ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Flávio Sant’Anna Xavier


Estado de morte    

Não vivemos num Estado Democrático de Direito no Brasil, como estatui o art. 1º da Constituição Federal. O atual governo representa um Estado de Morte, que mira na eliminação dos mais fracos e desassistidos, propaga a mentira e desinformação como método de alienação e cultua a morte como o ápice da evolução humana. Suas mãos estão banhadas de sangue.

 

Nenhum dirigente contemporâneo se compara mais a Hitler que Bolsonaro. Até as origens de seu fracasso pessoal são semelhantes. Hitler tentou ser pintor em Viena, mas fracassou por falta de talento e culpou sua derrocada pelo fato que os “marchands” eram judeus. Bolsonaro teve uma carreira medíocre no Exército e usou sua ambição desmedida pelo enriquecimento pessoal como meio de insatisfação salarial, chegando a planejar colocar bombas para pressionar o comando do Exército. Foi punido com prisão de 15 dias, também com acusações anônimas de contrabando e outros ilícitos. A solução para não ser expulso foi a candidatura e posterior eleição como vereador no Rio de Janeiro.

 

Desde o início Hitler também praticou atos de violência. Em 1922 alugou um trem e levou oitocentos Sotrmtroopers (SA – milícia paramilitar) para Coburg, norte da Baviera, então área com forte presença da esquerda, para provocar confronto até se declararem vitoriosos. Precisamente ali foi desvendada a natureza agressiva do Partido Nazista. Bolsonaro e seus filhos são ligados às milícias no Rio de Janeiro, tropas paramilitares que a pretexto de combater o tráfico de droga erguem um estado paralelo e violento nas comunidades carentes. Há acusação que o Escritório do Crime (o topo da milícia) ordenou e executou o assassinato de Marielle Franco, sendo seus líderes ligados à família Bolsonaro, inclusive com várias homenagens parlamentares e mútua colaboração financeira e política.

 

Quando Hitler cumpriu pena na prisão de Landsberg, 50 km de Munique, concebeu o livro “Minha Luta” (“Mein Kampf”), em estilo tosco e hiperbólico, onde conjugava dois grandes inimigos: os judeus e os comunistas. Para ele Marx e sua teoria era a conjugação destes alvos, amalgamando-se  em um só inimigo: judeu (comunista). Bolsonaro ao fazer apologia à ditadura militar de 64 rende homenagens aos torturadores mais cruéis, como o militar Brilhante Ustra, e afirma que se assassinou poucos comunistas: o ideal eram milhares de vítimas. Toda a força ou vertente que se opõe às suas ideias e planos é taxada de comunista, sendo sua grande missão salvar o país de comunismo/marxismo, seja por qualquer meio, aí incluída a tortura, a morte e todo tipo de violência e intimidação física ou moral.

 

Em que pese Jesus ter sido judeu, Hitler encarnou o argumento de Houstoun Chamberlain de que talvez não o fosse, mas alguém de ascendência ariana. Na obra “O mito do século XX”, o teórico nazista Alfred Rosenberg desenvolveu a ideia de Chamberlain e propôs o “Cristianismo Positivo” – a fundação de uma igreja cristã livre da influência judaica, com Jesus descendendo de um ancestral nórdico. E como era difícil tipificar o que seria realmente a raça judaica (em contraposição à ariana) utilizou a questão religiosa como um dos elementos mais importantes para tal distinção. Bolsonaro coloca Deus acima de todos como uma adesão incondicional à fé cristã, notadamente os evangélicos, que angariam enorme influência nas camadas mais pobres da população e interpretam os evangelhos da forma mais estrita possível, enaltecendo a visão dogmática da Bíblia contra os homossexuais, as mulheres, os criminosos e as minorias em geral, dando lastro a uma visão conservadora e anti-humanista no seio social.

 

Apesar de Hitler ter obtido vitórias eleitorais, não por maioria (37% em 1932), tão logo ascendeu ao poder como Chanceler tratou de eliminar a democracia. Os SA gritavam: “a República é uma merda” enquanto todas as bases da República de Weimar eram gradualmente eliminadas e o poder concentrado em Hitler. Bolsonaro não aceita qualquer oposição e incita a população contra o parlamento e o judiciário, a pretexto que são óbices ao seu projeto de poder “libertador” e “revolucionário”. Mantém um gabinete de ódio, coordenado pelos seus filhos, onde organiza milícia digital com utilização de robôs e “fake-news”, sob a coordenação e apoio da ultradireita americana, que utilizou amplamente este artifício na eleição de Trump. Também se mostra comum a intimidação, ameaça de mortes e agressões físicas através de seus SA, tal como Hitler. Bolsonaro planeja um golpe de Estado, ceifando qualquer espaço democrático e de liberdade no país.

