ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Adrian’dos Delima


Richard Serraria: ímpar miscigenação de culturas    

Ouvir Richard Serraria é mergulhar em uma aventura por determinados ritmos e por uma lírica inconfundível

 

Desde os tempos em que era quase somente um compositor e letrista da banda Bataclã FC já se apropriava de uma poética da “intercancionalidade” (referências cancionísticas cruzadas), intertextualidade, mescla de fragmentos de diversos ditos, escritos, cantados, enfim, de falares diversos

 

Mas como dizia André Breton, o poeta cresce em meio isolado e o desenrolar da lírica de Richard representa um desenvolvimento individual, não do discurso de múltiplas pessoas

 

A arte poética de Richard sintetiza em sentido micro a formação da própria linguagem verbal, sendo esta mosaico simbólico

 

E se a poesia que funciona pode ser testada como canção                                                                                       assim falava Ezra Pound
                                                                                                              estamos diante de um excelente poeta cujas letras não perderiam nada ou quase nada em efeito se usassem os suportes papel ou tela eletroeletrônica

 

E dos tempos de quase somente rapper da Bataclã FC, passando por um trajeto que inclui o grupo pesquisador-percussivo Alabê Ôni, Richard parte do que chama de “pop tradicional” (canção tocada com guitarra, baixo elétrico e bateria) para em sua gravação solo última, a premiada “Mais tambor menos motor”, ao mesmo “pop” voltar, desta vez permeado pela “tropicalidade”, convite à dança, conforme conceito de Vitor Ramil

 

Mas quem viu o último show do músico-poeta sabe que o formato, a sonoridade e a lírica do seu trabalho ressoam com uma diversidade bem maior, a linguagem e arte verbal tendo uma abrangência maior que a musical, embora esta última, de nenhuma forma, seja simplesmente limitada

 

Em Vila Brasil, 2008, primeiro disco solo de Richard, direção musical de Angelo Primon, a maioria das canções compostas em dupla com Marcelo Cougo, ou Marcelo da Redenção, velho parceiro de Bataclã, Richard propõe uma poética do popular, das cantigas de roda, dos ditos populares, dos regionalismos, da linguagem da capoeira e das religiões afro-brasileiras, com o uso ainda discreto do recurso da paranomásia, que iria se avolumar em outros álbuns do cantautor

 

“O anel que tu me deste não era vidro/ O amor que tu me tinhas/ Apenas começou/ Apenas como eu sou” (Jogos de amar)
(paranomásia e referências à cantiga de roda infantil “Ciranda, cirandinha”)

 

“O que fala a boca/ O que salga a boca [...] O que sai da boca/ O que trago à boca” (Jaqueline NegaDiaba)

 

“Gigabytes de emoção/[...] Giba bate o coração/ Giba Giba gigante negão”(Giba Gigante negão)

 

Há o uso de berimbau, tamborim, bandoneon; e o acordeom regional sul rio-grandense invade mesmo canções de ritmo afro, ou negro, como o ativista Richard prefere

 

No instrumental já predominavam os “cruzamentos [...] possíveis entre a música popular praticada no RS com elementos da Bacia do Prata” (palavras de Richard) que o cantautor aprofundaria em “Pampa esquema novo”, seu segundo disco solo

 

Em Vila Brasil, ainda, estes cruzamentos já se insinuavam pelo uso dos ritmos regionais e platinos, além de outros mais “globais”, ou importados de longe

 

É Tango, balada pop com violão, bossa, chamamé, ritmos árabes

 

São sambas vários, como o “Samba da impermanência”, que já menciona o ritmo no título

 

O ritmo do tradicionalismo gaúcho derivado dos países vizinhos e da miscigenação com a música indígena também aparece no vibrante chamamé “O pampa e a cidade”, que é acompanhado de vocabulário gaúcho interiorano-pampeano, e mostra o campo em contraponto à cidade

 

Imediatamente, o ritmo do candomblé comparece na homenagem a Giba Giba, “Giba Gigante negão” arranjado num ijexá para vozes e sopapos, tambores tradicionais dos negros rio-grandenses, gravados pelo próprio Giba Giba e por Sandro Gravador

 

Assim, o disco sai de uma canção tipicamente gaúcha para um toque de tambor afro (ou negro) em canção que fala do sopapo na letra

 

Giba Giba precursor na revitalização deste instrumento dos negros rio-grandenses que quase desapareceu no século XX, a Bataclã FC dando seguimento a tal legado no século XXI

 

No segundo disco, então, se acentuam os cruzamentos tri platinos (Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai)

 

Surge uma junção de candombe, tango, milonga, bossa com tango, ijexá, maracatu, suingue

 

Há um enriquecimento da complexidade rítmica das canções, facilmente verificável nas percussões

 

