ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Cássio Amaral


Um comentário para o livro Isca, de L. Rafael Nolli    

 

A isca sempre é necessária para pescar palavras, ou as entrelinhas como está escrito nas epígrafes do Livro Isca de L. Rafael Nolli, que instiga a leitura de seu poema livro ou de seu livro poema.

 

Na criação, a palavra e os tiros certeiros no jogo arremesso de articulação entre o poema como uma narrativa inteligentemente escrita: um fio de ideia puxando outra ideia/da mesma maneira de um osso puxado por outro osso [em um lamaçal esquecido por deus] (mas/só para os que têm coragem/ pouco importam em sujar os pés/e & conseguem – são- poucos/aceitar alguns dissabores:/lama/limo, mal cheiro e lodo. O poeta com sua leitura sabe que da purificação há uma ressureição das coisas. O Livro é todo pautado pela observação se o leitor aprecia ou não a poesia. E se a poesia é importante para o próprio leitor e/ou para a vida “Muitos anos depois/diante do pelotão de fuzilamento...”/O Poeta é sempre fuzilado pela sociedade, esta que mal sabe qual é a importância da poesia, ou mesmo a importância do poema. Segundo Novalis “A religião original da humanidade”. O início estabelecido:/matéria bruta que vai sendo moldada/&, sem que se perceba/o poema/-que é feito de nada-/vai sendo moldado. Talvez molde na pegada de Carlos Drummond de Andrade aquele que disse que no meio do caminho tinha uma pedra e que lutar com palavras é a luta mais vã.  Essa pedra para quebrar é a forma, estilo linguístico, reflexo de suas leituras, muitas leituras de literatura e de vivências, de vida. O poeta aqui sabedor de seu fazer atribui a função do poema e suas linguagens, metalinguagem, metáforas e faz referências às formas mínimas, como o haicai.  O poema sendo fluxo, de linguagem e de vida, como um rio que flui ou a vida que segue a própria vida. O poeta, este ser captador de imagens é sempre uma antena. Sua vontade para que o leitor possa estar preso à sua poética: {a esperança do leitor para que o pião caia/_ou estamos falando do poema?-/o trás até aqui, no final dessa página} nada é preciso além disso:/aprisionar o olhar do leitor. Leia-se que Isca já indica a condição de puxar e atrair a própria vontade de ler o livro. O poema e também  o poeta  de todo sofre de influência da modernidade, do rock and roll, do concretismo, do verso livre, mas sobretudo é pautado também por aquilo  que Ezra Pound chamou de Fanopeia, a poesia para o olho, onde o elemento principal são as imagens: “a atenção do leitor/ -esse barco de velas abertas-/o mantém aprisionado/-até agora pelo menos!/& o impede de escapar pelas bordas{do oceano? / da página?} L. Rafael Nolli também trabalha detalhes sutis no livro, expõe nele sua pegada e suas inquietudes. Sua forma de viver o próprio poema. É como ver um garoto com o braço quebrado e ali no gesso do braço o desenho do gesso, assim o poema se faz, assim há talvez um coração no gesso do garoto, que balança no banco da praça. Há um leitor que vai na caverna do poema, no âmago , nas vísceras do que constituem seu próprio poema que insiste em pescar leitores aguçados em poesia. E ver o desenho do coração no gesso do garoto que brinca no balanço da praça.

 

É necessário observar essa criança com a fratura no banco da praça, assim é a vida, assim é a poesia, assim é o poeta que de fratura em fratura em seus versos atrai leitores perspicazes que se debruçam nas páginas de um livro Isca para combater tempos de obscurantismo, tempos de regimes totalitários que pretendem acabar com direitos civis e humanos, tempos de autoritarismo e opressão. Livro importante este Isca que fisga o leitor em cada verso, cada imagem e seu último suspiro derruba a árvore dos ignotos nos tempos de quarentena e de grandes dificuldades que vivemos.

 

Isca já pega o verso pela boca e faz dele o verbo que se instala no cenário da boa poesia.

 

 

Cássio Amaral é mineiro, natural de Araxá, professor de História e Sociologia no Ensino Médio e é Juiz Arbitral, pela AJAAP (Associação dos Juízes Arbitrais do Planalto). Começou a escrever poemas a partir dos 13 anos de idade e tem seis livros publicados: Lua Insana Sol Demente, de 2001, Estrelas Cadentes, de 2003, Sonnen, de 2008, Milenar, de 2016, todos pela JAR edições; e o eBook Enten Katsudatsu, de 2010, pela Germina Literatura, e o Faísca, de 2014, pelo Coletivo Anfisbena e Edições Imprevisto. Além dos livros, tem textos publicados em vários sites e blogues.

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YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


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