ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Antônio Lázaro de Almeida Prado


Coletânea: dezenove poemas    

 

1
Liberdade de voo

 

L’uccello nella gabbia

Canta non di piacere, ma di rabbia

 

Com tão sagazes asas ele modula

O ímpeto do vento e seu impulso,

Que, assim, o impedimento o estimula

E lhe dá a noção do próprio pulso.

A força, que o impelia, ele controla;

Ao sopro, contrastante, disciplina.

Vencendo o próprio hausto, que o enrola,

O vôo ao próprio vento ele é que ensina.

Também o poeta, quando a dor o oprime,

Transcende a dor e a transforma em canto,

E do próprio suplício se redime...

E traça a linha certa do trajeto,

Com ritmo, que doma o próprio encanto,

E, livre, faz o vôo o seu projeto...

 

[ARTE POÉTICA PARA PASSARINHOS]

 

 

 

 

 

 

2

Definido indefinível

 

Luz, que ofusca,

Sede insaciável,

Fome, que acrescenta

Sabor ao apetite,

Elidido tempo,

Sonho permanente,

Volúpia voraz,

Pura ternura,

Doce tortura,

Antemanhã de vida,

Incendiada bênção

Da alma e dos sentidos,

Onipresente aurora,

Pleno sabor de vida,

Razão de todo êxtase:

Amor...

 

 

 

 

 

 

3
PERDE-GANHA

 

Perdes as penas, Pássaro...
Nova penugem reveste
Teu corpo canoro.

 

Eu ganho penas, Poeta,
Com novos desenganos
Enfeito a alma.

 

O Tempo nos despoja. Permanece
Impertubado, no ar
O nosso canto.

 

 

 

 

 

 

4
ALEGRIA DE SER
 

Ser sempre tão simples

Como o sonho livre

Da infância.

 

Ser tão grato à vida

Como o dom, gratuito,

Do canto.

 

Ser um eco puro

Do valor arcano

Da vida.

 

Ser, tão simplesmente,

Como o vôo livre

Dos pássaros...

 

 

 

 

 

 

5

EU TE DAREI, AMOR... 

 
Eu te darei, amor, mais do que a angústia

De minhas ânsias por um mundo justo,

Eu te darei, fermento resoluto,

Meu canto que supera o homem mudo.

Eu te darei, num sonho vigilante,

A certeira emergência da alvorada,

Desvelando, num canto lancinante,

A oclusão da clausura obstinada.

Eu te darei o som, que compendia

Mil vozes das palavras preteridas,

E te darei, na áspera alegria,

As vozes sufocadas de mil vidas.

E assim, tudo o que a simples mão fraterna

Associa em uníssono e coesão

– A rosa, a liberdade, o sonho, o pão ... –

Eu te darei, amor, neste poema.

[LÚCIDO SONHO]

 

 

 

 

 

 

6

O amor que tu me deste...

 

O amor que tu me deste

Não era vidro, e persiste,

Inquebrantável e forte.

O amor que tu me deste

Não era mutável sopro,

Era chama consistente.

O amor que tu me deste

Não era palha dispersa,

Era semente fecunda.

O amor que tu me deste

Não era instante precário,

Mas persistência do sonho.

O amor que tu me deste

É hoje maior do que ontem

E, amanhã, maior que hoje.

O amor que tu me deste

Reproduz tua beleza:

Hoje, mais bela que ontem,

E amanhã, mais bela ainda...

 

[Ciclo das Chamas e outros poemas ]

 

 

 

 

 

 

7

IN NOVA FERT ANIMUS...

 
O tempo, que incendeia os pirilampos,

Prescreve-nos abalos, cataclismas...

Atiça-nos com novos horizontes.

 

É tempo de tremor nas borboletas,

É tempo de conter as sanguessugas,

É tempo de alterar nossas medidas.

 

É tempo de açular os beija-flores,

Tempo de extremo amor, de ódios acesos,

Tempo de ira vivaz, sem complacências.

 

Ah! tempo, corrosão dos apetites,

Infrene impulso e pânico extravio,

Aqui, ora me tens, já restituído

 

A quanto fui nos sonhos de menino,

Que as tuas garras surpreender quiseram,

Sem me roubar a força desses sonhos...

 

[Ciclo das Chamas e outros poemas ]

 

 

 

 

 

 

8

NO PRINCÍPIO...

 

No início, o canto

(Modulado e lento)

Para meu alento

Para teu encanto.

