ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Paulo de Toledo


Quatorze poemas    

o dedo
tudo indica
não
é meu
mas a ferida
sim
é minha
e doeu
quando o dedo
foi tão fundo
na ferida
que quase não havia
mais dedo
e tudo era só ferida
que até eu passei a pensar
que a ferida
ardia sozinha
que nada furava rasgava escavava
a ferida
que o dedo
era apenas fantasia
de quem crê
em dedo
shangrilá éden xanadu brazil valhalla
ou coisa que os valha

 

 

*

 

 

 

 

 

 

não sou herói, galã, nem star, my friend,
e, quando vou ver o filme, erro o end
ereço do cinema, se é que me entend
e, e, ao entrar na sala, só vejo o the end.

 

 

*

 

 

 

 

 

 

AUGUSTANDO

 

você vai rever só
com quantos não-versos
se refaz um controverso

 

 

*

 

 

 

 

 

 

não machado
não tive filhos

 

também não
tenho mais pai

 

e esse chamado
paulo não

 

sei se é meu filho
ou se é meu pai

 

e esse não saber me fez
deserdado de mim mesmo

 

 

*

 

 

 

 

 

 

Pode até parecer absurdo,
mas tem lá sua lógica,
lógica absurda,
vá lá, mas lógica,
e não seria absurdo
dizer que o que nisso parece absurdo
só é absurdo
porque não admitir a sua lógica
seria um absurdo
só comparável, é lógico,
ao absurdo
de considerar que nada mais tem lógica,
isso, sim, um lógico absurdo!

 

 

*

 

 

 

 

 

 

o poeta deixa
pegadas no poema que

 

não são dele
nem de algo que

 

tenha sequer
um quê de que

 

tenha pé
ou cabeça

 

 

*

 

 

 

 

 

 

QUITES

 

quando fernando pessoa nasceu
ele nem imaginava que eu existia
quando cummings nasceu
ele nem imaginava que eu existia
quando joão cabral nasceu
ele nem imaginava que eu existia
quando augusto de campos nasceu
ele nem imaginava que eu existia
quando eu nasci
eu nem imaginava que eles existiam

 

 

*

 

 

 

 

 

 

somente se não esqueço
o passado não se encontra
atrás mas à frente

 

e nele tropeço
como numa pedra especiosa
que só vejo

 

de olhos cerrados e vãos
caminhando de costas contra
o vento e contra o sol rumo ao

 

abismo do futuro que se
estende entre o invisível
e o evidentemente evidente

 

 

*

 

 

 

 

 

 

nunca se sabe
impossível precisar
quando será
nosso último suspiro

 

se virá à noitinha
depois do jantar
ou pela manhã
após o sucrilho

 

e se depois dele virá
se é que virá
um “ah!”
ou um “hã?”

 

 

*

 

         

 

 

 

 

tudo e nada agora
são de interesse público

 

inclusive este poema
que ora publico

 

mesmo não valendo
um fio de pelo púbico

 

 

*

 

 

 

 

 

 

COSTUMES CUSTOMIZADOS

 

os olhos se acostumaram
com o breu mais obscuro

 

os ouvidos se acostumaram
com o silêncio mais absurdo

 

os narizes se acostumaram
com o odor mais pútrido

 

as bocas se acostumaram
com o acre mais agudo

 

as peles se acostumaram
com o corte mais fundo

 

as almas se acostumaram
com os sentidos nulos

 

acostumamo-nos com a costumeira
customização dos costumes

 

 

*

 

 

 

 

 

 

vi
da : um infinitinho de na
da

 

 

*

 

 

 

 

 

 

quem vai preencher
este espaço
o qual sequer se pode assegurar
que exista ou que, ao menos, esteja vazio
(na verdade, por vezes, até parece
transbordar algo de lá de dentro,
algo um tanto vazio,
e que mal parece existir, é verdade,
mas denso
não aquela densidade cabralina,
algo mais modesto,
confesso,
como aquela densidade pressentida
no intervalo de tempo
entre uma agulhada finíssima de dor
e outra que se sabe estar inexoravelmente a caminho)?

 

se, porventura, for você
quem vai preencher
este espaço -
e nem sei se ainda vem ao caso especular sobre a sua possível inexistência -,
depois me conta
(confesso que, nos últimos tempos,
o que não tem faltado
é espaço na agenda,
e, sinceramente, eu ficaria pra lá de satisfeito
em compartilhar
dessa sua experiência)
o vazio que dá
depois da verificação,
um tanto tardia,
confessemos,
de tanto desperdício de tempo.

 

 

*

 

 

 

 

 

 

do nada

 

o morto se pega
pensando na vida

 

absorto em ideias
cheias de vida o morto

 

morre de inveja de quem
não pensa em nada

 

porque o morto
sabe que a vida

 

aliás como tudo
nessa vida vem

 

do nada

 

Paulo de Toledo (1970, Santos-SP) poeta brasileiro corintiano e doutorando em Literatura Brasileira pela USP. Autor dos livros Torrão e outros poemas (Patuá, 2018), A Rubrica do Inventor (Multifoco, 2011) e 51 Mendicantos (Éblis, 2007; Amotape, 2013). Participou das seguintes publicações: Revista Babel, Artéria, Coyote, Cult, Correio das Artes, Musa Rara, entre outras.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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