ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Lourença Lou


Contos    

 

Todos fazem parte do meu novo livro - O insuspeitável perigo do instante-beijo  e outros contos.

 

Lâmina do medo

 

Sentada à janela do quarto comunitário, deixou-se olhar a noite. Tudo em volta era silêncio. Olhou a filha dormindo ao lado. Vitória. Nove anos e já conhecia o pior da vida.

 

Por mais que vivesse jamais conseguiria entender o que o pai sentia pela filha. Desde que soubera da gravidez, transformara-se em ódio. Ódio que foi crescendo ao longo dos anos e culminara naquele último ato. Nenhuma palavra seria forte o suficiente para traduzir a dor de ver a filha sendo violentada pelo próprio pai. Nenhuma justiça seria suficiente para cicatrizar a ferida. Nem mesmo a justiça das próprias mãos.

 

Quis matá-lo. Um animal assim não merecia viver. Não conseguiu. Então o denunciou. As consequências vieram com a força das marcas que seu corpo ainda guardava. Por mais que a violência do marido lhe doesse, havia a satisfação de ter salvado a filha. Estas lembranças ainda doíam e doeriam para sempre.

 

Não tinha mais medo. Sabia que a lei não a salvaria. Ainda assim, a cada dia se sentia mais forte e mais certa do que deveria fazer. Era como estar num imenso túnel, mas com a certeza de que ao final havia uma luz.

 

Sua vida era a preparação para a morte. Dele.

 

 

 

 

 

 

Das algemas à chibata

 

Ela tinha experiências interessantes e era bonita. Estava bem preparada para o cargo. Buscara todos os cursos disponíveis na área e fizera vários estágios. Mas sua chance ainda não chegara. Por ser mulher e negra, sabia. O que não era justo, vivia se repetindo.

 

Contra a vontade dos pais, saíra do interior para tentar a vida. Eles tinham uma vida tranquila. Donos de uma pousada, o sonho deles é que ela os substituísse na administração dos negócios. Tinha seu próprio sonho. Queria ser executiva de uma multinacional que lhe desse a chance de viajar pelo mundo.

 

Desde seus quinze anos resolvera: o caminho ideal seria morar com os tios em São Paulo. Batalhara muito por isso. Entretanto, as grandes corporações tinham sua própria justiça, que não era cega.

 

Enquanto pensava nisso, ia se arrumando. Perdera a conta de quantas vezes se preparara para uma entrevista. Nunca passava da sala de alguém do RH. Contudo, insistir era sua sina.

 

Mal chegou à recepção e foi levada à presença de um novo diretor. A entrevista foi rápida. Difícil foi engolir a proposta. Ele lhe daria o cargo de executiva júnior. Isso seria fácil, tinha sua forma de resolver. Ela só precisaria aceitar todas as brincadeiras que quisesse – das algemas à chibata.

 

Ele garantia: as marcas não passariam de vinte e quatro horas.

 

 

 

 

 

 

A la carte

 

Miguel tinha vindo do Ceará. Não sabia bem como se deixara convencer àquela aventura. Também não sabia o que encontraria em Belo Horizonte. Aprendeu com o pai que trabalho era nobre. Mas o pai não tinha paciência com ele. Chamava-o de maricas e às vezes até dizia que não era filho dele. Ele era mesmo sensível. Não sabia direito o que era, mas queria outra vida. Era isso.

 

Saltou na rodoviária, confuso entre tantas pessoas. Não sabia para onde ir ou o que fazer. Deu entrada num hotelzinho, bem em frente à rodoviária.

 

Depois de uma semana sem arrumar nada, recebeu o aviso para pagar ou sair. Rezou. Chorou. Lembrou-se dos sonhos e da família. Resolveu voltar aos restaurantes da redondeza e implorar por qualquer trabalho. Novamente não teve sorte. No último, um dos garçons indicou uma casa de mulheres. Lá estavam precisando de quem aceitasse ganhar pouco.

 

Miguel já não tinha opções. Foi admitido pela dona, Diamantina, velha cafetina, respeitada por bêbados e prostitutas da Rua Guaicurus - o paraíso das meninas que, como ele, vinham do interior cheias de sonhos. Uma de suas funções seria dar seu corpo para Diamantina.

 

Em duas semanas passou de garçom para propriedade particular da dona. Ela tinha uns desejos esquisitos e uma insaciável fome dele. Fome da sua boca em seu sexo murcho, fome de prendê-lo aos pés dela, fome de pisar nele como um tapete sujo e sem importância.

