ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Encantos de um sorriso    

Há quem ilumine qualquer ambiente com um sorriso. Às vezes, em uma fila de banco ou casa lotérica, o que se vê? Todos debruçados em preocupações, pensares distantes, olhares perdidos, impacientes, um clima tenso. E aí, alguém, de bem com a vida, faz um chiste, diz algo criativo e pronto! As carrancas desaparecem, rostos se abrem em sorrisos. É a primavera do bom humor que se apresenta. E tudo fica mais ameno, uma leveza reina no ambiente, as preocupações caem no baú do esquecimento. Alto astral, é o que se define.

 

Mas também há quem diga o que não se deve ouvir, como contar uma piada sem graça e fora de hora. “Sabem aquela do ...” Ora, todos já sabem, essa é do tempo que piada atendia pelo apelido de anedota, embora sejam diferentes (piada é um caso breve, com final que às vezes surpreende e anedota é uma narrativa curta, geralmente com duplo sentido). Ambas poderiam ter a finesse francesa, a elegância inglesa ou o escracho do português, mas o objetivo era fazer rir. No auge desse tipo de humor, as mulheres penavam com os espartilhos definidores de silhuetas e os homens suavam sob coletes pretensamente elegantes, em colonizado arremedo dos europeus, principalmente dos franceses. Era chique,  mas apetrechos totalmente inadequados para o calor dos trópicos.

 

Há quem prefira ironizar – para não ferir suscetibilidades e ninguém com o riso do deboche – quando explodem discussões, uns da banda esquerda, outros da banda direita do espectro político. Quanta insanidade! O dicionário bestialógico se emprenha com os absurdos “argumentativos” de cada lado. Sofismam, distorcem, berram e até agridem quem ousa discordar.

 

Sobre risos e sorrisos, cito crônica escrita por Ruy Castro, incluída na coletânea A arte de querer bem, que narra acontecimento durante o velório do sambista João Nogueira, em 2000. “João era um artista muito querido, daí as cenas de comoção na capela do São João Batista. Um dos mais inconformados era um fã tocado pelo álcool, que se debruçava, desconsolado, chorando sobre o caixão. Quando as pessoas tentaram consolá-lo – “Calma, meu senhor!’ -, ele se debateu e sua dentadura escapou e caiu sobre o peito de João Nogueira. Seguiu-se um momento de compreensível mal-estar. Ninguém parecia disposto a pescar aquele objeto, que lembrava uma meia goiaba. Mas o homem não se deu por achado. Sem parar de chorar, disse, embargado: “Vai, João! Leva contigo o meu último sorriso!”

 

Não creio que, se verdadeiro, esse seja um caso de humor negro, que utiliza aspectos mórbidos, politicamente inadequados, para tentar fazer rir. Seria mais um exemplo de divertissement, modo de amenizar a dor da perda de um amigo querido. Se não for pedir muito, gostaria de caso semelhante contado por um chegado antes que me afundem na última morada, buraco onde todas as vaidades fenecem. Isso se eu me for antes de todos eles, pois pretendo ser o último, um espalhador de sorrisos como sementes da bem querença.

 

Há quem faça graça ao denunciar a estupidez humana, os donos de pátrias armadas para hediondas guerras. Em crônica publicada no jornal Folha da Tarde, edição de 25/10/1951, e incluída no livro Retratos parisienses, Rubem Braga (1913-1990) revela um diálogo com o poeta Giuseppe Ungaretti (1888-1970),  durante caminhada  pelas ruas de Roma, destroçada pelas bombas nazistas durante a II Guerra Mundial (1939-1945). Ao ver alguns pedreiros que reformavam a fachada de uma velha casa, o poeta comentou:
 - Roma acaba de se refazer mais uma vez. Agora, depois de mais uma guerra, ela mostra de novo sua bela face!

 

E o cronista, que se confessou um mau-caráter eventual, lhe disse:
 - Esses homens precisam trabalhar depressa. É preciso acabar logo esses serviços, deixar a cidade bem-arrumada, porque já está na hora de começar outra guerra.

 

Diante da proposital provocação, “o velho, aos brados, no meio da rua, me excomungou.”

 

Seria o mesmo que, diante das queimadas amazônicas, sempre desmentidas ou diminuídas pelos donos do poder, alguém, por sadismo ou idiotia, comentasse que é bom que a floresta queime até o último centenário tronco para que outras árvores nasçam das cinzas.

 

E sobre a intolerância que nos vitima e conduz à violência é preciso ficar atento ao que disse o escritor Thomas Mann (1875-1955):
 - Cada homem que atiça o ódio deve sempre pensar que está apressando a catástrofe.

 

Hoje, nesse Brasil sem rumo, a quem se adequa a frase?

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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