Esse “Pampa esquema novo”, de 2010/11, dá a Richard o primeiro prêmio que ganhou na carreira solo, por melhor arranjador, juntamente com Angelo Primon, Açorianos, o mais renomado prêmio das artes no Rio Grande do Sul, sendo que antes já havia recebido 3 Açorianos com a Bataclã FC

 

Não seria exagero dizer que o disco, que contou com diversas participações especiais, como a de Zeca Baleiro e com intercâmbios platinos, como com o uruguaio Daniel Drexler, era merecedor de outros prêmios para o Richard melhor compositor e melhor letrista, melhor letra de música

 

Quiçá prêmios por uma melhor canção, por exemplo, a inovadora “Temporal”, uma balada cantada em castelhano e tocada ao violão invadida por uma súbita batucada, candombe beat, embora esta, exceção, não seja criação do nosso artista a letra

 

A poética do disco voltada para a oralidade, regionalismos, tradições negras e intertextualidade literária

 

Por ex.: oralismo usual a estrutura sintática do refrão (já está no título, “Só se for só”) como o “só” se repetindo

 

“Só me levante do chão só se for por amor/ Só se for só”

 

As referências literárias, “Amor de perdição” está repleta delas, desde o título, denunciam a procedência de Richard como pessoa também dos meios literatos em contraste com o popular manifesto escancaradamente na lírica do disco e de toda obra do compositor, que vem de sua vivência, uma vivência, por vezes, provocada (o artista buscando deliberadamente vivências para compartilhar)

 

“Amor de perdição, Isolda e Tristão/ Perto do coração, grande sertão”

 

“O apanhador no campo de centeio/ Orgulho e preconceito/ O vermelho e o negro/ O tempo e o vento”

 

O uso da função poética da linguagem novamente se pronuncia através do uso da paranomásia, aproximando-se mesmo da poesia concreta, na forma

 

“à flor da pele aflora, amor/ a flor, amor [...] a cor da pele/ acorda amor/ a cor do amor” (A flor de perto)

 

“bailadera vai ladeira” (Bailadera)

 

Sopapo, tamborim, atabaque gaúcho de batuque, tambores de candombe e diversas percussões, que Richard chama de “percuteria” (mistura de percussão e bateria, conceito de Mimmo Ferreira)   Violões, bandoneon da bacia do Prata, piano, acordeom, instrumentos de corda brasileiros (viola de 10, viola de cocho e violões), nenhuma guitarra (para fugir à sonoridade do rock), contrabaixo elétrico

 

Eis o caudal instrumental de “Pampa esquema novo”, mistura de MPB com MPP (música popular do pampa)

 

Chegando ao último disco, “Mais tambor, menos motor”, 2017, é, como vimos, um retorno de Richard ao “pop tradicional”, porém com muita originalidade

 

Afinal, um “pop cabeça”, expressão que se usava há 30 anos para designar Paulo Leminski

 

Guitarras, baixo, bateria, efeitos, teclados

 

O Sopapo, sempre que possível, seria o primeiro instrumento cujo som seria arranjado, no projeto de Richard, para só depois pensar a bateria e o baixo, embora nem sempre essa primazia seja perceptível no resultado

 

“Rap, sopapo, rock, ragamuffin, reggaeton, milonga, suingue, MPB e MPP (Música Popular do Pampa)” entram no disco mais pop de Richard, destacadas aqui as palavras que este usa

 

Eu acrescentaria ainda o funk melody, que percebo em “Palavra gota de sereno”, apesar de poder esta ser considerada uma mescla com o rap

 

Álbum produzido por Angelo Primon, Lucas Kinoshita e pelo próprio Richard Serraria

 

Dessa vez, o trabalho de Richard levou 3 troféus açorianos: melhor compositor MPB, para o artista, e melhor arranjador e melhor projeto gráfico, junto com parças, comparsas, concorrendo ainda a melhor disco do ano

 

Mais uma vez, Richard merecia outros prêmios: um prêmio de melhor letrista e de melhor canção para o que Richard chamou de “vinheta”

 

A vinheta, no caso, que considero canção, dá título ao CD e é brilhante no uso da tecnologia e do sintetizador

 

Aliás, todo o disco conta com mais uso de teclados vários, sintetizador e ainda do acordeom

 

A letra admirável
“Tão inútil como fósforos num dia de chuva / fui buscar a poesia que poderia ter sido / Cansado de engarrafar silêncios, vim fazer Mais Tambor Menos Motor”

 

O disco explora a música popular brasileira e sua herança negra  junto à música platina com a qual o Rio Grande do Sul tem uma relação cancionística-musical dialógica

 

Dialogam no álbum a “Estética do frio”, de Vitor Ramil, e a tropicalidade, através de seus traços dançantes

 

Quanto à ars poetica, destaca-se a influência do rap, palavra ritmada, e a referência ao universo literário que se espalha por algumas letras, como a de “Livro do desassossego”, menção a livro de Fernando Pessoa, ademais de vários outros escritores, sutilmente, e “Um bonde chamado desejo” referência à famosa peça de teatro

