ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Paulo Martins


A estética do mal    

I

 

Foi em Walter Benjamin que encontrei o desenvolvimento da tese de que o fascismo é um fenômeno de caráter estético. Ele constatou isso ao estudar a ascensão nazista, na qual a arte de um modo geral ─ particularmente o cinema e a arquitetura ─ foi transformada em mera propaganda. O fenômeno se espalhou pelo mundo e todas as vezes em que as condições econômicas e políticas são favoráveis em um ou mais países, tenta-se ressuscitá-lo. O Brasil é um exemplo vivo. Se estudarmos o que aqui se passa no atual momento vamos constatar uma nítida transposição das experiências daquele período histórico, particularmente no que tange à aplicação de um modelo semiótico especial: as armas como um fenômeno estético por natureza.

 

Quem não se lembra das imagens de centenas, milhares de pessoas posicionando as mãos como se portassem uma arma apontada para um inimigo imaginário durante a campanha eleitoral de Bolsonaro e atos de apoio subsequentes? Eram imagens dignas da Alemanha hitlerista. E isso só foi possível numa situação de crise política, econômica e social aguda, aliada a uma decepção profunda com a corrupção generalizada. É muito fácil, em tais circunstâncias, o envolvimento emocional através do apelo das armas. E milhares de pessoas, nas redes sociais, iriam expressar seu êxtase contagiante diante dos quadros das manifestações: “Que coisa mais linda neste mundo!”

 

Mas o presidente Jair Bolsonaro é um fascista sui-generis. Desenvolveu um modelo próprio de comportamento público no qual a estética do fascismo ─ que orienta o comportamento de seus seguidores ─ desponta com cores novas e bem adaptadas às nossas condições concretas. Sem a aplicação sistemática dessa estética ele não teria tido condições de ganhar as eleições e de manter sua liderança. Por isso é que o tema da estética fascista precisa ser estudado com mais profundidade, já que em muitos aspectos ele é fundamental na obtenção dos objetivos do poder. O maior exemplo disso é o comportamento do Presidente na atual crise de pandemia do coronavírus. Sua postura criminosa e aparentemente louca, confrontando recomendações da OMS e de cientistas do mundo inteiro, ao invés de afastar apoiadores, tem, ao contrário, provocado até certa euforia dentro de seu curral, pela coerência de sua fala com uma linha da qual ele jamais se afasta.

 

Para se conhecer melhor as particularidades desse fascismo tupiniquim, é preciso fazer um resumo do processo de ascensão de Bolsonaro como líder político nacional, analisando os instrumentos e a linguagem de que se utilizou para chegar até aqui. E isto não é coisa fácil. As ferramentas normalmente utilizadas pelos cientistas políticos no exame de fenômenos como os que estão ocorrendo parecem não serem suficientes para explicá-los. Fatos incomuns extrapolam a esfera política e pedem auxílio à psicanálise, à sociologia, à antropologia, à ciência jurídica, à história e, particularmente, à estética.

 

O que mais impressiona no estudo do fenômeno Bolsonaro é que, mesmo demonstrando a cada dia a sua incapacidade de governar, a sua insanidade e o seu aspecto asqueroso ─ à imagem do então candidato ─ ele continua a exercer um fascínio imbatível junto a seus seguidores. E é exatamente esse fascínio, com toda a sua carga de contradição, que demonstra a supremacia da estética fascista frente a qualquer outro tipo de influência de massa, sobretudo as que se apoiam em qualquer plano de racionalidade.

 

Um aspecto inusitado do modelo de Bolsonaro é o desprezo que dedica à imprensa, numa cópia fiel dos atos de Donald Trump. É claro que, se por um lado ele ganha apoio aqui e ali entre seus apoiadores, com suas críticas contumazes e desonestas à mídia escrita e falada, por outro, perde paulatinamente o apoio delas. Mas, nesse caso, o insólito é que ele quer que isso aconteça, isto é, que a imprensa o critique de volta, para colher elementos capazes de jogar o povo contra ela. O mesmo raciocínio pode ser feito em relação ao Congresso Nacional e ao STF, órgãos aos quais já ameaçou diversas vezes, chegando a convocar o povo para pressionar ou calar de uma vez. Com isso, visa a fortalecer sua soberania pessoal, em detrimento desses órgãos, que representam fatias de poder que não lhe interessam.

 

Pouco a pouco, vai conseguindo seu objetivo. A oposição que lhe faz hoje a imprensa nacional é quase unânime, mas para ele pouco importa. Quanto à estrangeira, mostrou-se incrédula desde o início de sua ascensão. Não à toa, os atos do governo conduzem à sua crescente desmoralização lá fora. As nações democráticas ─ à exceção dos Estados Unidos ─ adotam posição reticente e reservada com relação aos rumos do país e se não a expõem claramente é para não prejudicar os laços diplomáticos. A postura do prefeito de Nova York, declarando há pouco tempo atrás ser indesejável a visita de Bolsonaro à cidade, dá bem uma ideia da predisposição do mundo democrático em relação ao fascismo no Brasil. Mas, por incrível que pareça, é exatamente isto o que Bolsonaro quer: seu pseudopatriotismo precisa ser alimentado com palavras raivosas contra países estrangeiros que só fariam cobiçar nossas riquezas e interesses, daí os motivos de suas críticas. E seus seguidores acreditam e aplaudem.

