ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Fábio Pessanha


O rio aquatemporal de Wanda Monteiro    

Um viço temporal na idade das águas. O rio como presságio, e além. O rio como morada, e aquém. Desde as novidades guardadas no segredo dos leitos, a escuta da eternidade transiente de águas acontece na mais nova obra de Wanda Monteiro. Trata-se de aquatempo,o elo entre o corpo da poeta e o rio amazonas. Relatos, experiências de suas vivências amazônidas, imagens de existência fluvial compõem a liturgia poética dos poemas presentes na referida obra. Compartilhamos as pegadas desse tempo insólito quando entrarmos em estado de leitura aquatemporal. Testemunhamos a celebração de corporeidades diversas. A dissimulação da realidade, que é a ambiguidade entre segredo e sagrado. A impossibilidade de se reter as águas nas próprias correntezas ante a verdade em sua animosidade ontológica. Na concretude do que resvala, o tempo é água. O transitivo se mostra já no primeiro poema:

 

E pensar que somos transitórios
um frágil equilíbrio de vida
líquida e efêmera
sobre a linha d’água
fluindo no tempo
finito em nós
(2020, p. 27)1

 

Somos transitórios. Sim, a gente passa, fica, sai correndo e nem olha para trás. A gente existe. Entrar na água para ser a correnteza. Ficar na terra para ser a margem. Depois, a própria travessia. Essa incorporação nos deixa úmidos, e a umidade é apresentada como imagem do transitório. Esse lábil perecível e constante favorece a tessitura de poemas. Propicia leituras. Mergulhos. E cada poema parece transbordar nos próximos, como se cada um fizesse parte do outro, ainda que se mantivesse a particularidade de suas construções.

 

Aquatempo: pequenos poemas condensados em águas passageiras. As margens se instalam em nossa vontade de ser além do mergulho. Vamos de cabeça rumo ao fundo sem deixar de perceber as muitas profundidades que existem num mesmo ato contra os muros. Das imagens aprofundantes presentes na referida obra, podemos chegar às nossas desde uma leitura imersiva. Por exemplo, passamos a perceber que a chuva é um modo vertical de rio, que entra nas casas por suas frestas e se integra à submersão de cada um em seu próprio silêncio ou daquele que se permitir experimentar as gotículas de rio em todo lugar que se fizer margem, porque “vai chover / haverá um rio suspenso no ar” (p. 51).

 

Os poemas aquatemporais são como pequenos sonetos reconfigurados, não porque lembram a estrutura dos tradicionais dois quartetos e dois tercetos, mas por serem singelos sons de uma lembrança que ainda não tivemos. A melodia das palavras vai nos molhando tal qual um sobressalto às escuras. O medo. A areia entre os dedos. O sol, o sal do suor, as lágrimas, o corpo na densidade das águas. Um limite que é imersão e espera, saudade e tempo. O rio num crepúsculo cuja aquosidade se apresenta grávida de enseadas.

 

Um tempo aquoso. A umidade se infiltra na solidez pétrea das faces. Um tempo que se espalha e umedece até abismos para chegar à metamorfose líquida da memória.

 

Tu choras
turva água tua
de teus olhos
escorre nua
molha a pétrea
face tua
abre-lhe fenda
funda
escura
uma janela para teu subterrâneo cais
abismo de teus ais
(p. 101)

 

Como um estrondo abafado pela boca, a aliteração (“t”) presente neste poema redesenha a dor transbordante de águas. O corpo aqui é o rio imenso entre nascente foz. Exagera na força das águas e penetra na face mais dura do caminho feito de suas passagens. Forte também a assonância (“u”) que no mapa da nossa oralidade se apresenta como a vogal mais fechada.

 

A combinação transcendente para além da interjeição ou substantivação das dores enseja a “fenda” como abertura para o “abismo de teus ais” numa provocação para entranhamentos, ou propõe a ambiguação entre a profundeza do rio e a de um possível interlocutor. Rio é também a metáfora dialogante (“tua”), que acolhe o riso fundo das horas nuas. O choro inconcebível de margens faz nascer a imagem de um alguém que mede as horas do encontro com sua metalinguagem.

 

O abismo é cais. De certa maneira, a queda redesenha o papel do leitor/autor em Aquatempo quando o convite ao salto extrapola o destino das águas fluviais: o rio se torna cada leitor. A imersão é feita dentro de cada um.

 

Wanda Monteiro arrisca. Tinhosa na arquitetura do nado, mete-se no tempo fluido de uma poética de infiltrações. Chama a atenção para a instância líquida da realidade, que se realiza, independente de qualquer ordenação. Chama de acaso o instante único de um acontecimento que, sem qualquer satisfação, realiza-se. Assim nos diz o poema a seguir:

 

A realidade vive passando a esmo de ti
nela reside um cotidiano
despido de tuas vontades
as pontes que atravessas
sem escolha
são acasos que se vão cumprindo
e cessando nesse teu devir
o que te acontece
sem que consintas
são janelas que se abrem
e se fecham
na arquitetura do tempo
o mesmo tempo
flui com o rio
(p. 117)

 

Pela tessitura de imagens e escuta das vozes de seus passados, Wanda compõe uma obra que procura por seus nascimentos. Não é à toa Aquatempo ser dividido em cinco partes, em que cada uma delas é introduzida pela imagem de um peixe tatuado em vermelho. Daí podemos cogitar que os peixes simbolizam a gênese, a fecundidade, a restauração cíclica da vida (cf. Chevalier; Gheerbrant, 1986, pp. 823-25); e as tatuagens nos peixes podem se referir à relação da poeta com a natureza, com a terra e as águas, com os ancestrais indígenas que lhe dão forças de forma silenciosa, mas que, mesmo silentemente, comparecem bravamente em sua escrita.

