ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Beatriz Aquino


Textos    

Também eu sou como um náufrago a intuir caminhos,
e a pensar adivinhar-te no bojo de algum barco que se aproxima
como um exausto viajante em busca do porto dos meus olhos,
olhos que te acolheriam como um abrigo em meio à chuva,
como o sol que rasga a densa neblina
e mostra as cores e texturas de todas as planícies.


Também eu reinvento estradas,
traço rotas antes inexistentes.
As Índias e suas especiarias não são nada
diante do mundo que construo e penso existir.
Istambul em meio ao fog, as muralhas chinesas,
os jardins suspensos e os Taj Mahals,
tudo crio para te ofertar
assim como faz um devoto
aos pés de quem escolheu para amar.


Mas sei que invento também monstros misteriosos
que se escondem em lagos profundos.
Assassinos em série,
desses que se aproveitam das sombras que os medos fazem
e da letargia dos que desistem antes do bom alvorecer.
Mas veja que eles nem sempre vencem.
Embora reapareçam com seus rostos pálidos e cínicos
a nos repetir mantras antigos,
eles nem sempre vencem.


Há um dia de sol para cada dois de nós nesse mundo.
Quatro mãos moldam a argila das coisas infinitas.
É bom ser farol de olhos que flutuam sozinhos nesse oceano frio.
É bom encontrar o bom porto onde teus pés pisam com leveza e alegria.


É espanto o que experimento, decerto.
Mas vou onde me queres.
Tuas mãos me indicam o horizonte.
Lugar onde o sol é vasto e beija todas as cercanias,
onde pequenos de língua estrangeira
se aninham no colo das mães no café da manhã,
onde pais se enternecem com isso,
onde se ouve os pássaros e o rugir dos tigres
Onde o crepúsculo dos dias não chega...

 

****

 

 

 

 

 

 

Era noite e todos
dormiam.
Dormiam as carpas em suas casas de aluguéis,
inquilinas coloridas do divino.


Dormiam todos.
Imóveis.
A respiração branda como a de uma criança.
Tudo era silêncio e sereno.
Espanto contido e reflexão.


E foram muitas noites assim.
As carpas, as lesmas,
o rim dos homens,
a ansiedade do carteiro,
todos descansavam da pressa do mundo.


Era noite.
E um sol tímido e mudo
nascia por trás da cortina do medo...

 

 

 

******

 

 

 

 

 

 

Negras são as noites e as damas que por elas transitam. Amélias, Camélias, Justinas, Consoladoras, Marias... Deitam o seu perfume no vento e embriagam os pobres homens, os trabalhadores do Mercado, os imberbes à janela do internato. Acenam seus gestos rubros, rubras são suas carnes comidas pela volúpia da fome, o desejo que não se segrega à alcova e desce as ruas, as alamedas, se esparrama pelos meios fios, transborda pelas bocas de lobo.


A noite é o dia do desejo. E essas mulheres, incenso dos homens, queimam aflitas. Outras, desavisadas, perdem os dentes, os brios, as vontades, os cabelos. Velhas megeras se tornam, ávidas pelo contato das moedas nos seios fartos ou ressequidos.


Vez ou outra, quando iniciam a negra jornada, um ou outro anjo ali cai, virgem do pecado maior, vítima da miséria, se entrega ao primeiro e mais ávido pagante e sangra por cima da túnica de ternura que ainda veste. Depois, os passos no trottoir, o barulho dos tamancos baratos comprados às pressas naquele mesmo lugar de dia, onde o sol machuca a tez dessas mariposas e os homens fingem não conhecê-las. Ou conhecê-las muito. O que é pior.


No entanto, apesar de múltiplas, não se vê o rosto dessas mulheres, parecem todas disformes, embora belas. Decerto que é o mesmo perfume da noite que deformam suas feições e as tornam espécies de espectros cubistas.


E há um canto também, uma música invisível aos ouvidos, insensível ao coração, que não se sabe ser de lamento ou de morte. Mas cantam as Amélias, as Justinas e as Marias. Ou pelo menos murmuram em uníssono no ranger das molas das velhas camas, gastando a pele das costas na fricção de suas existências sem sentido. Células perdidas, Coralinas de ninguém.


Cantem Marias, cantem, pois o grande dia não vem...

****

 

 

 

 

 

 

Tento decifrar a tarde que cai em teus olhos
E descobrir se enquanto sorves da tua janela o profundo azul do céu de Lisboa, tu imaginas o quão estranho e divino é isso que estamos tecendo.

 

Tento também interpretar a noite que mora neles.
E adivinhar o quanto já usaste do reservatório de lágrimas que eles carregam.

 

É certo que amo do teu sorriso, mas é no frágil e no escuro que vemos mais.
O homem se mostra tão pouco.
E não conta sobre os precipícios em que caiu, se há sangue em suas mãos ou cicatrizes injustas.

 

Sei que és forte e próspero. Mas é o menino por trás do terno que busco.
Sua bravura e nobreza, os sonhos bonitos que escreveu nas árvores da rua ou em códigos nos muros da escola.
Quantas meninas amou e se o rosto delas ainda se faz mosaico em suas retinas.

 

Desejo, decerto, o homem em teu corpo, mas busco mesmo o éter da tua alma, o rouco da tua garganta quando emocionada e claro, essa tua voz que afaga tudo...