 

O que assusta nesse quadro é que, apesar de todos os exemplos negativos que Bolsonaro tem dado, sua base de sustentação popular continua forte. É bem verdade que muitos dos seus apoiadores já o abandonaram, com medo do naufrágio. A maioria, no entanto, continua fascinada, defendendo-o como loucos. Tais apoiadores são orientados a combinarem a defesa das medidas do governo com um ataque acirrado aos partidos de esquerda, em particular ao PT, a alguns partidos de centro e à parte mais expressiva da intelectualidade nacional, que nada tem a ver com estas organizações. São induzidos a creditarem que existe uma conspiração para desmoralizar o presidente e que por isso é preciso destruir politicamente todos os oposicionistas e a mídia “traidora”, parte dela de mãos dadas a um suposto “comunismo” que ninguém sabe de onde veio. Boa parcela dessa tropa de apoio fanática e irredutível prefere abertamente a ditadura. E na impossibilidade dessa alternativa sinistra, continuam de lança em punho.

 

 

 

 

 

 

II

 

Lembremos de como tudo isso começou. Havia um deputado federal chamado Jair Bolsonaro, um dos mais obscuros, inúteis e retrógrados da Câmara, cujo único papel na casa era perturbar os eventos “de esquerda”, interromper discursos de adversários, conturbar a ordem dos trabalhos, aparecer agressivamente em reuniões para as quais não tinha sido convidado, tentar implantar o caos aqui e ali e praticar outros atos típicos de sua personalidade neurótica. Ninguém lhe dava muita importância. Seu mandato tinha a marca da grosseria, falta de ética, destempero e despreparo político e intelectual. Esperava-se que ele permanecesse parado na sua pequenez, como sempre tinha sido nos quase trinta anos em que ali esteve como político profissional, aproveitando-se de sua ligação com o Exército ─ onde galgara  o posto de capitão e fora expulso por insubordinação ─ para se proteger de seus oponentes, alimentando o desejo de alcançar o estofo de representante das Forças Armadas no Poder Legislativo. Sua pequenez como homem, cidadão, militar e político era tal que ninguém imaginava ─ nem mesmo o mais empedernido direitista ─ que ele pudesse chegar aonde chegou.

 

Enfim, ninguém lhe dava importância, pois não passava de um deputado medíocre, entre dezenas. Até que chegou um dia em que este homem sobrepujou a si mesmo e passou a defender de forma agressiva e extravagante a desacreditada ditadura militar, a querê-la de volta com um saudosismo de enrubescer os mais desinformados. Dentre seus símbolos indeléveis, levantou a bandeira da tortura, tornando-se seu grande apóstolo. Para demonstrar seu apego profundo ao período mais triste da história do Brasil, tomou como líder e paradigma o torturador-mor da ditadura, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um criminoso digno dos oficiais da SS de Hitler, e não perdia a oportunidade de bajulá-lo publicamente. A partir daí o veneno dessa víbora começou a preocupar.

 

Nesse ínterim, deu-se o episódio paradigmático que começou a mudar a história. A Câmara Federal tinha aprovado uma homenagem ao ex-deputado Rubem Paiva, do velho PTB, sequestrado, morto e desaparecido pela ditadura militar, mandando erguer em uma de suas dependências um busto do antigo e ilustre membro da casa. Na solenidade de inauguração de sua efígie lá estava toda a sua família: esposa, filhos, netos e outros parentes, além de numerosos amigos, mulheres, crianças, idosos, correligionários e a imprensa. No calor de discursos emocionados, na paz daquela homenagem singela e altamente significativa para a história do país, aparece de repente o senhor Jair Bolsonaro e, intrometendo-se entre os convivas, dá uma cusparada no busto do homenageado. Então a família, reconfortada por aquela exaltação da memória, do reconhecimento, do amor e da compaixão pelo martírio do ente querido, de repente entra em curto-circuito e mergulha nas sombras de um passado atroz. O energúmeno cometia um ato bárbaro e medieval, inaceitável sob todos os aspectos. Ressuscitava explicitamente a ideia da tortura, condenada sobejamente pela história, e tentava demonstrar que tudo quanto pregava era para valer, sem nenhum respeito pelo sentimento e a dor daquela família enlutada.

 

O episódio constrangeu profundamente o mundo civilizado. E foi potencializado pela omissão da Câmara dos Deputados que nada fez para sanar o mal, pois, além da família do homenageado, a própria instituição havia sido desrespeitada. Em qualquer país civilizado do mundo este celerado teria o mandato cassado, por falta de decoro parlamentar. Mas não lhe aconteceu nada, como também não lhe aconteceria em outros eventos similares de que foi o autor.

 

Pelas leis brasileiras, fazer apologia de fato criminoso ou de autor de crime é também um crime, passível de prisão. E alegar-se a condição burocrática do exercício da função parlamentar para se safar é simplesmente asqueroso. A tortura é crime hediondo, reconhecido pela ONU como inafiançável e não sujeito a perdão ou anistia.

 

Tempos depois, por ocasião da votação do impeachment de Dilma Rousseff, coroando numerosos discursos de apologia a seu ídolo, Bolsonaro dedicou seu voto a Brilhante Ustra, a quem chamou, então, de “terror de Dilma Rousseff” dado que ela teria sido torturada por suas próprias mãos. Seu ídolo é um condenado pela justiça, um criminoso bárbaro, e elogiá-lo publicamente é crime, como já dissemos. A OAB assim entendeu e entrou com um processo junto à Comissão de Ética da Câmara pedindo sua cassação por falta de decoro parlamentar. O processo não teve andamento. A essa altura a sinistra figura já tinha obtido proteção de seus sustentadores, em particular da área militar. Mesmo assim, ainda havia certa crença de que um político com tal perfil jamais teria chance de ser alçado ao mais alto cargo da administração da nação.