 

O instante em que o nazismo se transformou de movimento em partido ocorreu quando Hitler ascendeu como líder, o Füher. Elemento central do partido, com a ajuda de Goebbels, moldou a sua imagem como mito salvador, de algum modo predestinado a liderá-los e ponto central do partido. Ele e seu partido eram uma coisa só. Bolsonaro tece sua imagem como mito, líder predestinado a salvar o país da corrupção e suas mazelas, dependente de apoio popular para empreender seus planos salvadores, mesmo que sua família esteja amarrada até o último nó na corrupção que alega combater.

 

Segundo Aldous Huxley “o propagandista é um homem que canaliza uma corrente já existente. Numa terra onde não há água, ele cava em vão.” Hitler se embalou numa crise econômica preexistente, cerca de 6 milhões de desempregados em 1933. Bolsonaro se elegeu no ápice de uma crise econômica, atualmente com 14 milhões de desempregados e outro exército de subempregados. Sua política econômica não conseguiu alavancar a economia e o crescimento econômico é praticamente nulo, apesar da aprovação, no parlamento, do que chama reformas estruturais. Por isso seu desespero que a atual conjuntura econômica, já combalida, se agudize ainda mais com a pandemia do coronavírus e perca sua base social. Estimula a legião de desempregados a saírem de casa como contraponto ao necessário isolamento social. Com uma economia cambaleante e a política econômica protetora dos interesses mais poderosos e influentes, principalmente o mercado acionário e o sistema financeiro, não oferece qualquer ajuda ou emulação à atividade econômica, praticando o negacionismo de forma mais radical e despropositada num momento de comoção.

 

Hitler e Bolsonaro, antes de tudo, lideram massas voltadas para a morte e destruição. Sua ideologia é a supremacia de uma raça ou de uma parcela do povo, pouco importando que muitos sofrerão, inclusive com a própria vida. Ambos abraçaram a ideia de que são melhores que os outros. Não se apresentam como “normais”, disparam acusações falsas umas atrás das outras, pouco importando se os fatos estão corretos ou não. Para isso desdizem a ciência e a cultura porque seus objetivos são diferentes: a morte e o sofrimento. Perseguem os mais frágeis numa sociedade: os judeus, os comunistas, os homossexuais, os ciganos e outras minorias na Alemanha. Os homossexuais, os nordestinos, os velhos, os pobres, os negros, as mulheres e outras minorias no Brasil. E agora os doentes indefesos.

 

Muitos acharam que seria fácil domar Hitler, que ele um dia pararia. O que se viu foi seu avanço, alavancado por manadas de sonâmbulos e vocacionados na vertente da maldade, que existe em cada humano. Bolsonaro sempre teve sua cabeça protegida com as mãos carinhosas da democracia. A cada ofensa ele crescia, quando o correto sempre foi sua expulsão do parlamento e da vida política na democracia. Criou-se um corvo que devorará os olhos da democracia que sempre foi fraca e vacilante. Titubeia-se todo o dia diante do seu “impeachment”. Covardes e cúmplices, também com as mãos sujas de sangue.

 

Não se produz um país como o Brasil da noite para o dia. Imenso continente, com grande riqueza natural, a pretexto se ser um país do futuro sempre foi o dos contrastes. Uma minoria multimilionária ergueu um paraíso a partir da escravatura, sendo o último do mundo a aboli-la, ainda assim formalmente. São essas forças irmanadas no egoísmo e no culto à morte e ao sofrimento que sustentam Bolsonaro, nosso Hitler mundial. Mas a realidade - essa senhora poderosa - um dia triunfará, as pulsões do bem-estar e da solidariedade eliminarão da face da terra brasilis o vírus da morte e do mal; não totalmente, mas adormecendo, envergonhando, tensionando, vencendo com o ferro e a flor.

 

Flávio Sant’Anna Xavier é procurador federal e escritor

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2020


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