 

Para sua própria surpresa, estava feliz. Enfim se descobrira. Sua felicidade era servir. Serviria Diamantina pelo resto de seus dias, se ela permitisse.

 

 

 

 

 

 

Pelas voltas da vida

 

Olhou o resultado, conferiu com o papelzinho em suas mãos. Foram anos e anos perseguindo aqueles números. A cada trouxa de roupa que lavava, uma pequena parte era separada para aquela aposta. Tinha certeza que um dia ganharia.

 

O marido vivia a dizer-lhe que melhor seria comprar uma garrafa de pinga e aproveitar a vida. Ela pensava alto. Dava duro a semana inteira e jogava na loteria. Tudo para realizar os planos que vinha acariciando. Acreditava na justiça divina. E agora a justiça estava feita. Os números foram sorteados.

 

Pensou no marido. Ainda doía nela a última surra que provocara seu segundo aborto.  Fez o que preparara em sonhos: foi falar com o gerente da Caixa. Não se importou com os olhares enviesados em sua roupa surrada e no rosto cansado. Sua conta teria vários números.

 

Do banco, foi para o shopping mais próximo. Precisava de novas roupas e sapatos. Foi para casa cheia de sacolas e uma mala novinha, moderna como nunca tivera. Colocou-a sobre a cama, encheu-a com as compras que fizera e a escondeu.

 

Com uma naturalidade que não sabia ter, fez o jantar. Serviu ao marido a comida e a garrafa de pinga. Como todos os dias, deixou-o deitar-se sobre ela. Depois que ele dormiu, tirou a vela dos pés da santa e pôs dentro de um copinho, no seu lado do colchão.

 

Tomou banho, vestiu uma roupa nova, acendeu a vela e fechou a porta do quarto. Foi direto para a rodoviária. Comprou uma passagem para Fortaleza e sentou-se para esperar. Voltaria às origens de onde o pai a vendera por alguns trocados. Com sorte, veria na televisão da rodoviária a notícia de mais um incêndio numa favela de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

Overdose

 

Amava-o. Tanto que sempre esteve disposto a ignorar todas as suas mulheres. Aceitara continuar sendo sua sombra. Até aceitara continuar sendo homem daquela namorada que ele lhe arrumara. Eram esquetes necessários à grande encenação onde era o ator coadjuvante.

 

Ainda assim Pedro o traíra. Uma traição muito além daquela carne tenra, daquele sorriso de garoto que lhe fora apresentado. Era o brilho de amor que os dois trocavam. Um brilho que nunca se acendera para ele.

 

Deixou-os na sala. Não daria a eles o espetáculo das suas lágrimas. Lá fora a noite o abraçou. Deu-se ao choro. E caminhou até os pés se cansarem de chão, o rosto se fartar de sal, a mente voltar a se iluminar. Havia um limite para sua aceitação.

 

Tirou do bolso a carteirinha branca. Olhou os papelotes de cocaína. Cinco gramas de sonhos. Cinco pequenos passaportes para o granfinale. E foi pensando assim que entrou no quarto onde Pedro dormia.

 

No dia seguinte, vestiu-se como se fosse seu casamento. Entrou na imponente igreja disposto a manter-se sóbrio, digno, rosto sofrido, mas seco. Ignorou o desfile de óculos escuros, a falta de cores das roupas e os esparsos e surdos soluços à sua volta. Foi direto à urna que a família dele rodeava.

 

Olhou-o e sentiu um pequeno aperto no peito. Ao ouvir as últimas palavras do padre os olhos arderam:
– Pai, perdoe este filho. Ele não sabia o que fazia.

 

Chorou. Não de arrependimento. Faria novamente se necessário fosse. Chorou pela saudade que iria sentir.

 

 

 

 

 

 

Meu pé de laranja da ilha

 

Subir em pé de laranja nunca foi fácil. Arranhava minhas coxas, cortava meus braços, mas sempre valia a pena olhar o mundo lá de cima. E as laranjas eram doces quase como gotas de mel. Laranjas da ilha, minha mãe me dizia. Era a mesma laranja-lima daquele livro que ela leu para mim quando era pequena. Mas aqui em Minas, tinha este nome. Acho que era porque Minas tem muitos lagos e cachoeiras. Eu as abria enfiando o dedo fura-bolo e as partia ao meio. Não me importava que seu caldo escorresse pelo meu uniforme de escola. A blusa já andava meio encardida.

 

Todos os dias chegava da escola às onze e meia. Minha mãe só sentia minha falta lá pelas duas da tarde. Tinha muito tempo para olhar o mundo, chupar laranjas e sonhar. Sonhava tantas coisas. Com uma barbie e sua casinha, com vestidos e sapatos que via nas vitrines. Mas meu sonho mais sonhado era ter um pai que todos os dias me esperasse em casa. Sonhava também não precisar ver, a cada dia, um homem diferente que se despedia de minha mãe como se ela não existisse. Eles jogavam o dinheiro sobre a mesa e saiam.

 

Um dia quis saber dela porque eles lhe davam dinheiro. Ela não me respondeu. Continuou na corrida de fazer almoço atrasado. Perguntei novamente. Ela me deu um tapa na boca. O sangue sujou meus dentes e lábios. De tão espantada, não chorei. Me pediu perdão. Disse que estava garantindo que eu tivesse uma vida melhor que a dela e tentou me abraçar. Fugi para o quintal. Desde este dia o pé de laranja virou também meu confidente.

 

Quando me formei no ensino fundamental, em Santo Antônio não tinha mais escola para mim. Minha mãe resolveu que iríamos para João Monlevade – uma cidade grande e cheia de fumaça. Mudamos com o pouco que tínhamos e com o dinheiro de um dos homens que sempre ia ver minha mãe. – Era um empréstimo – ela dizia a ele e a ela mesma. Ele dizia: – Não precisa me devolver. Você sabe o que precisa fazer.

 

Monlevade, como era chamada, não nos recebeu muito bem. Todas as noites eu ouvia minha mãe chorar. Tampava os ouvidos. Fingia que ainda estávamos na nossa cidadezinha e que no dia seguinte rasgaria minhas mãos nos espinhos da laranjeira. Voltaria a sonhar. Mas o dia seguinte era igual a todos os outros daquele último ano. Ela agia como se nada tivesse acontecido. Eu fingia que nada tinha ouvido. Tinha medo de perguntar e não saber o que fazer com a resposta.

 

Continuava chegando mais tarde em casa. E minha mãe trancada no quarto na hora do almoço.  Em Monlevade não havia quintal, nem pé de laranja da ilha. Passei a ficar na biblioteca da escola, cada vez mais encantada com as viagens que fazia nos livros. Quando comecei a ler Teresa Batista Cansada de Guerra não pude deixar de pensar em minha mãe. E pensei que se eu sonhasse forte ela poderia encontrar um Jereba, mesmo que fosse casado. A ideia era tão boa que saí correndo para contar a ela. Cheguei em casa sem fôlego. Fui direto para a cozinha. Na pia estava aquele facão que ela usava para cortar osso da carne de porco. Sempre achei que ele não era bem afiado, porque ela tinha que bater com um pedaço de madeira para cortar o osso.

 

Era estranho ela não estar ali. Os amigos dela nunca ficavam até aquela hora. Percebi o silêncio gritando na casa. Não a chamei. Não tinha este costume. Fui ao fogão e as panelas estavam vazias. Apenas a panela de feijão permanecia lá, quieta e fria. Passeei o olhar a buscar algo diferente na cozinha. Apenas a ausência dela e aquele facão limpo e meio enferrujado sobre a pia.

 

Voltei pelo pequeno corredor e entrei no quarto que dividia com ela. Só a vi depois que rodeei a cama de casal onde dormíamos. Ela estava no chão. Nua. Suas coxas roliças estavam abertas e ensanguentadas, seus seios pequenos com um buraco entre eles e um caminho de sangue grosso saindo daquele buraco e se espalhando em sua barriga.

 

Fiquei ali olhando. Sem reação. Sem grito. Sem choro. Eu sabia que deveria fazer algo, mas meus olhos estavam presos nela. Não sei por quanto tempo fiquei assim. Só consegui pensar no facão lá na pia da cozinha. E minha mãe definitivamente coberta de sangue ali no chão. Definitivamente.  

 

Sem pensar, corri para a área da cozinha. Em Monlevade não havia quintal, nem pé de laranja da ilha.

 

 

Lourença Lou é brasileira e mineira, das terras vermelhas de Drummond. Formou-se em Letras, pós-graduou-se em Administração Escolar. Às vezes é prosa, outras, poesia. Participou de várias coletâneas, Livros da Tribo, revistas e jornais literários, impressos e virtuais, com poemas, crônicas e contos. Publicou três livros de poesia pela Editora Penalux: Equilibrista (2016), Pontiaguda (2017), Náufraga (2018). Está lançando seu primeiro livro de contos – O insuspeitável perigo do instante-beijo e outros contos – pela editora Arribaçã.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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