 

Veio a campanha eleitoral. O energúmeno tornou-se candidato e rapidamente entrou em ascensão nas pesquisas.  Custou muito acreditar no seu crescimento vertiginoso. Todos se perguntavam o que estava acontecendo.

 

Doravante, para que ele tivesse alguma chance era preciso impedir a participação de Lula na disputa eleitoral. Não se discute aqui os processos que Lula vinha respondendo, se tinha ou não culpa do que era acusado. O que se questiona é ele ter sido transformado em inimigo público do país com fins eleitoreiros e não de justiça. Era imprescindível impedi-lo de participar das eleições porque provavelmente ganharia. Aí deu-se o complô que todos conhecem: os processos foram acelerados, Lula foi condenado, preso e condenado novamente em segunda instância numa rapidez inédita, dentro de um esquema muito bem montado para impedi-lo de concorrer. Não adiantou sequer a intervenção da ONU. O sistema judiciário vinculado ao caso estava corrompido. Desnorteado, o PT cometeu erro em cima de erro, não apoiou um candidato alternativo e só lançou Fernando Haddad na última hora, quando não havia mais tempo para uma reversão do quadro eleitoral. Além do mais, ninguém tinha percebido que a campanha havia mudado radicalmente de perfil. Apareceram instrumentos novos que modificaram completamente o curso das adesões, com processos de manipulação de mentes, plantação de ilusões e uso sistemático da mentira, tudo em nome de uma suposta “salvação da pátria”.

 

Além disso, havia o problema da corrupção, que revoltava a população. Nada melhor do que criar a imagem, minuciosamente construída, de que a corrupção era obra comandada pelo PT, o partido destituído do poder, e, mais particularmente, por Lula. Essa imagem foi explorada até o limite de suas possibilidades. Foi criado, então, o slogan maldito: “Tudo, menos o PT”. E derivações rasteiras, nas conhecidas fake news do “kit gay”, da “mamadeira de piroca”, da “ideologia de gênero” etc., combinadas com propostas enganosas como uma tal de “escola sem partido”, cujo objetivo era substituir a orientação ideológica independente do ensino público por uma orientação de direita. Em tais circunstâncias, não era fácil competir, principalmente quando o quadro eleitoral caminhou para uma disputa entre o PT ─ alçado à condição de malfeitor ─ e Bolsonaro, o grande outsider ─ alçado à condição de esperança.

 

Essa engenhosa manipulação da direita e a incapacidade das esquerdas de evitar um desfecho negativo, deixou a maior parte do país num clima de perplexidade. Naquele momento acontecia um fenômeno nunca visto desde os tempos de Fernando Collor de Melo: uma avalanche de massa impossível de conter.

 

Como se desenvolveu esse campo de apoio à extrema direita é uma coisa que ainda demanda minucioso estudo. A verdade é que em todas as famílias do país surgiram, de repente, ninhos de bolsonaristas. Tudo se passou numa rapidez que só a velocidade dos atuais meios de comunicação, alinhadas a uma estratégia de mentiras e de engodo poderia possibilitar. E o fato é que esses “convertidos” cresceram e infectaram novas pessoas, como numa epidemia. Despontaram por toda parte e hoje podem ser divididos em cinco categorias distintas: os convenientes, os ignorantes, os auto-encontrados, os ressentidos e os esclarecidos.

 

Os convenientes eram os partidários do neoliberalismo, que viram na indicação do economista Paulo Guedes (conhecido como Chicago’s boy e Posto Ipiranga) para o Ministério da Fazenda, uma garantia da manutenção do regime de privilégios em que vivem os detentores do poder econômico. Não tinham outra opção a não ser apostarem em Bolsonaro: banqueiros, rentistas, grandes empresários e grandes proprietários agrícolas. Enfim, os donos do capital, aderentes por mera conveniência econômica.

 

Os ignorantes eram os convertidos por absoluta falta de formação política e cultural; e são até passíveis de compreensão, pois é fato que lhes faltavam elementos de análise para assumirem uma posição consciente. Deixaram-se seduzir facilmente pela onipotência do método: a mentira e a ilusão de que tudo iria melhorar.

 

 A terceira categoria era formada por daqueles que se encontraram consigo mesmos pelo caminho, pois já eram bolsonaristas antes de Bolsonaro se projetar, só que não sabiam disso. Foi como se entrassem na vida de um sonho. Ouviram um discurso de ódio e pensaram: ah, eu também penso assim. Lembro da afirmação peremptória de um membro dessa categoria que conheci pessoalmente: “Se Bolsonaro é fascista eu sou muito mais fascista do que ele”.

 

A quarta categoria era a dos ressentidos. Como se sabe, houve um despontar de ressentidos por todo o país. Eram, em sua maioria, os que fracassaram na vida ou que não tiveram muito sucesso e acharam para a sua história pessoal alguns culpados contra os quais precisavam se vingar. A proposta de “matar bandidos” embutida na campanha bolsonarista era um prato cheio para eles: havia chegado um Rambo nacional para liquidar com os bandidos de todos os tipos: traficantes, corruptos, ladrões, comunistas e, com certa variação, gays, judeus, emigrantes, negros e membros de minorias raciais e religiosas. Fácil assim.  O voto do ressentido era sobretudo um voto de vingança.

