ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Matheus Peleteiro


Trecho de "O último a sair, por favor, apague a luz e me deixe aqui" e outro conto.    

 

“Eu matei o presidente e não me arrependo”, confessou, em voz alta, cercado de microfones, enquanto sirenes compunham a trilha sonora urbana, e flashes davam aos seus olhos sombreados o desassossego dos artistas de Hollywood.

 

Havia alguns pares de anos que se questionava se estava desperto, ou preso num delirante pesadelo arquitetado por um sádico pervertido, no sentido mais tenebroso da palavra. Nada obstante, algo oculto em seu âmago o inclinava a acreditar que aquele delírio constituía a realidade — ou que aquela realidade era fruto de um delírio —, não sabia ao certo, e não fazia a menor diferença.

 

A respeito do que o levará até ali, cultivava uma memória longínqua, embaralhada, recheada de lembranças repulsivas que escolhera voluntariamente esquecer, além de desilusões perturbadoras, provavelmente responsáveis pelo alucinado estado de negação à realidade em que se encontrava.

 

Por muitos anos, fora um ufanista obstinado. Orgulhava-se da sua pátria exageradamente, e cultuava, todos os dias, o seu clima quente, a sua vastidão geográfica, a sua música diversificada, a sua literatura genuína e o resiliente e tragicômico humor do seu povo. Entretanto, de repente, num súbito, percebera que o sujeito que fora durante uma vida inteira, já não era mais. Havia sumido. Desaparecido como a lucidez diante de ignorantes. O país que tanto venerara, parecia então um refúgio para ninguém. A cidade de Coragem, o cão covarde: lugar nenhum . Tornara-se um fantasma, uma assombração.

 

O ufanista, como há de ser chamado, considerando que perdera a sua identidade depois da morte da sua terra, não estava apreensivo, nervoso ou sobressaltado com a sua condição. Pelo contrário, apesar da palidez e da indolência provenientes do lento e devastador processo que o levara à condição de entorpecimento que o preenchia, enfim se sentia tranquilo novamente.

 

Contudo, precisava se justificar. Manter-se livre, livrar-se de uma pena que o impediria de viver. Aliás, precisava mesmo?

 

Buscando uma explicação para o seu ato, um fundamento justo e válido, ou uma justificativa vinda de alguma epifania que lhe acometera no passado, percebeu-se conformado com uma possível condenação, e decidiu não mais se esforçar à procura de um argumento.

 

Depois de acalmado, em harmonia com a própria consciência, conseguiu se recordar: fora consumido pela desilusão. A seguir, pelo ódio e, por fim, pela solidão.

 

A verdade é que não havia uma razão em especial que o motivara a consumar tal ato. Praticara-o em decorrência de uma série de fatores, os quais ele necessitaria dúzias de horas ou dezenas de páginas para expor — o que, aqui, felizmente, não é um problema.

 

Tudo se iniciara com a eleição da vítima. Quer dizer, quem é a vítima numa situação como essa? Recomeço: Tudo se iniciara com a eleição do presidente então assassinado, que, por conta própria, provocara uma onda de noites mal dormidas por motivos de frustração e desesperança em todas as camas e travesseiros do país onde se deitavam pessoas prudentes.

 

Nesse momento, O ufanista, que durante toda a sua existência se mantivera de pé diante das atrocidades defendidas pelas pessoas da sua amada pátria, sob o argumento de que em algumas décadas os sujeitos velhos demais para aceitar a obsolescência dos seus valores preconceituosos e medievais morreriam, viu os seus sonhos ruírem com o resultado.

 

Presenciar uma comemoração na qual indivíduos detestáveis de todas as idades vestiam camisas da seleção brasileira para levantar bandeiras em nome das causas mais horripilantes, ao tempo em que choravam, emocionados e alegres por motivos hediondos, constituíra o primeiro sinal de que a sua expectativa por um futuro moralmente evoluído era uma ilusão, um delírio, e que tudo poderia piorar ainda mais.

 

Ser acusado de descomedir-se no seu inconformismo por familiares e amigos que passavam pano para a tragédia que se anunciava, já promovera um tormento inesperado por si só, porém, acompanhar a legitimação das ideias monstruosas que, de forma secreta e silenciosa, alimentavam em seus íntimos enquanto todos aqueles que admirava e faziam-no levantar da cama acreditando que o mundo, um dia, poderia ser um lugar melhor, eram reprimidos, era só o pontapé inicial, que já soava como um retrô fatality de Street Fighter.

 

Fato é que havia uma nação inteira disposta a agir como guardiões da estupidez. Sentinelas de terríveis “bons costumes”. Incapazes de um raciocínio próprio, deixavam-se manipular pelas mais enfadonhas teorias da conspiração, adulteradas por espertos oportunistas ou sórdidos degenerados, que aproveitavam a euforia de um desespero coletivo para promover uma figura pitoresca.

 

“Miserável país aquele que precisa de heróis”, sussurrou O ufanista, lembrando de Brecht e se questionando: “Será que ele choraria por uma pátria a qual não pertence se estivesse, de algum lugar, assistindo aos infortúnios que se sucedem aqui?”. Não importa. Brecht estava morto.