 

Para sempre, a vida,

(Mágico acalanto)

Com surpresa e encanto

De flor renascida.

 

Por agora, a via,

Sempre antiga e nova,

Ao sol (que a renova)

E desperta o dia.

 

E, ao fim, o canto

Anunciando a aurora

Provocando (agora)

Saudável quebranto...

 
[LÚCIDO SONHO]

 

 

 

 

 

 

9

SOPRO DE VENTO
 

A vida não pára

Essa jóia rara,

Esta chaga ao lado!

Ah! Dor que não sara!

Ah! Consciência clara

De pobre exilado!

Este amor imenso,

Este anseio tenso

Da longínqua infância.

O calor da hora,

Tão clara e sonora,

Desta militância

Pois a vida é luta

Doce, calma ou bruta,

Segundo o momento.

E ao fim da partida

Eis a despedida

Nas asas do vento... 

 

[LÚCIDO SONHO ]

 

 

 

 

 

 

10

WOLFGANG AMADEUS MOZART

lembrando a visita à Casa de Mozart

 

O mundo que criaste

E o céu que freqüentaste

São privilégios teus,

Ó Wolfgang Amadeus?

 

E quando tu compunhas

Tão só, sem testemunhas,

Falava só com Deus,

Ó Wolfgang Amadeus?

 

E nosso etéreo espaço

Desfez pra ti seu laço

E os segredos seus,

Ó lúcido Amadeus?

 

Se a golpes de elegância

Suplantas a arrogância

De miúdos filisteus,

Ó Wolfgang Amadeus,

 

Então, teu gênio inclina

E tua alma peregrina

Aos débeis versos meus,

Ó Wolfgang Amadeus...

 

[Ciclo das Chamas e outros poemas][

 

 

 

 

 

 

11

FLASHES

 

I

Sílabas sonoras escandem

Sabor de formas mutantes:

Li-bé-lu-la...

 

II

Rápido em vôo guloso

O mel mais puro recolhe:

Colibri...

 

III

Lanterna lúdico-mágica,

Clarão festejando as horas:

Pirilampo...

 

IV

Pulsátil, pura energia,

Contida em rápido risco:

Corisco...

 

V

Toda vaidade dos homens

Fulgor de frágeis instantes

Fogo-fátuo...

 

VI

Na boca estala-me o gosto

De pura jabuticaba:

Piracicaba...

 

 

 

 

 

 

12

NESTE RIO DE MEUS SONHOS

(Ao meu Rio Piracicaba)

 

Neste rio de meus sonhos nado, atento,

Em lúcido delírio, em claro êxtase,

E busco, na imersão, a prova viva

De que nele, ao perder-me, é que me encontro...

Nele me vi, qual aprendiz de asceta,

Unido, mas distinto, e, comparado,

Atleta de meus ritmos ousados,

Impondo bela ordem a meus caprichos.

Nele me vi, num lance aventuroso,

Parceiro do tremor, que te domina,

Simétrico do caos e da indigência.

Ao capricho das ondas desmedidas

Impus este meu ritmo liberto,

Que sonha, quanto mais estou desperto...

 
[]LÚCIDO SONHO]

 

 

 

 

 

 

13

QUANDO ME PERCO EM TI, EM MEU DELÍRIO... 

 

Quando me perco em ti, em meu delírio,

Sou astro, planta, centelha enigmática

E abraso-me ao queimar-te, doce amiga.

Assim me vejo imerso e naufragado

Num oceano de chamas e fagulhas

E fundo-me em teu corpo e me estremeço

Em ti perdido e, logo, flama e lavas...

Em cálida matriz eu me semeio

E me aprofundo em sonho e colho rosas

Ah! corpo orquídea, cofre de surpresas,

Ímã, porto, ocaso e aurora fértil!

Em ti já submerso redescubro

A secreta floresta dos desejos,

Em que sou fera e anjo, amante e amigo...

Novo Adão, inauguro o Paraíso

E construo, na forja de teu corpo,

Recuperado Éden, nova Eva, Themis!...

 

[LÚCIDO SONHO]

 

 

 

 

 

 

14

"GRACIAS POR TU VIDA...

 

“Gracias a la vida, que me a dado tanto”

 Violeta Parra

 (Para Mercedes Sosa)

 

Tua voz vibrante

Nunca desmentida,

Diz, a todo instante,

"Gracias a la vida".

 

Ecoando o encanto

Da sábia lição,

"Gracias a la vida"

Diz meu coração.