 

A última categoria era a dos esclarecidos. Não sendo numerosa, era, porém, muito expressiva ─ por fazer parte da rede de formadores de opinião ─ e teve papel importante na disputa eleitoral. Refiro-me a certos renegados da velha esquerda, a alguns profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas e até músicos que aderiram à campanha de Bolsonaro e depois o continuaram sustentando, pelo menos em parte, ressalvados os que se desiludiram pelo caminho. Essa gente tinha consciência, sim, desenvolvia argumentos astuciosos a favor de Bolsonaro e chegou a desenvolver uma literatura de apoio devidamente abalizada.

 

A maior parte da votação de Bolsonaro, entre todas essas categorias, veio provavelmente dos ressentidos, predominantemente de classe média baixa, que se moveram pela esperança de mudanças econômicas capazes de livrá-los de suas dificuldades, problemas financeiros, sociais, conjugais etc. Com Bolsonaro, sentiram-se ao mesmo tempo vingados das quadrilhas organizadas, dos assaltos cotidianos e assassinatos impunes, da insegurança generalizada que, em algum momento, vitimou um membro de sua família, um amigo, um vizinho, uma pessoa ilustre ou admirada. Afinal, o que prometia o candidato? Bala, bala e bala para limpar o país! Não sabiam esses ressentidos da estreita ligação da família Bolsonaro com as milícias criminosas mais perigosas e bem organizadas do país.

 

É preciso lembrar que o próprio Bolsonaro era o maior dos ressentidos e que foi ele que passou esse sentimento a uma parcela considerável do povo. Nesse aspecto, é uma cópia fiel de Hitler, um ressentido feroz desde os tempos em que fracassou como artista plástico. Não foi fácil para o defensor-mor da tortura ─ o único dessa raça infeliz que fazia isso de peito aberto, pois a maioria preferia negá-la ─ assistir durante anos o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, desencavando um a um os milhares de crimes praticados pela repressão durante a ditadura militar. Foi muito difícil para ele suportar essa “humilhação”, muitas vezes botando espuma pelas ventas. Nada melhor agora do que poder se vingar desses anos, revertendo todo o trabalho da Comissão: os crimes a serem apurados passariam a ter o escopo de fazer justiça “aos homens de bem” que se lançaram contra terroristas e antipatriotas. Que alento para os ressentidos de baixo, agora esclarecidos sobre uma “verdade histórica” que estava sendo manipulada pelos comunistas!

 

Quanto aos apoiadores ditos “esclarecidos”, há que se tecer algumas considerações. Basicamente, eles tentaram justificar suas posições pela decepção com a corrupção no país, que teria no PT o seu principal responsável. É verdade que a corrupção, em todos os seus aspectos, tinha que ser condenada, e o PT teve, sim, responsabilidade nisso. Mas é preciso que se parta de duas premissas: primeiro, que a corrupção tem origem no próprio ventre do sistema capitalista; segundo, que não se justifica, em nenhuma hipótese, combater a corrupção com um mal maior, que é o fascismo. Bolsonaro nunca representou o combate honesto e imparcial a esse crime que mina a economia do país até hoje e afeta as condições de vida do povo. Ele apenas se aproveitou da indignação popular. O que sempre representou foi a barbárie. Por isso é que tais acólitos deixaram um rastro de indignação. Como pode um professor, um escritor, um ficcionista, um profissional que, por princípio, deve defender a liberdade e a livre expressão de pensamento como um crítico do poder, aderir de forma tão banal e convicta a uma aberração como Bolsonaro? Existia algum motivo especial difícil de entender e muito menos de aceitar.

 

Dias antes das eleições li o depoimento de um ex-preso político declarando seu voto a Bolsonaro. Dizia ele: “Vi recentemente uma fala de Haddad manifestando perplexidade porque alguns que combateram a ditadura estão contra a sua candidatura. Mas como não estar se o PT desmoralizou no Brasil o conceito de esquerda??!! No meu caso, que fui perseguido, seis vezes preso e duas torturado, tenho toda isenção possível para apoiar a candidatura de Bolsonaro, não tanto pelas qualidades do candidato, mas sim pelas possibilidades de ser uma virada de página em anos de populismo irresponsável e de criminalidade política.”

 

Era estarrecedor! Como o PT desmoralizou o “conceito” de esquerda, em vez de buscar novos caminhos para ela, ele aderia à direita. Decidia votar no apologista de seus torturadores, dos que lhe massacraram e, felizmente, não lhe tiraram a vida, para que esta história pudesse ser contada. Votou num homem que já demonstrou ser capaz de arrancar a faixa presidencial e manipular uma “cadeira do dragão” para arrancar confissões de seus adversários; ou, pelo menos, ordenar que alguém o faça. Aqui há uma mistura de síndrome de Estocolmo e de renegação total de princípios.

 

Esse velho militante via em Bolsonaro o fim de um “populismo irresponsável”, sem perceber que ele, na verdade, representava a própria essência do populismo, só que do populismo de direita, que é muito pior, por se basear na ideia da violência. Não é à toa que a cultura do ódio se espalhou pelo país afora. O homem virou um semideus, hoje chamado de “mito”. Já dizia Vargas Llosa em A Festa do Bode, referindo-se a Trujillo, que o maior desejo dos ditadores é ser amado pelo povo. É o que este presidente faz: tenta seduzir o povo pela ideia da violência.

