ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Referências, reverências    

 

A literatura brasileira se viu desfalcada do grande escritor Rubem Fonseca, romancista e, sobretudo, excepcional contista. Há toneladas de análises e comentários sobre sua obra. Acho, portanto, mais produtivo escrever alguma coisa sobre um contista vivo, cuja obra mais recente foi publicada em Portugal, pela editora Gato Bravo. Trata-se do livro Sacrifício e outros contos, do mineiro Francisco de Morais Mendes. Seu livro está disponível, no Brasil, apenas no formato digital, pela Amazon.

 

         A obra é composta por 10 narrativas e há um aspecto que liga praticamente todas elas: a celebração da literatura, da palavra, da leitura e, em última instância, da arte, em geral.

 

         Em “Sacrifício”, o conto de maior extensão, estruturado em 25 partes, o protagonista Marcial consegue sobreviver achando dinheiro na rua. Mesmo quando se entedia desses achados, a sorte o persegue, o que remete o leitor ao texto  “O ex-mágico da taberna minhota”, de outro contista mineiro, Murilo Rubião. Aliás, esse autor é explicitamente mencionado em outro conto, Teca, que dialoga com a narrativa muriliana “Teleco, o coelhinho.” Marcial, que nada tem de guerreiro, para justificar para o fisco a quantia que amealha, investe-se suas finanças em um sebo e cultiva o prazer da leitura – que foi deflagrado ainda na infância, ao ler A ilha do tesouro, numa biblioteca pública. É a leitura que o aproxima de Camila, que busca atenuar para esse solitário personagem a estranheza do mundo – um mote recorrente nas narrativas de Francisco de Morais Mendes.

 

         Em “Jogo de cartas”, o protagonista é um poeta, que se vê envolvido numa inesperada trama. O autor joga com humor e erotismo, brincando com nomes de personagens da literatura russa (Dimitri, Karenina), ensaiando uma narrativa que envolve um crime, mas escamoteando detalhes para que o leitor preencha as lacunas. Já em “Quinta-feira, 17, por volta das 18 horas, com chuva”, o espaço da narrativa é Barcelona, e as referências são aos escritores espanhóis Enrique Vila-Matas e Javier Cercas. O protagonista se chama Henrique está num táxi cujo motorista é um mexicano. A narrativa é enriquecida por detalhes psicológicos que envolvem o senso de observação e aspectos de mecanismos da infiltração, ou seja, o personagem frequentemente tem o desejo de trocar de lugar com os outros.

 

         “Duração”, interessante história que também se infiltra pela dimensão psicológica, é trabalhada em dois tempos, elegendo a música como motivo central. Um simples filho de açougueiro, com sensibilidade para música e plantas, acredita contribuir para a inspiração de mestre Kantor, que supervisionava a música em várias igrejas, alusão a Bach, que era o Kantor da Igreja de Santo Thomas, em Leipzig. Em “Gravitação”, o protagonista sofre de uma lesão cerebral e tem dificuldades em articular algumas palavras; mas, ainda assim o texto flui numa “conflusão lógica”, como se o narrador operasse um ‘cortexto’ cerebral, ouvindo “Brain Damage”, de Pink Floyd e, mesmo dormente, evocando Viventes das Alagoas, de Graciliano Ramos.

 

         Um dos melhores momentos do livro está em “O ato de ler”, em que a leitura é encenada num teatro e no corpo do texto: Francisco de Morais Mendes exibe todo seu talento em descrever detalhes de pequenos gestos, sugerindo sensualidades e tensões. No sobrenome da atriz Júnia Hilst vê-se a reverência à escritora paulista Hilda, e fragmentos da leitura apontam nomes de Alfredo e Marina, que são personagens de contos de Murilo Rubião. Dos muitos aspectos lúdicos que há no livro, destaca-se aqui o trocadilho de “bibliotoca”, onde todo escritor se enfurna para tirar seus coelhos da cartola ou cartocas.

 

         Em “Teca”, além da referência a Murilo Rubião, há, também, citações aos filmes “Luzes da ribalta”, “Central do Brasil” e “Blade Runner”, com ênfase na música “One more kiss, dear”. O diálogo travado entre o narrador e a personagem feminina nos faz pensar em um antológico conto “Françoise”, de outro mineiro, Luiz Vilela. A estranheza do mundo está entranhada tanto nas palavras ditas quando nas frestas do silêncio. Outra música de Pink Floyd, “Paranoic eyes” dá o tom de estranhamento em “Urgência”, narrativa ambientada num cemitério, mas a vida que pode sofrer uma guinada é mais intensa do que a morte.

 

         A discussão sobre autoficção é o tema de “Autópsia”, narrativa irônica que parte de uma epígrafe de Serge Doubrovsky e se desenvolve de forma satírica, com trocadilhos e porradas, pontuada com canção de Bob Marley e se encerrando com Shakespeare. O autor, na construção de seu texto, elabora as potencialidades de um texto em construção, o que fica mais evidente na última história, “Sugestões para começo, meio e fim” – que, na verdade, é um mosaico com micronarrativas ou espectros de contos, deixando entrever a aventura da linguagem em liberdade, para retomar um trecho do Doubrovsky. Este conto prenhe de outros contos traz epígrafe de Joca Reiners Terron, cuja ideia central aborda a “bravura da reinvenção pessoal”. Tudo a ver com um livro editado pela Gato Bravo, que exibe muito fôlego, mais de sete vidas, arranhando a banalidade do cotidiano para problematizar a estranheza desse momento, como diz lá um dos personagens.

 

         Enfim, um livro que não exige sacrifício em sua prazerosa leitura. Se o Marcial, do primeiro conto, faz uma reverência ao destino por ser dotado de sorte, sorte temos de nós de desfrutarmos tais textos, e façamos reverência ao autor, que, entre as referências a tantas artes, sabe que a literatura é a que mais…

 

 

Caio Junqueira Maciel: professor de literatura brasileira e escritor. Autor de Pele de jabuticaba (Poesia, editora Urutau, 2019) e do romance a sair pela editora Viseu, Um estranho no Minho.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


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