidas, em todas as esferas: municipal, estadual e federal, quedaram-se incompetentes, atônitos e nada fizeram de concreto para lidar com o desastre no campo da saúde. E seres humanos começaram a adoecer, a curva de mortos disparou. Temos hoje números terríveis. Ontem, dia nove de junho, contabilizávamos 739.503 casos, com 38.406 óbitos. Se lembrarmos que em primeiro de maio havia 6.328 mortos, podemos ter noção do estrago ocorrido em pouco mais de um mês. Insistindo na irresponsabilidade e desprezo pela vida de seus semelhantes, cegos ao fato de que temos ainda um número ascendente de perdas, obedecendo às exigências do poder econômico, as autoridades pensam em retirar a população do isolamento. O comércio das ruas primeiro, os shoppings depois. Justamente quando deveriam estar cogitando sobre um fechamento mais rigoroso, obrigatório, multando quem saísse às ruas.

 

Há por parte do governo federal falas intoleráveis, de uma violência inacreditável. O ministro da fazenda, por exemplo, o Sr. Paulo Guedes, declara que se morrerem muitos aposentados, será bom. Equilibrará melhor as contas do sistema de previdência público. Já o do meio ambiente, o Sr. Ricardo Salles, fala em aproveitar o momento em que a imprensa está distraída com as peripécias do corona vírus, para invadir terras indígenas da Amazônia.

 

Um amigo escritor, posta em uma das redes sociais que sua sogra, idosa, sem desejar se arriscar e voltar ao trabalho, tentou negociar com a empresa um jeito de exercer suas funções em casa. Não conseguiu, foi demitida.

 

Existe, portanto, em meu entender, um plano bastante claro. Volta-se ao trabalho. Abrem-se lojas e o país. Como estamos no ápice da curva de mortes, haverá um verdadeiro massacre. O número crescerá exponencialmente, teremos dificuldade de internar os pacientes, médicos deverão escolher quem vive e quem morre, o desastre será total. Para então fecharem novamente com maior rigor, e provarem para os empresários, incapazes de enfrentar, a necessidade de os cidadãos ficarem mesmo em casa.  Sabe-se lá quantas mortes teremos então.  

 

De tudo isso só tenho uma certeza: são mesmo os governantes genocidas. E vejam bem o significado da palavra, muitas vezes usamos termos sem conhecer direito a acepção correta do termo. Genocida é aquele capaz de exterminar deliberadamente, parcial ou de forma total, uma comunidade. Temos um presidente certamente genocida, insensível, incapaz de enviar condolências aos familiares de qualquer quer tipo de vítima. Afirma sempre que um dia todos morreremos. Governadores e prefeitos estão caminhando pelo mesmo chão sangrento.

 

Antes de terminar, uma estatística triste, emocionou-me demais. Somos o país com maior número de mortes de enfermeiros. Meu respeito e reverência a todos.

 

Junho/2020 

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Paginação:

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