ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Luís Giffoni


Canibais da COVID    

Não tiveram filhos, aposentaram-se cedo no serviço público, planejaram ficar de papo para o ar até o último dos dias, em vingança contra os anos de ditadura do relógio. Para preencher as longas manhãs, mantinham o olho na internet, em busca de notícias. Depois, liam seis jornais. A princípio, apenas os da cidade. Como a leitura não durava até o almoço, começaram a comprar todos os que a banca da esquina vendia.

 

Tampouco ficaram satisfeitos. Passaram a assinar diários e revistas de capitais distantes, do Brasil e do exterior, puseram-se a par de assassinatos na periferia de Macapá ou das infindáveis animosidades entre árabes e judeus. De vez em quando, ele levantava os olhos acima das lentes para comentar:
 – Você viu, querida, os mortos da covid no Irã passam de três mil.

 

 – Três mil, quinhentos e noventa e um – ela o corrigia, com o gosto pela exatidão de quem chefiara uma seção de estatísticas oficiais.

 

– Tem jornal dizendo que chegam a quatro mil ou mais – ele se defendia.

 

Seguia-se uma hora de silêncio, trespassada apenas pelo ruído das páginas que folheavam ou dos cadernos atirados ao chão da varanda onde o sol os aquecia.

 

 – Você viu, querida, morreram mais de trinta de covid neste fim de semana no Rio.

 

 – Trinta e dois.

 

 – Te peguei! Foram trinta e quatro. O levantamento do jornal é das nove da noite. Mais dois morreram no hospital hoje. Está na internet. Acabei de ver.

 

 Durante o almoço, um sentimento de vazio os atingia. Era como se cortassem o cordão umbilical com a realidade, pesadelo contornado pela televisão. Comiam depressa, a fim de logo se postarem defronte à telinha.

 

 – Ótimas essas imagens do médico morrendo de covid. Viu como faltou ar?

 

 – Preferi as do terremoto. Aquele menininho chorando ao lado da mãe esmagada então... Faziam a sesta, dando tempo ao mundo para acontecer mais um pouquinho e chegar até eles. Acordavam às três em ponto, hora dos noticiários na tevê a cabo.

 

 – Não mudou nada desde o almoço.

 

 – Teve o anúncio do recorde de mortos nos Estados Unidos.

 

 – 40 mil, né?

 

 - 41683 - ela triunfou.

 

 Naquela noite, veio a enchente, verdadeira tromba-d’água. A casa ficou inundada, paredes e muros ruíram, carros saíram flutuando pela rua. Os dois aposentados viveram momentos de medo. Perderam até a televisão. Só melhoraram quando a repórter os entrevistou. Entusiasmado com a perspectiva de virar notícia, ele sugeriu:
 – Vai naquele prédio ali, moça, que você vai fazer uma tomada e tanto. Tem mais de uma dúzia de carros empilhados lá.

 

 – São treze, querido. Contei enquanto éramos resgatados.

 

 Ao saber que iriam ao ar dali a uma hora, pediram ao vizinho ao lado, menos atingido pela enchente, permissão para ver as imagens. Sentiram-se realizados quando apareceram na tela.

 

 – Você ficou bem, querida. Parece atriz de cinema.

 

 – Você também, amor.

 

 – Será que estamos nas tevês do mundo inteiro?

 

 – Tomara. Vamos procurar?

 

 Esquecidos de que não se encontravam em casa, passaram a noite em busca de si mesmos numa centena de canais. Desculpe, cento e doze.

 

 

Luís Giffoni (nome completo: Luís Ângelo da Silva Giffoni), nasceu em Baependi, Minas Gerais, em 1949, onde cursou as quatro primeiras séries do ensino básico. Continuou sua formação em Belo Horizonte, para onde veio em 1960, até se graduar em 1972 em engenharia civil pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais. Também cursou astronomia na UFMG e literatura norte-americana no ICBEU-BH – Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos. Tem 21 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, ensaios e novelas juvenis. Essas obras receberam diversas premiações, além de estudos, traduções e adaptações no Brasil e no exterior. Sua peça In Memoriam foi encenada pelo Oficinão do Grupo Galpão, em 2004. É palestrante em todo o Brasil, bem como nos Estados Unidos e Europa. Mora em Belo Horizonte. Tem 3 filhos.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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Foto de capa:

YUE MINJUN, 'Hats series: Armed forces', 2005 || AI WEIWEI, 'White House - The Skateroom', s/d


Paginação:

Nuno Baptista


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