 

Além do mais, esse velho militante da esquerda condenava a “criminalidade política” do PT sem levar em conta um único elo da inclinação criminosa de Bolsonaro, que agora vem à tona através da imprensa com toda a sua amplitude: os relatos sobre seus filhos não deixam margem à dúvida. Ao lado disso, também desprezava o fato de que a tortura é o ato mais abominável que a humanidade conhece. Sartre dizia que o torturador é antes de tudo um “ser ignóbil”. Nenhum adepto da tortura merece voto de uma pessoa sã e consciente, muito menos de um torturado. Só quem não tem princípio pode aceitá-la. Mesmo que tudo o que se diga sobre o PT e sobre Lula fosse verdade, não é possível encontrar justificativa para se votar numa figura abominável sob todos os aspectos. Como explicar racionalmente a adesão desses pseudos “conscientes”?

 

Depoimentos semelhantes se espalharam pelas redes sociais, inclusive o de certo escritor baiano que proclamava piamente ser Bolsonaro uma promessa de redenção para a educação no país. Não bastou que, com obstinada dedicação, o candidato a ditador começasse logo um desmonte generalizado de todo o nosso sistema educacional, negando tudo o que é universalmente consagrado: mesmo assim, o escritor continuou a defendê-lo.  Inacreditável!

 

Em resumo: no conjunto dos votos a Bolsonaro houve uma mistura de ignorância, ressentimento, ódio, vingança e, também, como se viu, de fascínio.

 

Tudo isso só foi possível porque foi implantado com expressivo êxito um novo “movimento estético” no país ─ vamos considerar assim para que possamos entender o fenômeno.  A este movimento, deu-se o nome de “bolsonarismo”. E como todo movimento estético que se preze, ele tem um lema, cunhado pelo seu idealizador. Pode-se dizer que a “antropofagia” esteve para a arte moderna como o “fundamentalismo religioso” está para o novo movimento. Seu lema propriamente dito vem resumido numa frase que é o guia ideológico do novo governo: “Deus acima de tudo; o Brasil acima de todos”.

 

A repercussão desse projeto alcança todas as áreas. Na educação pública é sobejamente conhecido o que querem os seguidores do novo movimento: retorno a princípios medievais e desmontagem das práticas pedagógicas modernas, com destaque para o abandono das ciências humanas, “por não darem retorno financeiro imediato”. Na verdade, a preocupação é outra, pois é através dessa área que se constrói a verdadeira cidadania, o que não interessa ao fascismo.

 

Ao lado da educação, a cultura precisa ser redefinida: os artistas plásticos têm que saber o que devem criar; os músicos o que devem compor; os escritores o que devem escrever; e assim por diante. Ainda não temos modelos precisos, uma vez que o “movimento” está no começo de sua história. Mas não há dúvida de que a inspiração maior de seus seguidores será a exploração de tudo o que é repulsivo ao bom senso. Até a concepção de beleza será invertida: que se idolatre a feiura como forma perfeita e desejável. Pode-se até imaginar um termo guia para o novo movimento estético: “incriação”. Ou seja, tudo o que é esteticamente criativo será combatido. A criatividade dará lugar a um formalismo banal, a um processo de reprodução em série, tipo propaganda, que retrate com perfeição a ideologia do novo governo, como ingênuas passagens bíblicas devidamente adaptadas. Os artistas plásticos pintarão heróis justiceiros, crianças com as mãos em arminha ou batendo continência; milicianos trucidando gays e indígenas; e um povo automatizado assistindo a tudo com um sorriso de admiração nos lábios. A arte abstrata será eliminada do cenário nacional.

 

A música prescindirá da riqueza harmônica e usará sons instrumentais combinados com gritos, explosões e tiros de armas de fogo. As marchas militares serão a música símbolo do futuro, com sua padronização sinfônica exageradamente eloquente, expressa no predomínio das trompas e das cornetas com seus sons metálicos estridentes, cheios de turbilhões evocativos, capazes de tocarem os corações como martelos pontiagudos numa carne sensível. Mas o verdadeiro triunfo musical será a música gospel, que inebriará as mentes e se imporá diante de todos os demais gêneros.

 

Os escritores passarão a escrever tragédias apocalípticas, em que as armas falarão mais alto do que os homens e definirão todos os destinos. Contarão histórias de novos heróis, empenhados na guerra santa contra os inimigos do povo liderados pelo comunismo. O romance anticomunista será o novo estereótipo da ficção. A vida será retratada como uma permanente e gloriosa guerra contra o socialismo, as esquerdas e os regimes de bem-estar social.

 

Nada disso é mera especulação. Não podemos esquecer do recente discurso do ex-Secretário de Cultura do governo, Roberto Alvim, apresentando o programa de sua gestão e os projetos culturais do governo:
 “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo ─ ou então não será nada.”

 


Este discurso de Roberto Alvim foi talvez o mais brilhante e fidedigno de toda a equipe de Bolsonaro e receberia as bênçãos de seu patrocinador não fosse pelo azar de ter sido identificado de cara como cópia fiel de outro discurso, feito pelo irmão ideológico de Alvim há mais de 80 anos atrás: Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda do governo nazista. Até a música de fundo ─ extraída da ópera Lohengrin de Wagner ─ era a mesma. Mas que poderia dizer o então Secretário de Cultura? A arte bolsonarista tem realmente que ser “heroica”, “nacionalista” e ter como escopo o “envolvimento emocional” das massas. Mas a grita no mundo inteiro foi tal que Bolsonaro viu-se obrigado a demiti-lo. Aquele seria o mais promissor adepto de sua pregação, o que melhor poderia entendê-la, divulgá-la e sistematizá-la. Foi uma tragédia moral para ele.