 

Em “Livro do desassossego” também entra a “intecancionalidade”, com vestígios claros de Tim Maia na letra, como tem a própria melodia

 

O álbum não abandona a paranomásia

 

“Tem batucada lá fora/ Esse batuque é tu que tu que é tu que bate aqui dentro” (Livro do desassossego)

 

Com o direito de atingir quase o modo de construção de um poema concreto, chegando a apresentar um neologismo (desaguora), como no fado com toques de samba “Fado para preta flor”       E como já que escreveu o papa brasileiro João Cabral de Melo Neto, há textos tão compactos que não podem ser lidos no detalhe, mando a letra aí completa

 

“Desapego, desapreço, desaforo, desafogo
diz agora se há fogo, diz agora

 

Desapega, desapressa, desafora, desafoga
diz agora que é aqui fora, diz agora

 

Desacata, desrecata, desterrada deste nada
diz agora se é cilada, diz agora

 

Desacato, desrecato, desterrado deste lado
diz pra mim se estou errado, diz agora

 

Diz agora do meu lado, deságuora esse meu fado
diz agora com cuidado, desabrocha e diz:
Negra flor, preto amor, negra flor, preto amor.

 

Desapego, diz há preço, desaforo, diz: há fogo!
diz agora se é fogo, diz agora

 

Desapega, diz há pressa, desafora, desafoga
diz agora que é aqui fora, diz agora

 

Desacata, desrecata, desterrada deste nada
diz agora se é cilada, diz agora

 

Desacato, desrecato, desterrado deste lado
diz a hora com cuidado, diz agora

 

Diz agora do meu lado, deságuora esse meu fado
diz agora com cuidado, desabrocha e diz:
Negra flor, preto amor, negra flor, preto amor.

 

Céu em mim só sei ter voo sem fim”

 

Um belo poema
Richard o chama “poema para voz”
mas que fica muito bem num livro

 

 

 

Lembrando à comunidade lusófona que o prefixo “des”, na maior parte do Brasil, e na canção, se pronuncia “dis”

 

“[...] a palavra “voo”, no tecido canção, soava como um som único, foneticamente também como verbo “vou”’ (Richard Serraria)

 

Mas o que será que fica do trabalho cancional solo de Richard Serraria?

 

A mescla de ritmos, cantares, falares

 

Uma poesia única mas pertencente a múltiplas linguagens

 

Uma grande contribuição para integração do pampa negro, branco e indígena, com inevitáveis toques de globalização que ultrapassa os arredores do Prata

 

Mas a meu ver, sobretudo, fica uma lembrança para os que ouvem música que foi branquificada ou nasceu de uma branquificação (ou clareamento) tipo rock, jazz, bossa nova

 

Ou mesmo quem curte o funk de Anitta e o axé de Ivete Sangalo e Cláudia Leite, que é música negra com ícones brancos

 

“Tem dias que o homem acorda e tem cabelo pixaim” (“Cabelo Pixaim”, última canção de “Mais tambor menos motor”)

 

Depois de ouvir os 3 discos de Serraria, esta linha em especial, vinda de um originalíssimo e excelente músico-poeta, ficou latejando na minha cabeça

E, para o bem do público de poesia escrita, tais dotes poéticos são exercidos também em poesia para ser lida em papel ou meio eletroeletrônico

Richard Serraria nos prepara um livro de poemas para 2020 intitulado “Sopaporiki”

Será uma reunião de orikis, tipo de poema com origem na Nigéria

Na verdade, promete o poeta, “uma radical forma de criação poética partindo da poética dos orikis, expressão lírica associada no livro ao imaginário do Sopapo que assume atributos e a cosmogonia dos 12 orixás da espiritualidade de matriz africana”

A julgar pelos poemas-canção de Richard, podemos supor que seus poemas para serem lidos ficarão muito bem no suporte livro de papel ou digital

 

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Na década de 1990 publicou poemas em antologias e  fanzines fotocopiados que editou com amigos, além de editar e publicar no jornal  “Falares”, dos estudantes de letras da UFRGS. Seguindo seus estudos como autodidata, posteriormente publicou em revistas de papel e online, como a “Germina”, a “Babel Poética”, “Gente de Palavra”, “InComunidade”, “Sibila”, “Mallarmargens”, “Diversos Afins”, “Subversa”, “Literatura & Fechadura” e outras. Publica, sem muita regularidade, traduções e poemas próprios na sua página Rim&via (partidodoritmo.blogspot.com.br) e no Facebook Adrian’dos Delima.É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns” (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015) , “Flâmula e outros poemas” (Gente de Palavra, 2015) e “O aqui fora olholhante” (Vidráguas, 2017). Traduziu poemas de Joan Brossa para a Revista “Gueto”.

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YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


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