 

Mercedes, teu canto

Tão puro, tão forte,

Não conhece a morte,

"Gracias a la vida".

 

Graças mil prestamos

À tua canção

Na forma devida:

Gracias por tu vida!

(Exemplo e lição...)

 

[Poesia Sempre Editora Patuá ]

 

 

 

 

 

 

15

UNGARETTIANO

 

 

Compreendo

os sortilégios

Da noite.

 

Surpreendo

o encantamento

Da luz

E da “Alegria”...

 

Ungarettiano,

Preservo

a ilha

 

Sempre encantado

com a inteireza

Do continente...

 

[Poesia Sempre Editora Patuá]

 

 

 

 

 

 

16.
MURILIANO

 
Invejo os lances

E os acordes

Terra-celúreos

Do genial

Murilo Mendes.

 

Tão brasileiro

Tão juiz-foreano

Tão abrangente

E universal.

 

Fala de anjos

Sempre terrenos

 

Com tons tão lúcidos

Que se antecipam

Ao zig-zag

E às potências

Dos raios...

 

[]Poesia Sempre Editora Patuá]

 

 

 

 

 

 

17

¿QUE SUEÑAN LOS GIRASOLES?

 

¿Que quieren los girasoles

Con sus giros tan altivos?

 

¿Quieren mirar los secretos

De circunstantes jardines?

 

¿Acaso roban al sol

Los estupendos calores?

 

¿Y al fuego hurtan fulgores

Que tanto invidian, celosos?

 

¿Que quieren los girasoles:

Mirar longinquos paisajes?

¿Durar, perfectos, en el tiempo?

 

¿Que sueñan los girasoles

En noches largas y frías?

 

¿Ganar colores de arco íris?

¿Sobrepasar a los pavos?

 

¿Acaso, como nosostros,

Quieren brillar para siempre?

 

 

[Assis, 7 de novembro de 2006]

 

 

 

 

 

 

18

EL PICAFLOR

 

 

La miel más íntima

De generosas flores

Disputa a las abejas.

 

Para su refinado gusto

De pájaro seductor

La miel no tiene secretos.

 

Pica todas las flores

Y las fecunda

Com celosa procuración... de esposos...

 

 

[Assis, 7 de novembro de 2006

 

 

 

 

 

 

19

COMO LAS VIOLETAS...

 

Por entre las hojas

(Discretas y sencillas)

Reposan las violetas...

 

Con sus secretos olores

(Que no pueden ocultar)

Llenan de aromas el aire.

 

¡Cuán esplendoroso este mundo

Con el brillo, sin alardes,

De recatadas bellezas!...

 

[Assis, 7 de novembro de 2006]

 

 

 

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO – Brasileiro nascido na cidade de Piracicaba, em São Paulo, em  6 de outubro de 1925. Poeta, ensaísta, tradutor e jornalista, é Doutor e Livre-Docente em Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1953 a 1958. Transferiu-se para a UNESP (campus de Assis, onde fundou o Curso de Letras), aposentando-se em 1982. É Professor Emérito da Faculdade de Ciências e Letras, e ali, depois de Titular Fundador da Cadeira de Língua e Literatura Italiana, passou a Titular de Teoria Literária e Literatura Comparada. Entre as teses publicadas, destaca: "O Acordo Impossível, Ensaio sobre a forma interna e a forma externa na obra de Cesare Pavese" e "Itinerário Poético de Salvatore Quasimodo". Dentre as suas traduções cita-se a obra de Giambattista Vico, publicada pela coleção Os Pensadores da Editora Abril,de Francesco de Sanctis (Ensaios Críticos) e de Giuseppe Ungaretti (Invenção da Poesia Moderna). Em poesia, publicou  "Ciclo das Chamas"  publicado pela Ateliê-Editorial, o livro “Lúcido sonho”  pela editora Olavobras, “Arte Poética para passarinhos” e “Verso e Reverso” e “Poesia sempre” pela editora Patuá. Em 2008,  representou o Brasil no Festival de Poesia de Gênova (Itália).

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Colaboradores de Maio de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Antônio Lázaro de Almeida Prado, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Claudia Vila Molina, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Eduardo Rennó, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Federico Rivero Scarani, Flávio Machado, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Júnior Cruz, Lahissane, Leila Míccolis, Lourença Lou, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Matheus Peleteiro, Moisés Cárdneas, Nilda Barba, Paulo de Toledo, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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