ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Afonso Lopes Vieira a quem eu dediquei uma obra em 1986 e ninguém leu    

Afonso Lopes Vieira nasceu em Leiria a 26 de janeiro de 1878 e morreu em Lisboa a 25 de janeiro de 1946.

 

Fez Direito em Coimbra entre 1895 e 1900. Foi poeta tendo iniciado as suas publicações em verso em 1898, culminando com o conhecido clássico Onde a Terra Se Acaba e o Mar Começa, em 1940. Aquilino Ribeiro na obra Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais (Lisboa, Bertrand, 1975, p.248), o qual não apreciava a deriva monárquica de ALV, informava irónico que o poeta tinha beijado as mãos do neto de Dom Miguel, o sucessor ao trono de Portugal afastada a hipótese de escolher os descendentes de D. Manuel II. As Éclogas de Agora que eu republiquei com anotações muito específicas em 1986 é todo ele, em 1935 concebido, um manifesto contra o salazarismo (O livro intitula-se Éclogas de Agora, Prefácio e Notas de Cecília Barreira, Póvoa de Santo Adrião, Heuris, 1986).

 

Viveu em São Pedro De Moel bastos anos tal como nos indica Micael Sousa que elaborou uma tese de mestrado sobre o Fundo Documental e Espólio de Afonso Lopes Vieira da Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira defendida na Universidade Aberta.

 

De consultar a tese de doutoramento de Fernando Magalhães, do Instituto Politécnico de Leiria, sobre Afonso Lopes Vieira, a Literatura e o Processo de Nacionalização do Povo Português, muito consistente nas informações sobre o escritor.

 

Cristina Nobre é a mais importante e reconhecida estudiosa do Poeta de Leiria, São Pedro de Moel, Marinha Grande. Tem sido ela a mentora de uma divulgação do espólio do autor.

 

Curiosamente nestas duas teses citadas ignora-se completamente o meu estudo publicado em 1986 e a própria Cristina Nobre passa ao lado da minha longínqua obra, que contém material temático fundamental.

 

A Renascença Portuguesa nasceu de um grupo de intelectuais diversificados como Teixeira de Pascoaes ou António Sérgio (1911). O Poeta que assinalamos aqui enquadrava-se no espírito geracional destes homens. Apesar de muito reconhecido em vida, a posteridade não lhe granjeou muitos leitores. Por exemplo, eu própria, que andei muito à volta do Integralismo Lusitano, deparei-me com a vasta obra de Afonso Lopes Vieira nesses anos 80 sem ser reeditada. As Éclogas de Agora vieram mostrar o descontentamento de muitos integralistas em relação à figura austera e pouco amistosa de Salazar.

 

Ao contrário de Sidónio Pais, o Presidente Rei, assassinado precocemente, e ele próprio uma personalidade de líder de multidões, Salazar gostava de se manter no espaço privado da sua residência apesar de ser ele a governar despoticamente o País.

 

Os monárquicos não viram da parte do ditador nenhuma abertura a uma alteração da república para um a Monarquia, tal como Franco fez em Espanha.

 

Afonso Lopes Vieira era um poeta de primeira água, um ensaísta primoroso, um homem convicto das belezas inaugurais de Leiria, da praia dele, São Pedro de Moel, pertencente à Marinha Grande.

 

A Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira encontra-se em Leiria e em São Pedro de Moel a casa onde habitou é uma casa museu onde existem os objetos com os quais privou sobretudo nas férias grandes. Tertúlias houve naquela casa e Américo Cortez Pinto (nasceu em Leiria em 1896 e morreu em 1979 em Cascais, médico e escritor) muito fez em relação à preservação do património do autor. No meu estudo de 1986, forneço elementos sobre alguns pseudónimos usados por ALV. Nomeadamente ISRAELIVOPE, anagrama de LOPES VIEIRA.

 

Numa revista que comprei num alfarrabista, nesses anos 80, intitulada “O Cenáculo”, revista estudantil de Coimbra do ano letivo de 1894 e 1895, vemos a colaboração do pseudónimo de ALV juntamente com Vilela Passos e Augusto Granjo.

 

João Medina, o historiador publicou em 1980 uma preciosa entrevista que ALV concedeu a Carlos Ferrão em 1945 ou 1946, onde diz abertamente, “tanto tempo este povo foi obrigado a conservar-se mudo e quedo que acabou por se desinteressar da coisa pública, de que foi sempre aliás tão cioso” (João Medina, Afonso Lopes Vieira Anarquista, edições António Ramos, 1980, p. 36). A entrevista foi logo censurada e só publicada após o 25 de abril de 1974.

 

Em 1979 o grande poeta e ensaísta David Mourão Ferreira em Lâmpada no Escuro - De Herculano a Torga, Ensaios (Lisboa, Arcádia, 1979, p. 132) afirma que ALV cometeu a prudência de não pôr à venda o folheto antissalazarista, as Éclogas de Agora, mas divulgou-o por todos os amigos e conhecidos, o que deu nas vistas.

 

Nas citadas éclogas refere-se Lereno o poeta e prosador Francisco Rodrigues Lobo que nasceu em Leiria em 1580, falecendo em 1621 (Em 1605 publica Éclogas). ALV reuniu as principais poesias de Rodrigues Lobo em Poesias (Lisboa, Sá da Costa, 1940), com um belíssimo prefácio. O rio Lis que passa por Leiria é dito como Lísio. Já Umbro é o alter ego do próprio ALV. Nos anos trinta e quarenta ainda era comum escreverem-se éclogas. Ficaram célebres as éclogas sobre o Holocausto do húngaro Miklos Radnoti (1909-1944).

 

Ulíssia é Lisboa, não muito bem cotada pelo poeta, que nela vê a corrupção e o vício, entre um proletariado vivendo na miséria e uma burguesia faustosa. Os diálogos entre Viviano, o próprio ALV, e Hipério, José Hipólito Raposo (1885-1953) são a prova do antagonismo sentido em relação ao regime. Raposo foi um dos fundadores do Integralismo Lusitano e da revista “Nação Portuguesa” em 1914. Criticou severamente Salazar e foi demitido de todos os cargos que tinha, por isso.

 

Também importante é a notação a Pequito Rebelo (1892-1983), o celebrado Rebélio, proprietário de muitos terrenos no Alentejo. Monárquico e fundador do Integralismo Lusitano tal como António Sardinha. O regime de Salazar também não o queria atuante, apesar de lhe ter concedido em 1940 o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada.

 

De algum modo, estes integralistas pretendiam acabar com o caos da 1ª República. Ficaram satisfeitos com o golpe de 28 de maio de 1926. Mas afastaram-se rápidos quando alguns setores da política e o próprio Salazar começaram a acenar o autoritarismo. Após a tentativa gorada de golpe de estado em fevereiro de 1927, com início no Porto, foram demitidos muitos opositores ao regime ditatorial, como Raul Proença e António Sérgio. O regime endurece. Toma medidas policiais de onde surgirá posteriormente a PIDE em 1945 (até 1969, altura em que surge a DGS à medida de Marcelo Caetano).

 

ALV apresenta os traços do pensamento da Renascença que deu origem à Revista “A Águia” (1912). O saudosismo, um certo pendor sebastianista, uma obsessão pelo mar de São Pedro de Moel e por Leiria a cidade de todos os encantamentos. Teve as suas fases anarquistas e algo republicanas, mas acabou por ficar monárquico. Com um espírito culto e elitista não poderia aderir a Salazar. As Éclogas de Agora que eu publiquei em 1986 dizem-no bem.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

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