 

 

 

 

 

 

III

 

E assim Bolsonaro ganhou as eleições: fazendo apologia das armas e lamentando não terem sido assassinadas umas 30 mil pessoas durante a ditadura, em vez de serem apenas torturadas. Esse era o lado mais torpe de sua aberração: induzir homens e mulheres, jovens e velhos, adolescentes e até crianças, aos milhares, a apontarem uma arma prenunciando a vitória da abominação, do militarismo assassino, da mentira e da intriga levianamente construídas. Este homem de formação militarista extremada era o inverso dos verdadeiros heróis do nosso tempo: de Jean Jaurès, Gandhi, Nelson Mandela e outros, ao tempo em que se sombreava em Hitler, Mussolini, Pinochet e Strossner, seus ídolos explícitos. Era “o horror, o horror!”, como diria Conrad.

 

Seria fácil enumerar declarações dessa besta humana, que ilustrariam ainda mais fielmente sua ideologia neofascista. Mas suas posturas abomináveis não causam mais espanto, tornaram-se uma rotina constrangedora e risível. O que ainda nos deixa chocados é a posição de seus fanáticos seguidores. E só pode haver uma explicação para isso: eles foram como que hipnotizados, ou melhor, encantados por uma estética do mal que, no mínimo, lhes foi inoculada para concordarem com um “mal necessário”. Já não importa a ilusão de lutarem em prol de um “projeto de salvação do país”, pois isso está sendo mais e mais desmascarado; o que importa é o odor repugnante de uma estética estribada no medo e na barbárie. Trata-se de uma miniatura contemporânea do que aconteceu na Alemanha, na Itália e na Espanha.

 

Mas em nenhum desses países o fascismo foi implantado em curto prazo. Ele foi semeado e regado diuturnamente, num processo vagaroso e contínuo. Se alguém pensa que as promessas de Bolsonaro visaram apenas a vitória nas eleições e a aplicação de um choque de capitalismo no país está redondamente enganado. Ele pode ser ignorante e incapaz, e não ter um projeto global de governo. Pode ser um mero voluntarista. Mas fica implícito, pelo que diz e age, que o seu desejo é ver o país mergulhado num regime fascista de cima a baixo. Este é o seu sonho principal, os projetos podem vir depois. A imputação de que o nazismo foi um “fenômeno de esquerda” é um dos malabarismos que usa para abrir caminho à implantação dessa ideia. Conquistou o governo e pretende consolidá-lo, por vias democráticas ou não, a depender das circunstâncias e dos apoios. Tentará todos os meios para isso. Seus discursos, ameaças, agouros e promessas o comprovam. Daqui para frente só se pode esperar coisa pior.

 

Essa ressureição dos antigos valores nazistas se dá com meticulosa organização. As explosões de vulgaridade a que já me referi, típicas da ideologia fascista, são o pavio para o surgimento do fenômeno a que Hannah Arendt classificou como “banalidade do mal”; mas para chegar-se a esse ponto é preciso primeiro atravessar o campo em que o homem é preliminarmente cultivado com um sentimento de profundo orgulho de sua vulgaridade, assim como de sua burrice e de sua ignorância. É um prelúdio que dançamos sem prazer, e em cuja parte final só se pode vislumbrar movimentos dramáticos e sangrentos, que engendrarão tempos sombrios e dolorosos para todos.

 

Aparentemente, os apoiadores mais esclarecidos de Bolsonaro não tinham enxergado tal possibilidade. Porém, não foi isso o que aconteceu. O Brasil já possuía a semente do fascismo; já era machista, homofóbico, segregacionista e elitista.  O que Bolsonaro fez foi acordar as mentes para esta realidade. Ele apenas “descortinou o Brasil”, como diria o Procurador Federal Eduardo Varandas Araruna. Então se compreende. Os “seguidores esclarecidos” sabiam de tudo e agiram de forma consciente: estavam também dominados pelo fascínio de sua “nova estética”.

 

 

 

 

 

 

IV

 

A implantação dessa “nova estética” obedece a padrões construídos meticulosamente com a ajuda de profissionais de diversas áreas e categorias. A lei geral é a mesma estabelecida por Goebbels há mais de 80 anos: repetir a mentira ininterruptamente até se tornar verdade. Mas os padrões são sutis, às vezes subliminares. Em muitas ocasiões, diante de um pronunciamento obtuso do Presidente, pensamos conosco: este homem só pode ser extremamente burro! Mas logo vemos que não se trata disso. Ele sabe o que faz. Quando diz uma asneira é para que chegue aos ouvidos de seus adoradores como uma graça. E funciona. Agora mesmo, na crise da pandemia, estabeleceu uma estratégia sofisticada. Por um lado, coloca-se contra o isolamento horizontal e se indispõe com o Ministro da Saúde e toda a área médica e científica. Por outro, defende o funcionamento da economia. Se esta afundar de forma perigosa e provocar uma convulsão social, dirá que avisou, que isto aconteceu porque ele não foi ouvido. Se o número de mortos for pequeno, sua tese de que tudo não passou de uma “gripezinha” terá sido verdadeira e ganhará novos aplausos. Se for muito grande e desastrosa dirá que, se era para ser assim, que fosse com a economia sustentada e não com a falência de empresas e de milhares de pessoas. Morte por morte, é sempre melhor salvar a economia. De qualquer forma ele é o único certo, seja qual for o resultado.