 

 

 

 

 

 

NO TRIBUNAL DE EXCEÇÃO DE SUAS CONSCIÊNCIAS

 

Era um escritor desconhecido no tempo da caça aos pensadores e aos pensantes. Período que, embora aos racionais parecesse lógico que logo seria superado e tido socialmente como retrógrado e provinciano, delineava as linhas do futuro. Quando a censura bateu em sua porta, de forma repentina, ainda que já a esperasse há alguns dias, surpreso e decepcionado, escondeu o pen drive em que armazenava os seus livros no lugar onde combinara com os seus amigos: dentro de um souvenir vintage em formato de máquina de escrever, que possuía uma abertura para guardar joias e minúsculas bugigangas. Naquele período, não havia mais papel. Não por proibição, mas porque as obras estavam agora guardadas e protegidas em e-mails, dispositivos portáteis e portais virtuais.

 

No momento em que teve a sua porta arrombada, lhe veio à cabeça a certeza de que morreria invariavelmente; que a sua dor era um reflexo da violência praticada ao seu corpo, e lhe acometeu a ideia de que a sua mente seria capaz de qualquer coisa diante tamanha aflição. “Isso não significa que sucumbirei ao desespero”, aduziu.

 

Certo de que, naquelas circunstâncias, seria capaz de qualquer loucura, se convenceu a encarar a dor que sofreria com o desdém selvagem do cão que morre rosnando e cuspindo. Assim, durante os fatos que se sucederam, em momento algum cogitou confessar onde estavam guardadas as suas obras. Sentiu os choques afetando o seu juízo, a banheira de gelo lhe congelar até os ossos, encarou o alicate que lhe arrancava os dentes, os metais que lhe tirava as unhas, e a faca que lhe cortava o saco; desmaiou.

 

Desmaiou diversas vezes. Era difícil ficar acordado naquelas circunstâncias. Entretanto, durante os poucos minutos em que esteve desperto e sóbrio, gargalhou.

 

“O medo é uma prisão! Podem me torturar, façam o que quiserem comigo, seus imbecis! Eu vou perecer gargalhando da tolice e da pequenez de vocês. Vocês são vermes! Cortem a minha língua, arranquem o meu pau, tentem o que quiserem, mas o façam sabendo que morrerei mandando-os, todos, à merda, seus filhos da puta ridículos!”

 

Os soldados sabiam que ele não sairia dali vivo. Ele também sabia. No entanto, em seu estado de delírio selvagem e consciente, o escritor mantinha a alma tranquilizada pela convicção de que, assim que soubessem da sua morte, pessoas de sua confiança compartilhariam seus escritos em meios digitais, e exporiam o seu trabalho, permitindo, mesmo depois de ter o corpo devorado por bactérias, que desdenhasse de todo o governo, e de todas as convenções e demais imbecilidades alheias que o regime militar do seu país pregava e promovia a ascensão.

 

Tolos, porém, experientes, os militares sabiam que sua obra não estava exclusivamente em sua posse. Por isso, a seguir, pretendiam ir atrás da sua família, e dos nomes que ele delataria durante a tortura. Contudo, também sabiam que, caso ele não abrisse o bico e dedurasse os seus amigos e familiares para os quais havia pedido o favor de compartilhar o seu trabalho em caso de eventuais infortúnios, seria tarde demais. Em uma semana de desaparecimento já dariam sua morte como certa e começariam as divulgações.

 

Ao ter metade do antebraço torrado no fogão e não conseguir impedir que gritos fossem expelidos, decidiu se distrair, e optou por dar um pouco de humor à situação:
“Tudo bem, eu vou falar, eu vou falar!”, declarou.

 

Um sargento tirou o seu braço do forno, e o colocou em um barril de gelo.

 

“A lista de quem possui o livro está em um pen drive guardado dentro do lixo do banheiro. Escondi quando chegaram”, confessou, forjando uma expressão de piedade digna de um grande um artista enganador.

 

Os generais foram ao lixo, retiraram fragmentos de papéis higiênicos sujos de fezes, embalagens de pasta de dente, cotonetes e pentelhos, entretanto, não encontraram pen drive algum.

 

“Não tem pen drive nenhum aqui”, bradou o general. “Veja bem, se cooperar conosco, prometo que terá uma morte rápida. Vou perguntar só mais uma vez: onde está a porra do pen drive?”

 

Mesmo padecendo de uma insuportável agonia, o escritor se concentrou na lucidez da insanidade, pensou em Charles Manson a conceder entrevistas e, com muito esforço para não desmaiar, sorriu.

 

“Talvez esteja no rabo da sua mãe, aquela galinha dos ovos podres!”

 

O último choque não permitiu que acordasse novamente. Os soldados vasculharam a sua casa inteira, mas a mini máquina de escrever permaneceu intacta. Assim como os seus textos, era indestrutível.

 

Após a morte do desconhecido e censurado autor, um burburinho foi responsável pela divulgação do seu trabalho. Depois de publicado, com uma bela nota de apresentação evidenciando o contexto histórico em que fora escrito, o livro tornou-se um sucesso. A partir da repercussão, os torturadores e os seus colegas foram humilhados pelo povo, sobretudo graças ao positivo alcance da obra no cenário exterior.

 

Durante os seus julgamentos, no Tribunal de Exceção de suas consciências, foram condenados a, enquanto dormissem, escutar a última gargalhada do assassinado que os tornou vítimas.

 

 

Matheus Peleteiro , escritor brasileiro, baiano, tem 23 anos, o autor e jurista já lançou várias obras, entre elas, “Mundo Cão” (editora Novo Século, 2015); “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (editora Giostri, 2016); “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (editora Penalux, 2016); “Pro Inferno com Isso” (edição do autor, 2017) e “O Ditador Honesto” (edição do autor, 2018), "O último a sair, por favor, apague a luz e me deixe aqui" - alternando entre gêneros com coletâneas poéticas, romances e contos.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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