ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Entre perdas e perdas    

O mundo se tornou um lugar inóspito. E dos lugares piores para se viver talvez seja o Brasil, o mais insalubre. A pandemia por si só não basta. Além de perdermos diariamente pessoas queridas, a gente já acorda com medo de olhar as notícias, há sempre um de nós que partiu antes da hora levado pelo Covid-19, há também vergonhas diárias de ser brasileiro.

 

O que tem acontecido por aqui estava previsto. É necessária uma liderança forte e com boa dose de inteligência para conduzir o país. Não existe por aqui nem sombra disso.

 

E assim vamos improvisando, ouvindo barbaridades emitidas por gente que deveria estar preocupada com os destinos da nação, olhando pelas janelas cenários lindos e pouco frequentados. As ruas, embora ainda mais cheias do que se poderia desejar, andam bem vazias.

 

No isolamento tenho me afeiçoado às outras vidas que estão comigo. Os dois gatos de minha mulher, e sempre os considerei assim por não me relacionar com eles, estão mais próximos. Perceberam minha disposição em conversar. Estou me tornando aquele tipo de gente que fala com bichos. Quando faço isso, não consigo deixar de me lembrar de meu pai. Na época minha avó morava conosco e vivia de papo com o Pix, um cachorrinho que tínhamos. Meu pai sorria, meio descrendo daquele diálogo impossível, e dizia:
- Um dia ele responde e vou querer ver a sua cara.

 

Ele nunca respondeu. Mas tenho seguido os mesmos passos de vovó. Na impossibilidade de falar com gente, e estando minha mulher fora do país, converso com os dois peludos. E como soltam pelo pela casa inteira os bichanos! Um deles é mais arisco. Se esconde, não se interessa muito em estabelecer diálogo comigo. O outro, porém, presta muita atenção. E responde como pode e sabe: miando. A impressão que tenho é de que nos entendemos. Ele percebe minhas ponderações, muitas vezes críticas à bagunça que fazem, e eu suas escusas. É um felino educado.

 

Tenho recebido também, quando escrevo, a visita de maritacas. Elas vêm em bando e sempre uma ou duas pousam no parapeito da janela. Verdinhas, graciosas, lindas. Ficam por ali com seus ruídos alegres, olhando curiosas para mim, como sentissem pena de ver alguém ali parado, sentado em frente ao computador, incapaz de voar.

 

E assim vou gastando meu quinhão cotidiano de solidão. Vagando pela casa, fugindo das notícias, tentando produzir algumas histórias.

 

Um dia a gente perde o Daniel Azulay, no outro o Aldir Blanc e sente-se meio bêbado, um pouco equilibrista, como se tivesse que carregar a vida segurando-a com mais força para que não caia. Hoje partiu Sérgio Sant´Anna e os gatos ficaram pertinho de mim. Perceberam minha tristeza. Talvez saibam distinguir a dor de um choro sentido.

 

E enquanto os fascistas deitam e rolam por aí, nós vamos morrendo um pouco diariamente. Entre perdas e perdas, sobra cada vez menos coração.

 

Maio/2020

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

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