 

Mas vejamos alguns padrões simbólicos que têm sido aplicados nas mais diversas circunstâncias e momentos de sua campanha e de sua gestão:
As cores - As cores do movimento são o verde e o amarelo. Não surpreende que, desde o início de tudo tenta-se “monopolizar” essas duas cores ─ as cores básicas da bandeira nacional e, portanto, símbolos de patriotismo. Não é à-toa que todas as manifestações pró Bolsonaro são carregadas de verde e amarelo, como se tais cores pertencessem ao movimento bolsonarista. Tal apropriação se dá através do uso sistemático de bandeiras, bandeirolas, camisetas, vestidos, fitas, sapatos, camisas da CBF, bonés, chapéus e faixas. Incita-se o amor ao verde-e-amarelo como se isso bastasse para fazer um patriota. Por outro lado, para que essa imagem colorida ganhe as mentes é preciso exorcizar outras cores. Assim, ao tempo em que se exalta o verde e o amarelo, se execra o vermelho através de uma sentença subliminar: “Nossa bandeira jamais será vermelha”.

 

A música - A música básica é o Hino Nacional, banalizado até a última esfera e seguido por outros hinos pátrios. Deve ser cantado à exaustão, em todas as circunstâncias, até que transformado em instrumento de combate. É uma apologia do fervor cívico. Mas se cantá-lo é dever patriótico, o objetivo principal é cantá-lo como gesto de apoio. Ninguém pode ser contra o hino nacional. Se você defende um ponto de vista ou um projeto cantando-o, você está sempre certo. Por outro lado, para que cumpra o seu papel, é preciso também que se exorcize outras músicas, tornadas inimigas. Chico Buarque e Geraldo Vandré, por exemplo, têm que ser execrados. Se alguém cantar Apesar de você ou Para não dizer que não falei das flores numa manifestação bolsonarista, pode até ser linchado. Mas Roberto Carlos é permitido.

 

A religião - O catolicismo é suportado, pois tem muitos adeptos nas classes mais abastadas: contanto que o Papa Francisco, que é “comunista” seja denunciado. A religião preferida é o protestantismo, com todos as suas variantes. As igrejas evangélicas neopentecostais são as escolhidas para conduzirem o novo movimento na esfera social e humana. A Ministra Damares ─ a que viu “Jesus num galho de goiabeira” ─ é a grande defensora dos direitos humanos, que são apenas os direitos dos evangélicos. Sua primeira função é espantar o demônio dos lares brasileiros. O bispo Edir Macedo, da IURD, é um grande protetor do povo, ao lado dos bispos de outras igrejas poderosas. A bíblia é o livro de salvação da humanidade. Citá-la exaustivamente faz parte de uma técnica incontestável de propaganda. O preceito-guia do povo está em João 8,32: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Ele foi a tônica do discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU. O segundo preceito é: “A vida humana não importa: o apreço pela vida é uma asneira; o que importa é o dinheiro”.

 

A liderança - O líder não pode ser colocado em dúvida. Tudo o que disserem contra ele tem que ser rechaçado. Ele é a verdade e a luz. Um semideus. Ou um mito, como já se tornou comum chamar. É por isso que as posições assumidas por Bolsonaro não são discutidas pelos seus seguidores. São simplesmente acatadas. Porque são “verdadeiras”.

 

O militante - O verdadeiro seguidor de Bolsonaro tem que mirar seu líder como um salvador; segui-lo como se fosse infalível; aplaudi-lo, proclamá-lo, defendê-lo e acreditar nele tanto nas verdades que diz como nas mais torpes mentiras. Precisa estar disposto a ir para as ruas apoiá-lo em quaisquer circunstâncias, quando convocado ou não, e com ou sem pandemia de coronavírus.

 

Os jargões - Não se pode dar sossego aos slogans que patrocinaram a causa fascista. Os principais são: “Lula é ladrão”: “PT nunca mais”: “É melhor bandido morto que bandido preso”: a esquerda está “sempre errada”; uma pessoa de esquerda deve ser chamada de “esquerdopata”; o nome de Lula é “Luladrão”; o gay é um doente e precisa ser “tratado” para ser “curado”; o índio é um “preguiçoso”; os Estados Unidos é um exemplo a seguir; Trump é o melhor amigo do Brasil. E outros tantos…

 

Estes símbolos são instrumentos rotineiros de trabalho, muito fáceis de serem assimilados e compartilhados em cadeia nas redes sociais. Seu uso coletivo deve ser sistemático. É o dia-a-dia dos adoradores.

