ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Deusa d’África


Malequisse Valoi    

Sentada na esteira, exaurida pelo tempo tal como os seus cabelos esbranquiçados, olhos cansados de ver, cérebro cansado de raciocinar, porque a idade é efémera e não perdoa, mas é a ela que mesmo cansada os homens, os com sede de ouro e de riqueza de Moçambique se dirigem para saber onde fica o caminho da riqueza.

 

─Óh! Velha, onde fica o rio da riqueza?

 

─ Ali. Respondeu a velha indicando com o dedo bem cansado de educar netos e bisnetos.

 

Os exploradores não disseram mais nada à velha, nem uma palavra de agradecimento, tomaram o caminho em busca da riqueza, explorando tudo e todos.

 

Mas, Malequisse Valoi, na sua velha esteira, mesmo cansada dizia:
─ Tudo o que tem primórdio, tem fim.

 

Assim começou a governação, a tomada das terras moçambicanas, e seu povo ensardinhado em barcos tendo coleiras como cães no pescoço até Portugal, Índia e Brasil.

 

Ergueram pontes, casas e belas infra-estruturas que até hoje lá estão, ergueram-nas com seu próprio sangue, sangue bem negro como a noite, como a escravidão e o seu sabor tão docemente amargo.

 

E quando chegou a vez de mexerem com seus filhos, netos e bisnetos, não pensaram duas vezes na dor de Malequisse, pegaram-nos, levaram-nos para o xibalo, nas plantações de cinzal, ganhando a morte em troca.

 

Malequisse, na sua velha esteira observava tudo o que faziam com seus filhos, netos e bisnetos criados com ardor e amor, e dizia:
─ Um dia isto vai acabar como o feitiço que se vira contra o feiticeiro.

 

Chorava dia e noite, mas seus netos e bisnetos olhavam-na como uma mulher forte capaz de suportar tudo na vida.

 

Seus netos cresceram, outros morreram na luta, mas ela continuava lá sentada na sua esteira à espera de um deles lhe trazer a boa nova.

 

 E a guerra continuava, a luta armada avançava, e ela continuava lá na sua esteira à espera da boa nova.

 

Um dia seu bisneto Samora, o bisneto mais novo, passou por lá, para ver se ela ainda existia, e quando ela o viu disse:
─ Estou à espera, filho.

 

─ De que vovó? Perguntou o bisneto.

 

─ Da liberdade, meu filho.

 

Assim abençoou seu bisneto, o único que existia na família, pois outros tal como o Eduardo já tinham sido mortos. Colocou a mão na cabeça do bisneto e disse:
─ Tu que és Samora, filho de Ngungu, aquele que esses homens assassinos o encontraram em plena batalha apertado, e seu amigo Maguiguane gritando: Ngungu nhane hi famba e eles o apelidaram de Ngungunhane, mataram-no, dando-o peixe que não comia, está na hora da vingança, vá e luta pela força do teu pai Ngungu.

 

Khanimambo, vovó. A luta continua!

 

Assim se foi Samora, lutou durante anos e anos, uma luta sangrenta, e o dia mais esperado por Malequisse chegou, Samora voltou para casa, chamou a todos para proclamar a independência tão esperada por todo o povo de Moçambique.

 

Quando deram zero horas do dia da proclamação, e ele no seu discurso eloquente, disse:
─ Proclamo solenemente a independência de Moçambique.

 

Sem completar tudo o que tinha para dizer, a vovó Malequisse interpelou:
─ Meu filho, agora posso morrer em paz, porque meus olhos viram a liberdade, um guerreiro pode morrer mas não deve ser vencido. Assim morreu Malequisse Valoi, depois de ter saboreado a liberdade.     

 

 

Deusa d’África nasceu aos 05 de Julho de 1988 em Moçambique, é mestre em Contabilidade e Auditoria e actualmente é professora na Universidade Pedagógica e na Universidade Politécnica. É Gestora Financeira do Projecto Global Fund – Malária. Começou a escrever poesia em 1999. A autora é representada pela agência literária “Capítulo Oriental”. Possui várias obras (prosa e poesia) publicadas na imprensa como é o caso de "Jornal Notícias”, “O País”, “Pirâmide”, “Diário de Moçambique”, em revistas tais como “Xitende” e “Varal do Brasil”, foi antologiada pela “Colectânea Veríssimos” editada em 2012 por Alpas XXI, Antologia Brasileira “Mil Poemas para Gonçalves Dias” em 2013, pela Academia de Letras e Artes Luso – Suíça “Caravelas em Viagem” em 2016.

Viu alguns dos seus trabalhos traduzidos para sueco. É Coordenadora Geral da Associação Cultural Xitende, é palestrante, activista cultural, promotora do direito à leitura e mentora do projecto Círculo de leitores. É colunista do Jornal “Correio da Palavra”.

É autora de obras como “A Voz das Minhas Entranhas” (poesia) editado pelo Fundac em 2014, o romance “Equidade no Reino Celestial” e “Ao Encontro da Vida ou da Morte” (poesia) pela Editora de letras de Angola em 2016. Coordenou a Antologia poética “Vozes do Hiterland” publicando escritores de Gaza e Niassa, editada pela Editora de Letras de Angola em 2016. Em 2016 foi Coordenadora para Moçambique da Antologia editada em Galiza “Galiza-Moçambique: Numa Linguagem e Numa Sinfonia” sob coordenação geral do escritor José Estevez publicando escritores de Moçambique e Galiza.

Foi distinguida pelo Governo Provincial de Gaza como Personalidade do ano 2016 em reconhecimento do seu patriotismo e pela sua contribuição no desenvolvimento e promoção das artes e cultura. Foi premiada como vencedora absoluta na modalidade de poesia e foi vencedora do segundo lugar em contos nos Concursos Literários Internacionais lançados na República Federativa do Brasil por Alpas XXI em 2012. Em Março de 2017 representou Moçambique no Festival Literário de Macau. Em 2018 foi antologiada pelo Festival Literário de Macau “Seis em ponto, contos e outros escritos VI”, traduzido em inglês “Six on the dot, short stories and other writings VI” e depois traduzido em chinês. Ainda em 2017 foi antologiada em “À Margem da Literatura” pela UCCLA. Foi antologiada em Macau no “Rio das Pérolas” livro de poesia em 2019.

Em Julho de 2019 participou no Festival Internacional Poetas d´Alma em Maputo.

Participou no primeiro encontro realizado em África e em Moçambique, de Poetas del Mundo em Outubro de 2019, como Embaixadora do Movimento Poetas del Mundo para Gaza.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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