ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Eduardo Madeira


O instante ou a obra de arte na era do Tinder    

(Para Walter Benjamin)

 

Nísia tinha os pés descalços quando encontrou, entre as caixas da mãe, uma fotografia em preto-e-branco onde figurava um menino esguio e de olhos tristes. O menino era retratado de pé, levemente recostado sobre uma espécie de cavalete que, à época, era utilizado para garantir a imobilidade do modelo, uma vez que a fraca capacidade de exposição das primeiras chapas fotográficas exigiam um longo tempo de exposição até que o registro fosse feito. Ela então entendeu que, por isso mesmo, o menino precisara ser conduzido a um certo estado de recolhimento, um nível de concentração anti-natural, para que se mantivesse longe de perturbações externas que pudessem comprometer sua imobilidade.
E assim, ponderou, aqueles olhos tristes jamais poderiam ser encontrados nos avatares que se deslizavam maciçamente sob seus dedos no Tinder.


O menino vestia um fraque infantil que parecia sufocante, sensação que era reforçada pelo tosco fundo artificial com motivos de paisagem tropical que havia sido instalado para o retrato. Pra completar, ainda segurava na mãozinha esquerda um chapéu que parecia muito grande pro seu tamanho.


As horas de flips no Tinder ou no Instagram são programadas para que o usuário não perceba nenhuma imagem individualmente, refletiu, porque isso esgotaria a possibilidade desse usuário permanecer navegando atrás do "mais" que nunca basta.


O menino, pelo contrário, era único. Era dotado de aura, mesmo que a fotografia analógica também pudesse ser reproduzida mecanicamente. Sua fisionomia, contudo, por ter sido produzida para aquele instante específico, jamais poderia ser notada mesmo que se observasse o menino andando por aí, a olho nu, quando vivo.


Lembrou-se dos versos de Benjamin, também enamorado de uma fotografia: "Eu me pergunto como o adorno desses cabelos / E desse olhar que rondeia os seres de antigamente / Como essa boca aqui beijada em torno da qual o desejo / Se enrola, loucamente, como fumaça sem fogo". A fumaça sem fogo, o índice sem referente, era a paradoxal magia daquela paixão analógica.


A inscrição no dorso do retrato registrava a informação de que se tratava de seu avô, que só conhecia pelo nome, uma vez que havia morrido muito antes de ela nascer. Tratava-se, portanto, de uma perigosa paixão proibida. Um incesto analógico.


Escaneou a foto e adicionou ao perfil do Tinder. Ainda que o grão tenha se transformado em pixel, talvez alguém pudesse ver naqueles olhos o que ela viu. Não pra que um possível par manifestasse desejo por um pequeno rapaz, obviamente, mas que entendesse, como ela entendeu, que o instante é a coisa mais bonita que existe.

 

 

Sou escritor e chamo-me Eduardo Madeira. Vivo no Espírito Santo, Brasil.  Tenho uma novela publicada pela editora Pedregulho (“Bichos que habitam as frestas”), que rendeu bons elogios do nosso supracitado amigo em comum, mote da nossa primeira troca de correspondências. De projetos em andamento, todos em prosa também. Contos e romances. No que tange ao acadêmico, estou para defender dissertação de Mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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