 

Tempo e rio se misturam e propõem uma lógica peculiar em Aquatempo. Percebemos essa imbricação em versos como “o rio é um instante / que nunca para de morrer”. Desse modo, se já tínhamos a referência do rio como símbolo de nascividade contínua desde o fragmento 91 do pensador originário grego Heráclito, o qual diz: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio” (1980, p. 113); vemos na obra de Wanda Monteiro a retomada dessa proposição, intensificada pelas cores e formas amazônidas, mantendo-se a complexidade de uma poesia pensante, desencadeadora de realidade.

 

Não parar de morrer diz também não parar de nascer, quando morte e vida se dão simultaneamente. Percebemos, então, o rio aquatemporal em dissonância, já que aparece diversamente como movimento do real, presentificado materialmente enquanto poema e imaterialmente enquanto fluxo criativo-pensante. Pela extensão metafórica das águas, o rio extrapola as margens e reverte sua horizontalidade na imagem da chuva: “Sentes? / é cheiro-de-rio-voltando-chuva” (p. 53); imiscuindo-se na dinâmica temporal, sobressaltada em algumas passagens: “Tu olhas para o rio / como se ele fosse teu / [...] / cada mergulho / é uma despedida” (p. 33); “No amanhecer / procuro pelo puro do silêncio” (p. 85); “No ventre de tua rosa tardia / nasce outro tempo / de silêncio” (p. 129) e por aí vai.

 

Não há paragem enquanto houver fluência de águas. Enquanto o poema se disser cada vez mais palavra, mais o rio correrá pelas veias, pelos vãos, mais verterá o sentido ambíguo da confissão pela existência múltipla dos instantes. O poema homônimo da presente obra nos mostra a copertença entre as águas: do rio, das chuvas, das lágrimas, do suor; todo corpo é correnteza para o que nos torna foz de nossas nascentes. Não há como dizer o ritmo das águas. Só é possível a transfiguração desse movimento em poema:

 

AQUATEMPO

 

Cai do céu
brota na terra
corre por vigas
veios – veias – vidas
na pedra morre
da pedra vive
vinga – verte – corre
líquido chão
indiviso vão
um-sempre-tudo
existe e resiste
na singularidade onde o tempo flui
no líquido espaço onde a vida
toda ela
surge e ressurge
na água
(p. 133)

 

Lugar de criação e morte. Nascimentos. A água é mais que imagem. Uma poética afluente movida também por rupturas ressignificadas em alguns potentes enjambements, como os do poema acima. A polissemia proposta em algumas passagens carrega consigo a tensão contida em caminhos diferentes num mesmo veio. Por exemplo, pode-se ler “líquido chão / indiviso vão” como imagem refluidora do pétreo, em que chão deixa de significar firmeza para entrar na mobilidade das águas, formando ainda uma imagem sonora com o “indiviso vão”, na medida em que este verso propõe a indiscernibilidade do espaço em função da impossibilidade de se estabelecer divisas.

 

Outra possibilidade de leitura, conforme supramencionada, é pelos enjambements, e para isso precisamos voltar um pouco em cada verso. Então, leríamos “[...] Corre / líquido chão / indiviso [...]”. Como música que vai no contratempo do compasso, a quebra rítmica do trecho na palavra “corre” – embora mantenha o sentido primeiro da então maleabilidade do que seria fixo como chão – realoca tal movência. O chão passa a se movimentar de maneira líquida, mantendo intacto seu sentido basilar. Haveria uma reversão, pois o chão não mais seria o depositário das rotas; ele mesmo seria o movimento, deslocando-se liquidamente e ainda com fronteiras indiscerníveis. Uma imagem muito fértil, diga-se de passagem.

 

O tempo é rio. Realidade é correnteza, e Wanda se torna todxs xs poetas, uma vez que todxs habitam o lugar da palavra, ligados por esse traço. Todos são braços de rio. Todos deságuam no mar da poesia.

 

Notas

 

 1 A partir de agora, as referências ao Aquatempo serão feitas apenas com a indicação do número da página em que o poema citado se encontra.

 

Referências

 

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Diccionario de los símbolos. Barcelona: Editorial Herder, 1986.

 

HERÁCLITO. Fragmentos: Origem do pensamento. Tradução, introdução e notas de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,1980.

 

MONTEIRO, Wanda. Aquatempo – Aquatiempo. São Paulo: Patuá, 2020.

 

Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre suas pesquisas, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor do livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Assina a coluna “palavra : alucinógeno” na Revista “Vício Velho”. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas “Diversos Afins”, “Escamandro”, “Ruído Manifesto”, “Sanduíches de realidade”, “Literatura & Fechadura”, “Gueto”, “Escrita Droide”, “Gazeta de Poesia Inédita”, “Mallarmargens” e na própria “Vício Velho”.

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