ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Algumas questões filosóficas em tempos de COVID    

Questionar, fazer perguntas, inserir a dúvida.  Isso é a base da filosofia, é a base da ciência.

 

O simples é complexo, o complexo é simples.  Lembremo-nos que Sócrates o filósofo que deixou discípulos imensos, entre eles Platão, foi condenado à morte por perguntar demais.

 

Não existe a total objetividade nem a total subjetividade. O que é o centro, o que é o periférico? Temos de ter consciência que muitas vezes o centro consolida-se em opiniões dominantes. O caos pertence a um questionamento entrópico e como tal desequilibrante.

 

Como Sartre nos evidenciou, temos a liberdade de agir. Mas haverá mesmo a total liberdade?

 

O automobilista que se depara com um carro louco que em contramão vem ter contra ele, o que fará? Que milionésimo de segundo tem ele para pensar e fazer seja o que for? Travará? Ficará imobilizado? Tentará uma manobra de desvio?

 

O instinto de sobrevivência é inerente a qualquer espécie.  Seja de nós humanos seja de animais. Perante a pandemia que todos vivemos no mundo regressamos ao universo dos leprosos. A nova lepra que está em todo o lado. Andamos de máscaras, equipados e não contactamos ninguém, nem com os nossos maridos ou mulheres.  Evitamos fazer amor. Não queremos o contágio. Urgimos em viver. Protegemos os nossos filhos. Ficamos em pânico que os nossos jovens fiquem doentes. É natural. É o sangue do nosso sangue.  Esta condição de pânico perante um inimigo pandemónico e espalhado por toda a parte. É algo de kafkiano. Nem Kafka imaginou um cenário assim.  Nem Sartre. Nem Sócrates bem lá no universo da Grécia Antiga.

 

Mundo novo de perplexidades. Mundo de esventramento. Precisamos de ver o sol. Mas em casa nos recolhemos. As ruas desertas. Pessoas de máscara. Cenários de Dante.

 

O século XXI, mas este apocalipse é mais metafórico e agónico que as duas guerras mundiais do século XX.

 

Estamos todos sem exceção na trincheira da morte. Os excluídos andam por aí mais desprotegidos e desorientados sem saber o que fazer. Os afortunados não saem de casa e têm dinheiro para pagar a comida ao domicílio.

 

Mas esta pandemia traz outras consequências: uma economia mundial parada. Estagnada. Milhões de pessoas em lay off ou em despedimento. Um estatuto de grande instabilidade. Uma enorme inquietação.

 

Os líderes mundiais alguns estão a responder bem. Mas os sinais são preocupantes. O COVID veio para ficar. Mesmo que haja uma vacina daqui a 1 ano a pandemia vai por aí solidificar -se.  E nós?  Estamos numa imensa fragilidade. Expectantes. Por um lado, está tudo com medo de perder o emprego. Por outro receamos a doença. Por outro todas as pessoas têm contas para pagar. O que fazer? Ser emergente. Ser empreendedor e trabalhar em consonância com uma realidade nova.  Teletrabalho. Mas não só. Procurar o trabalho que se adeque a um universo em COVID.

 

     1.  Interrogar? Sempre. Mas esta pandemia é o pânico total. É transpor as fronteiras  totais.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Junho de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Costa, Antônio Torres, Diego Mendes Sousa, Beatriz Aquino, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carmen Moreno, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Cláudio Daniel, Danyel Guerra, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Elisa Scarpa, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Hermínio Prates, José Manuel Simões, Julio Inverso, Leila Míccolis, Liliana Ponce ; Rolando Revagliatti, entrev., Luís Giffoni, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Ana Carol Diniz Hassui e Audemaro Taranto Goulart, Ricardo Ramos Filho, Tanussi Cardoso, Vitor Eduardo Simon


Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR