ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Quem tem medo de assombração?    

Ouvi, em roda de prosa séria, um possuidor de certa idade e sapiência muita, narrar um caso que pode até ser estranho, mas não afronta as verdades que passeiam nas veredas da vida. A insuspeita testemunha do inusitado garantiu que em um engenho nordestino houve o caso do diabo visitar a casa de moagem, beber a garapa e ainda furar a sacaria pra comer punhados de farinha.

 

           Risos incrédulos ouvi, mas não duvidei do insuspeito veterano. O conheci na mesa de um bar, mas nem por isso desmereço a justeza do seu palavreado, pois deu pra perceber que se tratava de um homem sério e que merecia crédito. Quem ostenta cabelos de algodão e sorriso de sabença nata não pode ser um reles repetidor de lorotas. Nenhuma dúvida. Creio que o caso do engenho do diabo, narrado por ele, condiz com os sucedidos nesse mundão sem taramelas.

 

          Não acreditam que o diabo beba garapa e coma farinha de mandioca? Pois duvidem se quiserem. Só quero ver se neguinho aí tem coragem de ir pra uma encruzilhada na meia noite sem lua de uma sexta-feira 13 de agosto de um ano bissexto. Vai lá, valentão, e leva cachaça e farofa de galinha preta pra tu ver. E o que se verá é o cão chupando manga e palitando os dentes. Vai lá, vai...

 

          Nos somatórios, como deixou escrito Guimarães Rosa, “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver.”

 

          Nesse acontecido no engenho do diabo o dono do caso está bem acompanhado. O escritor João Alphonsus, por exemplo, dá testemunho parecido no romance Totônio Pacheco. Foi que o avô do fazendeiro Totônio era ruim como o cão e judiava da escravaria. Um dia, por dá cá aquele bagaço de cana, afogou um escravo no tanque de fermentação da garapa. Os outros escravos viram e engoliram o ódio, mas prepararam o revide. Uma noite, quando o excomungado voltava de mais um embate de sexo truculento com uma das infelizes da senzala, não notou a tampa bamba no tanque e tibum! - lá se foi o danado -. Diz que ele ainda tentou se manter à tona do cachaçal, mas parece que alguém o puxava pra baixo. Uns juravam ter visto o escravo morto, outros pugnavam pelo próprio capiroto, que ria e mantinha o condenado sob a espuma doce-etílica. Pelo sim, pelo talvez, por todo o sempre se passou a ouvir aquela luta desesperada da alma em busca de reza e da salvação impossível.

 

          Há muitos casos desse tipo e de outros assombramentos. Sabe o lobisomem? Pois ele marca presença no livro Fogo Morto, onde o José Lins do Rego nos fala das estripulias mal assombradas do mestre seleiro José Amaro, ele sim, vivente pagando excomunhão por virar bicho dentuço nas noites de lua prenhe.

 

          Outro exemplo de homem com garras e dentes de lobo? Está nas páginas de Jubiabá, romance antigo de Jorge Amado, bem antes dele trocar o dito credo comunista pelo pragmatismo na versão Antônio Carlos Magalhães, que foi rei da Bahia e hoje é monte de ossos. O cenário é de uma Salvador ainda de muitas matas e morros, onde os ex-escravos se amontoavam para esconder a miséria do salve-se quem puder. Foi assim: antes da explosão do apetite imobiliário os miseráveis viviam lá e como as sombras fazem da escuridão o ambiente ideal para o que se viu ou se acreditou ver, em uma noite de breu alguém gritou:

 

   •   É o lobisomem!

 

          E ninguém mais saiu sozinho à noite, só aos magotes na caça ao lobisomem, que por ser encantado, só aparecia quando queria e não quando os valentes da cachaça desejavam. Afinal, lobisomem pode ser muito feio, mas não é besta pra enfrentar paus, pedras e tiros, mesmo que ninguém tivesse à mão sequer uma bala de prata.

 

          Há outros assombramentos, como os dos ancestrais mortos na saga de José Lins do Rego. No romance (autobiográfico?) Usina, o personagem Carlos Melo era um fracalhão e antes de perder a pose e os bens para os novos donos da indústria açucareira viu e tremeu diante das visagens que voejavam pelos quartos e corredores do casarão em ruínas.

 

          Aqui mesmo, no vale dos gorutubanos, segundo revelou o professor Donato Durães de Vasconcelos, “viveu um homem chamado Alexandre que diziam que ele virava lobisomem. E para isso acontecer, o sujeito tinha que deitar em um local onde um cachorro dormia, em noite de lua cheia, ficando metade homem e metade cachorro.” Osvaldo Antunes Farias, no livro Os filhos do Gorutuba, cita mais dois homens que, por terem comportamentos considerados esquisitos, eram apontados como lobisomem: Chico da Moita e Tibúrcio Véio, ambos estigmatizados.

 

          O lobisomem é um ser lendário com origem na mitologia grega, sempre presente no imaginário de muitas culturas ao redor do mundo. Para se tornar um, só se alguém fosse o oitavo filho após sete irmãs. Ou o sétimo filho de um pai, ele também, sétimo filho. É improvável que aconteça, principalmente no Brasil, onde não existem lobos, a não ser o quase extinto lobo guará que não assusta ninguém.

 

          Cito o que publiquei no livro Família Miranda – vidas e histórias, ensaio que mistura o historiográfico com a biografia e que também versa sobre os assombros da região.

 

          E o que dizer dos miasmas fantasmagóricos que habitam as páginas de Pedro Nava, principalmente no Galo das trevas, o quinto dos seus seis livros de memórias?

 

          Bom mesmo, dirão os telúricos, é se perder nas possibilidades de um possível acordo entre Riobaldo e o capeta. Ele, um macho-fera, com cheiro de pólvora no suor e gosto de sangue na ponta do punhal, duela entre a crença dos benditos e a maldição da parceria demoníaca. E, como se não bastasse, pena com o impossível amor por Reinaldo/Maria Deodorina, Diadorim, mulher travestida de rapaz com sanha de vingança.

 

          Está tudo lá, nas veredas do grande sertão de Guimarães Rosa. E quem duvidar que confira e se assombre com as coisas impossíveis que sucedem nas trilhas do imaginário.

 

          Não se apoquentem com o extenso da escrita, pois “paciência de velho tem muito valor. Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é se fazer outras maiores perguntas.”

 

          Ora, meus chegados, “quem desconfia, fica sábio” e do dito rosiano ninguém se arrisca duvidar.

 

         Para finalizar: peço aos conhecedores de mistérios que me reservem uma vaga em mesa de bar, pois desejo ouvir quem saiba narrar acontecências (ousadia neologística de Vilma Guimarães Rosa, em livro de contos com mesmo nome) do além da imaginação. Se algum “menino” das safras anteriores aos anos 40 e 50 aceitar o desafio, estarei atento para ouvir os casos e acreditar em tudo. Até mesmo se houver citação de políticos do bote armado.

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Antônio Lázaro de Almeida Prado, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Claudia Vila Molina, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Eduardo Rennó, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Federico Rivero Scarani, Flávio Machado, Flávio Sant’Anna Xavier, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Júnior Cruz, Lahissane, Leila Míccolis, Lourença Lou, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Matheus Peleteiro, Moisés Cárdneas, Nilda Barba, Paulo de Toledo, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR