ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


EDITORIAL: CAPITALISMO CRIMINOSO    

A UNICEF, agência das Nações Unidas para a criança, acaba de alertar o mundo de que, este ano, morrerão de fome todos os dias cerca de 6.000 crianças. É um número brutal, avassalador, criminoso mesmo em tempo de pandemia porque, mesmo neste tempo de pandemia, a humanidade dispõe de recursos para que ninguém morra de fome. Então porque morrem tantas crianças à fome ainda hoje?


A História tem-nos dado a resposta. O sistema capitalista que assumiu a sua arrogância extrema na vertente neoliberal - que é aquilo a que assistimos sobretudo após a queda do bloco dito comunista, em 1989- demonstrou que, através do anormal funcionamento do mercado, através da cartelização, através do abuso de posição dominante, através da corrupção e através da fraude, tem levado à concentração da riqueza num cada vez mais reduzido número de famílias, chegando ao ponto de 1% dos mais ricos do mundo deterem cerca de 85% da riqueza mundial.


O Estado, em vez de agir como garante do bem estar dos seus cidadãos, nomeadamente através da distribuição da riqueza criada e da garantia do funcionamento dum mercado justo, exerce apenas a função de protetor dos mais poderosos, aceitando a cartelização, a corrupção e a fraude, e protegendo a banca criminosa quando esta abre falência através da injeção de dinheiro proveniente de impostos lançados sobre os cidadãos.


A ganância dessa classe dos imensamente ricos parece não ter limites, e tudo vale para fugirem aos impostos que devem pagar, não lhes chegando sequer os benefícios fiscais com que são presenteados pelo poder.


Mas, para lá da concentração da riqueza, há o enriquecimento ilícito, criminoso, dos detentores do poder através da corrupção levada a cabo pelos detentores do dinheiro, frequentemente através do assassinato e da repressão, e os gastos enormes em despesas não produtivas como são as despesas militares que, por si só, bastariam para alimentar toda a humanidade que padece de fome.


A consequência disso é a opulência e o exibicionismo de uma minoria
como contrapartida da miséria e do sofrimento da maioria de cidadãos.
Não menos grave ainda é o desperdício enorme, nomeadamente de alimentos, que se verifica nas classes mais elevadas. Só esse desperdício, se não existisse, permitiria também eliminar a fome no mundo.


Estamos a viver um tempo de pandemia. É vulgar dizer-se que os tempos de grandes pandemias são os tempos de grandes transformações. O egoísmo dos Estados, em particular dentro da União Europeia, como temos verificado nos últimos dias, não deixa muitas esperanças. Suspeitamos que, como dizia Lampedusa, em O Leopardo, vá mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. E que milhões de crianças continuem a morrer de fome no mundo todos os anos.


Uma mudança nos sistemas políticos é urgente. Um estado garante da liberdade, garante da justa distribuição de riqueza e da solidariedade, garante de um mercado justo que funcione em sintonia com uma planificação indicativa mas eficiente, um Estado que detenha uma participação decisiva no tecido económico e financeiro é o Estado de que necessitamos.

 

Este Estado só poderá surgir, no entanto, com muita luta, com a participação dos cidadãos no governo das nações muito para além do voto cíclico, com um real, e não apenas formal, governo do povo.

 

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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