 

 

 

 

 

 

V

 

Finalmente, resta-nos ver a importância da estética do mal na gestão da crise do coronavírus. Bolsonaro jamais se mostrou interessado em salvar vidas. Fala apenas em salvar a economia, como se esta fosse um Deus e estivesse acima de tudo. Mas nem isso é verdade. Sua única meta na economia é manter privilégios de uma minoria de ricos cujo distanciamento do resto do povo tornou-se a coisa mais escandalosa do país. Só está preocupado com os ricos e os poderosos. E para apoiá-los tenta manipular os trabalhadores, os pobres, os miseráveis e os condenados da terra, com o sacrifício da própria vida, se for o caso. Está mais interessado, por um lado, em manter a ala neoliberal satisfeita em suas expectativas; e por outro, em manter e ampliar sua base de apoio popular. Para a segunda meta, procura adotar um estilo próprio, diferente dos políticos, uma conduta grosseira e perversa, para provar aos seguidores que é homem de princípios e que os está defendendo contra tudo e contra todos. De fato, não se pode desprezar o forte apelo de uma palavra de ordem que empurra o Brasil ladeira abaixo, abrindo a indústria, o comércio e os serviços e expondo a todos ao ataque dramático do covid-19. Quando fala em salvar a economia, quer também sensibilizar o vendedor de churrasquinho em praça pública, que não tem recursos para sobreviver sem o seu negócio. E aí ele insinua que é preferível morrer de uma gripe do que morrer de fome. Não é tolo. Sabe que seu governo levou milhões de trabalhadores ao desemprego, ao subemprego e aos micros negócios autônomos. A economia do país vem sendo desmontada a cada dia. Daí que ficar em casa é péssimo para os que não tem nada. Essa gente está desesperada. Precisa retomar seus pequenos negócios e seus biscates para sobreviver. Ele incentiva a rebeldia, mesmo com o sacrifício de muitas vidas. Quer todos trabalhando e produzindo. Seu lema, várias vezes proclamado, é: “o Brasil não pode parar”. A desonestidade do farsante é tamanha que possivelmente está a engambelar uma multidão.

 

Segue, no dia a dia, com a seguinte lógica perversa:

 

   •   Todo mundo vai morrer um dia, não se pode evitar; que morram, então, os que têm que morrer, mas vamos salvar a economia;

   •   Os inimigos do Brasil (imprensa e esquerdopatas) estão semeando o pânico e a histeria; tudo não passa de uma “gripezinha” que se pode combater com analgésicos; ultimamente, porém, só fala na cloroquina, porque Trump também falou e ele é o seu mentor: embora se trate de um remédio duvidoso e de eficácia ainda não comprovada;

   •   Quanto ao isolamento, se é realmente necessário, que se isole os idosos, os únicos que, de qualquer forma, vão morrer mesmo; mas isolar todo mundo não é admissível;

 

   •   Os velhos são improdutivos, é preciso tirá-los de cena para não atingirem os mais novos; os jovens têm saúde de sobra para enfrentar um simples “resfriadinho”; no mais, todos devem voltar ao trabalho como se nada estivesse acontecendo.

 

   •   As igrejas devem permanecer abertas, para que o povo possa fazer suas orações e receber orientação e consolo religioso. Na verdade, o que pretende é ajudar as igrejas neopentecostais, permitindo a continuidade da arrecadação de dízimos pelos mercadores da fé. Como a justiça não permitiu (nem mesmo os quatro generais mais destacados de sua equipe, como se soube hoje), convocou para o domingo passado um jejum espiritual a fim de que todos rezassem pelo fim da pandemia: assim, trapaceou novamente o povo com seu fundamentalismo obscurantista, disseminando a ideia absurda de que uma simples reza ─ e não a ciência médica ─ possa salvar o mundo da sua mais terrível crise sanitária.

 

Para defender essa causa, Bolsonaro pousa como um espécime inatingível e inexpugnável. A “gripezinha” jamais vai lhe pegar, e se pegar não lhe fará mal, pois tem formação de atleta. Irá derrotá-la. Incentiva seu gado a sair de casa. Que todos sigam o seu exemplo. Sai à rua e cumprimenta as pessoas. Entra em lojas comerciais. Procura passar uma imagem de segurança; mostra-se um homem forte, corajoso, invencível, pronto a enfrentar qualquer perigo. Não sobreviveu a uma facada? É um homem que faz de si uma imagem para o Brasil: forte, saudável, patriota e crente. O mesmo homem que Hitler desejava para a Alemanha nazista, e que se auto destruiu. Ele não diz, mas é isso. Não consegue mais mascarar o criminoso que sempre foi desde 30 anos atrás. Seu projeto de genocídio que escandaliza o mundo mais cedo ou mais tarde será derrotado.

 

Concluindo:
O mal não pode triunfar sem o apoio de uma estética apropriada. E somente essa estética ─ a estética do mal ─ tem o escopo de se tornar uma arma infalível para garantir uma vitória parcial ou final. Vitória que, se acontecer, será uma catástrofe para o país.

 

PAULO MARTINS
Lisboa, 6 de abril de 2020

 

 

Nascido em Ipiaú, na Bahia, Paulo Martins passou quase que a vida inteira viajando: tendo morado em Jequié, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Pequim, Paris, Salvador, Porto Seguro e outras cidades. Reside atualmente em Lisboa, Portugal, onde se dedica a escrever e a desbravar novos países, além dos mais de 30 que já conhece. É poeta, letrista de canção popular, romancista, cronista e ensaísta, autor dos romances Glória Partida ao Meio (7 Letras 2010); Adeus, Fernando Pessoa (7 Letras, 2014); História de Roque Bragantim – Olhares do Campo (Cultura Editorial, 2017); e do ensaio biográfico Jacques Brel – A Magia da Canção Popular (7 Letras, 1998), entre outras publicações. Divide-se, desde a adolescência, entre as duas maiores paixões de sua vida: a política e a literatura.

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