ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Mudando os finais    

Vocês se lembram daquela história infantil do rei nu? Talvez os leitores mais novos não a conheçam, então vou resumi-la. Era uma vez um rei muito vaidoso, que gastava todo o dinheiro do reino consigo mesmo, em roupas novas e trajes luxuosos, pomposos. Um dia, dois espertalhões, passando-se por ótimos alfaiates, conseguiram uma audiência com ele e disseram que lhe fariam um belo traje com um tecido invisível aos burros ou aos que não era, filhos legítimos de seus presumíveis pais. Quando ficou pronto, o monarca, para não ser confundido com idiota ou bastardo, elogiou a roupagem inexistente, e, assim como ele, toda a sua corte, que nada via, lógico, mas que ninguém queria, principalmente, desagradar o monarca, por amor às suas cabeças – os súditos não tinham a menor vontade de ser decapitados.

 

Satisfeitíssimo com a repercussão, Sua Majestade condecorou cada tecelão com uma medalha e um título honorífico, pois nunca uma roupa sua fizera tamanho sucesso, nenhuma tinha recebido a aprovação unânime de todos; e, no desfile do dia seguinte, o rei apresentou-se ao povo, vestido cp, aqueles trajes de quando veio ao mundo... Só uma criança teve a imprudente coragem de falar a verdade: que o rei estava despido (ainda bem que sua fala foi absorvida pelo vozerio e aplausos da multidão). No entanto, o desfecho da história que me contaram era de que o soberano, tendo ouvido o comentário e ao reconhecer a realidade, entendeu o quanto fora ridículo, e mudou de comportamento radicalmente a partir dali, tornando-se um monarca justo e sábio.

 

Vivi com o ledo engano deste happy end  até bem pouco tempo, quando me caiu nas mãos um livro que afirmava que Andersen adaptara este conto medieval, alterarando-lhe alguns momentos... inclusive o final:


"— Mas ele está sem nada! O imperador sentiu o sangue gelar, mas pensou consigo: ‘Agora preciso continuar até o fim do desfile’. E os valetes iam andando atrás, carregando uma cauda que simplesmente não existia".

 
Portanto, concluí eu, a moral da história para o autor — crítica e áspera — era de que "palavra de rei não volta atrás", no pior dos sentidos (neste caso, com a inflexível força autoritária do magister dix...); e que para os poderosos que querem sempre ter razão e se mostrar superiores, a realidade dos fatos pouco importa, é solenemente ignorada por mais absurdas que sejam as decisões tomadas. Pior ainda: a postura do rei, tão firme e convicta, acaba por fazer com que a própria multidão duvide da realidade, ou seja, de que realmente não esteja vendo a beça roupa usada pelo soberano...

 

Por quê esta discrepância entre a literatura escrita e a sua transmissão oral?... Quem conta um conto aumenta um ponto, dizem, mas não a ponto de recriar o final, desfigurando-lhe a real interpretação, que é: pior cego é aquele que não quer ver... E aí cabe minha pergunta: será que as mães de outrora (incluo a minha) preferiram mudar a ficção a ver (a enxergar, como o povo da fábula) a verdadeira moral da história, já que ela também se adaptava às suas próprias vidas, constantemente enganadas e despidas até das menores alegrias? 

 

Mesmo que não vissem a fábula como um reflexo de suas vidas, a mudança não foi intencional, pois nenhuma delas naquele tempo teve acesso direto às leituras de Andersen ou dos Irmãos Grimm, por exemplo, mas todas conheciam o cinema, daí terem ficado com o doce sabor de felicidade com que Walt Disney presenteou os espectadores (o primeiro filme de animação dele data de 1937 e contava a história de Branca de Neve). Chega porém de elucubrações e teorias, paremos por aqui, pois com toda certeza você não vai querer saber o que aconteceu nas obras originais com o tratamento que Pinóquio dá ao seu conselheiro – o grilo falante –, com o que ocorreu com a madrasta e as irmãs de Cinderela, com a Bela enquanto estava adormecida, ou com o castigo infligido à rainha má na história dos sete anões.

 

(Porém não resisto a um breve spoiler: Branca de Neve não desperta com o beijo apaixonado do príncipe)...

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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