ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Antônio Torres


Juan Rulfo no Rio    

Foi no dia 21 de novembro de 1982. Era um domingo. Ele veio tomar um café com este escriba, que no final da tarde seguinte iria apresentá-lo à plateia da Maison de France, como se alguém chamado Juan Rulfo, um expoente da literatura hispano-americana em pleno boom mundial, precisasse de apresentação.

 

Quando o cônsul do México disse ao telefone: “O maestro já está aqui, posso levá-lo aí, agora, para um cafezinho?”, tratei de pegar um bule, exultante. Afinal, ia receber um monumento literário do século 20 ainda aos 64 anos, que chegou elegantemente de terno branco, em questão de minutos, trazendo um exemplar da belíssima edição especial do Pedro Páramo, ilustrada pelo seu filho Juan Pablo, e já com uma amável dedicatória “del amigo y compañero”. Um presentão para quem havia nascido no Junco, espécie de alma gêmea baiana da mexicana Comala, a cidade morta inventada por Juan Rulfo, que tanto assombrara o mundo.
Recordo-o como um homem afável, calmo, discreto. Já o seu acompanhante era grandalhão e espalhafatoso. Numa gesticulação desastrada, acabou por entornar o líquido quentíssimo da xícara sobre o meu ilustre e impecável visitante, passando a se auto recriminar infinitamente. Aí começou a trovejar. Foi a deixa para el maestro, com sua voz branda, pôr um fim ao constrangimento do estabanado cônsul, mudando de assunto:
— Que bonitos são os trovões do Rio! — exclamou. — Parecem os de Jalisco. — Então todos relaxamos, sob as cintilações dos relâmpagos e subsequentes estrondos.

 

Ele ficou uns dias na cidade – sem mais transtornos –, cumprindo uma agenda de palestras, entrevistas, recepções, o que incluiu um jantar na casa do dramaturgo Guilherme Figueiredo, em Copacabana, onde o já fatigado palestrante, com a paciência de avô, se mostrou incansável na arte de responder às mesmas perguntas que lhe faziam em toda parte.

 

Em 1985, reencontramo-nos num congresso na Bulgária, onde Juan Rulfo falou para 150 escritores de todo o planeta, entre eles o português Urbano Tavares Rodrigues:
— Vim aqui para dizer apenas que a melhor literatura do continente americano é a brasileira. E que o seu maior romance chama-se Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

 

E aí felicitou a direção do congresso por haver convidado um representante daquela que ele considerava a melhor literatura do continente americano.

 

Naquele instante uma romancista inglesa tirou os fones dos ouvidos e estendeu a mão para o tal representante da literatura que Juan Rulfo tinha em tão alta conta, dizendo:
— Estou orgulhosa de estar sentada ao seu lado.

 

Mas não foi só pelos seus gestos generosos que Juan Rulfo se tornou um dos meus santos de cabeceira. Foi por ele, além de ter escrito Pedro Páramo e O planalto em chamas, nunca ter contado a ninguém sobre o desastre do cafezinho em minha casa.

 

 

O escritor brasileiro Antônio Torres é o oitavo ocupante da Cadeira nº 23 na ABL - Academia Brasileira de Letras. Nasceu no dia 13 de setembro de 1940, num distrito de Inhambupe chamado Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no sertão baiano.  Foi repórter no Jornal da Bahia, a partir de 1961, transferiu-se para o diário Última Hora, de São Paulo. Na capital paulista, veio a trocar o jornalismo pela publicidade, tendo sido redator e diretor de criação em várias agências de São Paulo, Portugal e Rio Janeiro. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação do ano. Seu universo romanesco é constituído de cenários rurais, urbanos e da História. É também contista, cronista e autor de uma história para crianças. Sua obra tem tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países, da Argentina ao Vietnã. De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde realizou oficinas literárias, palestras e aulas inaugurais nos campos do Maracanã, São Gonçalo (Faculdade de Formação de Professores) e Duque de Caxias (Faculdade de Educação da Baixada Fluminense).  

Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. Recebeu inúmeros prêmios como em 1987 – Prêmio Pen Clube do Brasil para Balada da Infância Perdida, 1997 – Prêmio hors concours da União Brasileira de Escritores para O cachorro e o lobo. Em 1998 recebeu a comenda de Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês, pelas suas obras publicadas na França até então, Essa terra e Um táxi para Viena d’Áustria. Em 1999 – Selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para Meninos, eu conto. Em 2000 – Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. 2001 – Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9ª. Jornada Literária de Passo Fundo, para Meu querido canibal. 2007 – Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, para Pelo fundo da agulha. Em 2015 – Selo Oficial dos 450 anos do Rio de Janeiro para Meu querido canibal e O nobre sequestrador. Em 2016 - Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro - 2016, concedido pela Academia Carioca de Letras. Tem cinco romances publicados em Portugal (Meu querido canibal, O nobre sequestrador, Essa Terra, O cachorro e lobo, Pelo fundo da agulha), e um conto numa antologia feita pela Teodolito com a Fnac para o dia mundial do autor.

Ronaldo Cagiano, escritor, ensaísta e crítico brasileiro que vive em Lisboa, escreveu sobre a publicação de três obras de Antônio Torres então recém-publicadas em Portugal, em resenha publicada no blog Etudes Lusophones estudesluso@gmail.com, da Sorbonne - e inédita em Portugal:

 “Autor captura a realidade do migrante num país em transe”:
(...) Finalmente chega a Portugal um dos mais importantes escritores brasileiros, cuja obra é um marco na bibliografia brasileira por fazer um recorte da realidade de um país em transformação a partir da realidade de seus personagens, particularmente o migrante nordestino, que em grande marcha desde os anos cinquenta do século passado, deixou o interior agreste e sem perspectivas para tentar a vida e a sorte nas grandes metrópoles.

Já tendo vivido alguns anos em Lisboa na década de 60, Antônio Torres é (re)descoberto em Portugal em dose tripla, com a publicação pela Editora Teodolito, de três de seus principais romances: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo Fundo da agulha”, trilogia que tematiza esse deslocamento geográfico, temporal e psicológico de seus protagonistas, (...)”

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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