 

 

 

****

 

 

 

 

 

 

Quisera eu saber conter a lascívia dos acontecimentos,
domar a crina selvagem das circurnstâncias.


Brinco de mestra das horas,
escrevo cartas, decretos, poemas...
Algo que explique ou catalogue o cio inexplicável da vida.


Poderia contar amores nos dedos de uma das mãos,
e nos da outra, contabilizar desastres.
E é o que faço. Alinhavo quedas, bordo perdas,
faço um ramo de flor por onde passou a faca,
arremato por cima, um broche herdado da avó...


Essa coisa de poesia é brincar de Chronos,
fazer o trem dos sentidos ir e voltar
e com isso cavar feridas antigas, jogar sal em cicatrizes,
sorver, do corte já fechado, o último sumo de sentido.
Ou quando tudo corre bem,
sentir novamente o gosto do beijo que se alojou
nas frestas do coração.


Isso tudo consigo. Com louvor até.
Mas conter ou me antecipar aos acontecimentos, não alcanço êxito.
Não mesmo.
A cigana é tão vítima das cartas quanto qualquer um de nós...


Esse posto de expectante me exaspera.
Quero mesmo é redesenhar as córneas do Cristo,
entender em suas formas, o segredo de amar.
Mas quando diante dele, choro e penitencio como qualquer outra.
Burra, entregue, criança...


Deve ser assim que se chega e se vai do altar da vida.
Os afrescos e vitrais girando em carrossel
e você não sabe se é o rebobinar da tua existência
ou se é a roda do futuro apostando teus passos no mundo.


Aqui nessa Terra,
chega-se e vai-se tão nu
e tão ingênuo quanto um filhote de cordeiro.
Ou qualquer outra cria que nos agrade os olhos.
Tanto o resmungar da velhice quanto o choro do recém nascido trazem
senão o mais profundo mistério e espanto.


Quisera eu saber conter a lascívia dos acontecimentos...

 

 

 

****

 

 

 

 

 

 

Acordo aflita nesse dia de nuvens.
- o cinza adere bem aos pensamentos -
Remexo gavetas, dobro meias, rasgo papéis.
É a reinvenção de mim mesma que busco.
Alguma ponte entre esse eu que desconheço e o mundo prático.
Um aterro para apagar esses mil quilométros de abismo entre mim e o viável.


Ando cansada das sombras que meus medos fazem.
Das frestas que as minhas deficiências deixam,
frestas por onde entra um ar gelado
que deita um beijo de morte em tudo que é colorido.


Não sei nada sobre amores.
Eles caem das minhas mãos como gotas em dia de chuva pesada.
E os vejo desfilar orgulhosos pelos córregos que se formam na calçada
e indo parar no rio caudaloso das minhas memórias.


Ontem pedi ao Grande Homem, ao Grande Mestre,
que me desse um alívio, um aditivo.
Algo que me tornasse grande o suficiente para alcançar as prateleiras dos meus sonhos
e ali transitar entre eles como todos os outros seres humanos,
que temem, que choram, que esperneiam, mas que permanecem ali.


Estou exausta desse meu ar de queda,
desse meu olhar de abismo.
Não há mão que sustente ou eleve essa pequena criança que sou.
E para essa criança, é sempre o momento entre o descuido do cervo
e o gatilho do caçador.
- e eu sou um alvo tão fácil... -


Desconfio que não haverá o grande dia.
O dia onde entre trombetas douradas se anunciará para mim
a chegada do amor.
O dia de paz onde quatro retinas se entendam,
onde vinte dedos se entrelaçem,
onde dois corações acertem o compasso,
onde apenas dois corpos bastem...
O dia onde pousaremos finalmente os telescóspios e os mapas de busca.


E confesso não saber o que fazer com essa quase constatação.
Deveria ser simples.
Deveria ser óbvio e de direito,
mas parece que um deus amargo nos desenha planos mais amplos.
Nos quer poetas, sensíveis, humanos.


O exercício daquilo que pensamos amor serve apenas para nos arrancar a pele.
Esse deus gosta de nos ver trêmulos e febris em plena chuva.
Deve ser ali o momento da nossa redenção.
Deve ser essa a nossa hora mais bonita.
Sozinhos, no escuro, falando línguas que o outro não entende,
buscando algo que não se pode alcançar.


Sim, o amor é apenas um grande tubo de ensaio manuseado pelas mãos invísiveis das circunstâncias.
Onde nós, infantes e desavisados, aprendemos a imitar o eterno
gesto das estátuas dos anjos...

 

****

 

 

Beatriz Aquino é formada em Publicidade e Propaganda e é atriz de teatro. Tem publicados os livros:  Apneia (romance), A Savana e Eu (crônicas) e Anne B.  - Sobre a Delicadeza da forma (romance). Vive atualmente em Portugal.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Antônio Lázaro de Almeida Prado, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Claudia Vila Molina, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Eduardo Rennó, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Federico Rivero Scarani, Flávio Machado, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Júnior Cruz, Lahissane, Leila Míccolis, Lourença Lou, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Matheus Peleteiro, Moisés Cárdneas, Nilda Barba, Paulo de Toledo, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR