ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


DOIS GRANDES PINTORES CHINESES: AI WEIWEI e YUE MINJUN    

É uma realidade que o Ocidente, em particular a Europa, persiste em ignorar, mas a China é já o maior mercado mundial de arte. E isto é tanto mais admirável quanto, há sessenta anos, o mercado da arte era inexistente nesse gigante do Oriente.


Porém, não é só o mercado da arte que é grandioso. Grandiosa é também a produção artística chinesa, em particular na pintura. Liberto do chamado realismo socialista imposto pelo pensamento maoista/estalinista, a arte chinesa conhece, neste século, uma renovação que se pode comparar à grande renovação da arte europeia dos princípios do século XX.


A incomunidade.com mostra no rosto deste seu número duas obras de dois grandes pintores chineses da atualidade: AI WEIWEI  e YUE MINJUN.


Ai WeiWei é bem conhecido dos meios artísticos e políticos ocidentais. Além de grande artista plástico, ele tem sido uma das vozes que se erguem contra a ditadura chinesa. Várias vezes preso, viu o seu estúdio em Xangai ser demolido e o seu estúdio de Pequim ser invadido pela polícia que lhe apreendeu obras de arte.


No campo artístico tem-se notabilizado como pintor, escultor, designer e arquiteto. O seu trabalho no domínio da arquitetura está patente no estádio olímpico de Pequim, conhecido como Ninho de Pássaro.


Há na sua obra uma crítica ao capitalismo chines ou americano e a ícones chineses como Confúcio de Mao Tse Tung recriados na sua pintura simultaneamente com humor e angústia. A obra que aqui apresentamos foi elaborada em conjunto com Shepard Fairey, artista americano e ativista como Ai WeiWei, intitula-se AI WEIWEI E SHEPARD FAIREY DÃO A TRUMP O DEDO. Uma mão com o dedo médio erguido dirige-se às traseiras  da Casa Branca, atravessando aquilo que é simultaneamente uma janela e uma prisão suave. O preto e branco da obra, anulando a cor verde do relvado e as flores presentes na fotografia a cores, denunciam a cinzenta e medíocre sociedade americana que se revê em Trump e por este medíocre tem sido dirigida. Mais até do que uma recusa de Trump, a obra é uma recusa da atual sociedade americana que o elegeu e nele se revê.


Já Yue Minjun, nascido em 1962, pertencendo à mesma geração de Ai WeiWei(n. 1957) enveredou por um caminho diferente. Partindo do Realismo Socialista, praticamente a única corrente artística no período maoista, distorceu-a e parodiou-a, olhando o mundo com uma enorme gargalhada. Embora recuse a catalogação, sem dúvida que se enquadra numa corrente que se designa por Realismo Cínico, por paródia aos ícones maoistas do Realismo Socialista. Enquanto este assentava em três cores puras fundamentais, o vermelho, o amarelo e o azul, Yue Minjun utiliza  o magenta, o amarelo mostarda e o azul aço, isto é, degradações daquelas cores puras. As poses heroicas ou solenes do realismo socialista são substituídas por posturas ridículas, figuras soltando gargalhadas que, no fundo, são um riso sarcástico dirigido aos diversos poderes chineses e a uma sociedade consumista e triunfalista.
A sua obra é, no entanto, influenciada pela arte ocidental, muito ficando a dever ao Expressionismo e ao Surrealismo, mas muito também a Caravaggio, influência clara nas linhas de força desta obra em que é parodiado o triunfalismo das FORÇAS ARMADAS chinesas.

 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Antônio Lázaro de Almeida Prado, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Claudia Vila Molina, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Eduardo Rennó, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Federico Rivero Scarani, Flávio Machado, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Júnior Cruz, Lahissane, Leila Míccolis, Lourença Lou, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Matheus Peleteiro, Moisés Cárdneas, Nilda Barba, Paulo de Toledo, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR