ANO 8 Edição 92 - Maio 2020 INÍCIO contactos

Paulo Martins


Sérgio Moro e o avanço do projeto nazista    

Publiquei recentemente um artigo intitulado “A Estética do Mal”, no qual faço um exame semiótico dos padrões utilizados por Bolsonaro na consecução de seus objetivos nazistas. O emprego dessa “Estética” continua a pleno vapor e os resultados colhidos deixam claro que os objetivos pretendidos estão perto de serem alcançados. A demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça é um episódio paradigmático nesse processo.

 

Inspirado na experiência de Hitler, o plano de poder de Bolsonaro está dividido em três etapas: conquista do governo; desmonte e controle das instituições democráticas; e conquista do poder absoluto. Essa última etapa deverá resultar no estabelecimento de uma ditadura nos moldes da de 1964, que lhe serve de modelo, mas a ser aprofundada em todas as esferas.

 

A primeira etapa foi conquistada com absoluto êxito, resultado de muitos anos de trabalho paciente, no qual ele soube aproveitar as oportunidades que apareceram pelo caminho. A segunda etapa está em execução. Começou com a revirada dos órgãos da educação e da cultura no sentido de eliminar o que seu grupo chama de “influência gramscista”. O objetivo é anular a infiltração de uma suposta esquerda que promovia uma imaginária revolução através do domínio da cultura e da educação. Seguiu-se a depuração e o desmonte de outros órgãos, desde os relacionados à saúde e ao meio ambiente até os ligados à assistência social, economia e soberania nacional.

 

A terceira etapa está em fase de testes. A ideia primordial é jogar o povo contra os demais poderes da República ─ Legislativo e Judiciário ─ e contra a media.  Não foram poucas as manifestações promovidas visando à desmoralização das instituições republicanas, com o objetivo de expandir o apoio ao seu fechamento ou pelo menos ao seu controle em mãos do poder central. Daí os apelos por “intervenção militar”, “volta do AI-5”, “fechamento do Congresso” e “fechamento do STF”, nos quais Bolsonaro nunca aparece como protagonista, já que este papel cabe aos três filhos parlamentares, organizadores dos eventos de ódio e propagadores das mentiras que sustentam o movimento. Ele atua como um inocente que vai ao encontro de seu eleitorado: nada mais. Não é responsável pelo que se diz ou se proclama nas ruas. A ideia é incrementar a revolta na população para poder dizer, no momento oportuno: “Se o povo quer assim, temos que obedecer: somos escravos do povo”. E abocanhar mais uma fatia de poder.

 

Enquanto isso, vai-se montando dia a dia a estrutura do poder absoluto, com a militarização sistemática do governo e o controle de todos os órgãos vitais do Estado.

 

É evidente que Bolsonaro e seus filhos passaram esses anos de ascensão estudando a experiência hitlerista para se munirem de capacidade mínima para estabelecer um plano sofisticado. Como nenhum deles tem estofo intelectual, seria necessário seguir à risca um modelo predeterminado. Para se enxergar isso, basta comparar os seus procedimentos com os de Hitler, em sua meteórica carreira até conseguir implantar a ditadura mais brutal que se tem conhecimento na história da humanidade. Tudo parece minuciosamente copiado. A compleição física é usada como prova de superioridade e de coragem. Até os gestos são idênticos. Só muda a situação histórica, no contexto particular de um país latino-americano no século XXI.

 

Primeiramente, o movimento precisava de um ideólogo, nos mesmos moldes do surgimento do nazismo. O ideólogo do nazismo não foi Hitler. A história sabe perfeitamente que as ideias que deram base ideológica ao futuro partido nazista, nasceram de um poeta e dramaturgo bávaro do período da I Guerra Mundial, chamado Dietrich Eckart. Este ideólogo, que enriqueceu e se tornou famoso com a encenação pública de suas peças e suas publicações no pré-guerra, era um homem desajustado, cheio de ressentimento e inconformidade com os rumos que a conflagração tomou. Dirigia uma sociedade secreta, praticante de ocultismo, que acreditava na supremacia da raça ariana, ou germânica, uma raça eleita, que deveria assumir um papel supremo na história da humanidade. Revoltava-se com a miscigenação da raça germânica, que poderia levar a uma degradação de sua pureza e superioridade. Esta degradação acontecia principalmente pela influência judaica, que crescia incontrolavelmente no seio da sociedade alemã. Daí o antisemitismo radical ser a espinha dorsal da Sociedade Thule, que deu origem, mais tarde, ao Partido dos Trabalhadores Alemães, núcleo inicial do futuro partido nazista.

 

O nazismo brasileiro precisou também do seu ideólogo. E este não é outro senão o falso filósofo Olavo de Carvalho que, dentre outras excentricidades, defende a tese de que o planeta terra é plano, talvez para fazer face ao seu inspirador Eckart que defendia a existência da Atlântida, a lendária cidade que teria dado origem aos arianos, como síntese do povo germânico.

 

Quem já leu uma obra de Olavo de Carvalho sabe perfeitamente do que estou falando. Ele pode não ser um líder, mas é o autêntico inspirador das ideias de Bolsonaro, aquelas que lhe deram sustentação para levar adiante seus planos autoritários para o Brasil. A ideologia básica do “olavismo” se assenta num tripé: messianismo, inversão cultural da sociedade e destruição da esquerda (não apenas dos comunistas), tomada como fator de atraso, ignorância, corrupção e criminalidade. Não à-toa, esta tem sido a tônica dos discursos inflamados de Bolsonaro, para quem, para ter sido verdadeiramente vitorioso, “o golpe de 64 deveria ter matado uns 30 mil e não apenas prendido e torturado”. Na visão atual, a esfera da esquerda foi ampliada, englobando todos os que se posicionam contra o novo projeto de poder. Já a inversão cultural remete a toda uma desmontagem da superestrutura cultural do país, substituindo-se por outra de caráter nacionalista extremado. Daí o lema “Brasil acima de tudo”.

 

No que tange ao messianismo, lembremo-nos mais uma vez da Alemanha. Dietrich Eckart achava que a única solução para o país, arrasado pela guerra e humilhado por seus inimigos, era o aparecimento de um Messias, que o libertaria de seus traumas, uniria o povo e anunciaria a sua glorificação. A ideia de um Messias foi uma semente poderosa naquela situação de crise aguda. A Alemanha atravessava um momento sem precedentes, no qual campeavam o desemprego, a falência de empresas, a miséria, a fome e o desespero. Eckart se dedicaria persistentemente a encontrar este Messias. E por acaso o encontrou numa reunião de cervejaria, tão comum na Munique do pós-guerra, nos anos 1919/20.

 

Naquela situação, os desajustados e ressentidos tinham tudo para se entender. A partir do estabelecimento de um ponto de apoio, toda a história que segue é a história do encontro desses ressentidos e sua aglomeração em torno do maior deles: Adolf Hitler, que veio a se tornar o grande líder nacionalista sonhado por Eckart, até alçar-se à condição de Messias, etapa que seu guru não chegou a vivenciar, pois faleceu em dezembro de 1923.

 

Nesse aspeto, o que falar de Bolsonaro? Existe maior ressentido e maior desajustado do que ele no Brasil? O desajustamento e o ressentimento foram exatamente os fatores psicológicos capazes de unir milhões de brasileiros após a crise capitalista global de 2008, cujos reflexos são sentidos até hoje, mas que teve uma subida drástica em 2016, ano do golpe contra Dilma Rousseff. Alguns slogans radicais e propostas apoiadas na ideia da violência foram suficientes para criar um clima de esperança numa grande parcela da população, como se, de repente, tivesse surgido de fato um Messias, capaz de salvar o país da crise em que estava atolado e devolver ao povo uma suposta soberania perdida. Coincidentemente, o próprio nome do candidato era Messias, isto é, Jair Messias Bolsonaro, um nome sob medida para um momento dramático, em que lideranças populares eram ceifadas para abrir caminho ao novo líder. Não durou muito para que o energúmeno fosse batizado de Mito: ele tinha algo de diferente, era “honesto”, intransigente, radical, não vacilava em ser duro e cruel, mostrando-se preparado para derrotar os “inimigos do povo” pelas armas se fosse necessário. Era isso que a população precisava ouvir, e que as forças democráticas não tinham se apercebido. O que encantou realmente essa gente, foi a índole violenta de Bolsonaro. A apologia da tortura parecia algo mágico, corajoso, salvador, coisa de macho. Toda a sua campanha se desenrolou sob a égide da violência: uma mão em formato de arma apontando para um inimigo imaginário.

 

O simples exemplo da campanha seria suficiente para caracterizar o movimento bolsonarista como de caráter nazista. O nazismo nasceu e cresceu sob a bandeira da violência. Bolsonaro também pregou o golpe. Mas, da mesma forma que Hitler, não viu chance de se sair vitorioso por esse caminho. Quando se descortinou a oportunidade eleitoral ele aprendeu rapidamente a lição hitlerista: primeiro é preciso chegar ao governo, depois vem o resto.

 

Após o fracasso do golpe de Munique em 1923, Rohm, chefe das milícias SA e grande aliado de Hitler, foi lhe propor a preparação de uma nova insurgência, já que, segundo ele, toda revolução nascia de um golpe. Hitler não concordou e a amizade ficou estremecida. Esclareceu assim sua nova posição: “A revolução vem depois da tomada do poder”. É a lição que Bolsonaro aprendeu cedo. Não será fácil aplicá-la daqui para a frente, mas é o que ele está tentando fazer. Se sair vitorioso, será o maior desastre da América Latina em todos os tempos.

 

O caminho é tortuoso. Ele vai aplicar a lição com cautela, dando cada passo na hora certa. Uma das coisas de que precisará durante toda a trajetória, é identificar os empecilhos a seus objetivos. As demissões de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde e de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, seguem esta lógica: são exemplos típicos de sua mão de ferro. Quem vacilar em seguir à risca seus ditames deve pular fora, será considerado um “traidor” e “frouxo”, segundo o General Heleno, Ministro Chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Já o provável substituto do diretor exonerado da PF, Alexandre Ramagem, que atualmente chefia a Agência Brasileira de Inteligência, ABIN, foi rápido no gatilho, ao antecipar seu recado: “O medo, pavor, e outros sentimentos que pairam sobre a minha possível nomeação para dirigir a Polícia Federal, são apenas choro de corruptos e de ex-Ministro banana, que ao meu ver estava em conluio com o sistema para vender livro de autobiografia. Aqui é Brasil, aqui tem testosterona.” Enfim, este é um governo de machos, não de bananas. Moro, de arauto da luta contra a corrupção, passa a ser o próprio corrupto, por ordem de Bolsonaro. Pôde comprovar a força que tem o uso da mentira, usada agora contra ele, para desmoralizá-lo. Bebeu do seu próprio veneno. E descobriu que este gesto será repetido sem piedade, como já se vem fazendo desde o início nos escalões inferiores do governo.

 

A demissão de Moro vislumbra, assim, dar um passo mais à frente, na direção da prática concreta da terceira etapa do plano nazista. No nazismo, todos os órgãos do Estado devem servir ao Governo. Estado e Governo passam a ser uma só coisa. Isso ficou claro depois da morte de Hindenburg, em agosto de 1934, quando Hitler passou a acumular os cargos de Chanceler e de Presidente. O lawfare foi uma consequência natural: toda a justiça passou a funcionar em função dos interesses e metas do governo. Absolvia-se ou condenava-se o que era de sua conveniência. O resto foi o que se viu.

 

Para que Moro continuasse a servir ao governo ele teria de concordar com o controle da Polícia Federal pelo chefe de Estado. Ou seja, a Polícia Federal não pode continuar sendo um órgão autônomo e independente. Tem de servir, primeiramente, aos interesses do governo e de seu mandatário. Eis porque tanto se fala no fechamento do STF. O Presidente, o Chefe da Nação não pode ser investigado. Nem sua família. O STF vai ter que parar com os atuais inquéritos, pois na PF eles não vão prosseguir. Se não o fizer, pode se preparar para o pior.

 

O governo não pretende agir escrupulosamente nas situações de risco que lhe ocorram. Sua postura diante da pandemia do covid-19 deixa isso claro: age como sociopata e genocida. Hitler foi capaz de prender pessoalmente seu velho amigo Rohm, no começo da gestão nazista, quando sua SA começou a lhe criar problemas. Para chegar a tanto, primeiro foram fabricadas histórias nebulosas eivadas de mentiras e invencionices contra o antigo aliado. Depois se convenceu, com os argumentos de Himmler e Göring, a mandar matá-lo a tiros, dentro da prisão, caso este se recusasse a acatar uma ordem de suicídio. Na famigerada “Noite das Facas Longas”, foram ainda assassinadas centenas de pessoas, em toda a Alemanha, para abortar qualquer reação favorável ao caudilho da SA. Da mesma forma, Bolsonaro não exitará em tomar medidas duras e cruéis quando as necessidades urgirem. Quem viver, verá.

 

Paulo Martins
Lisboa, 27 de abril de 2020

 

 

Nascido em Ipiaú, na Bahia, Paulo Martins passou quase que a vida inteira viajando: tendo morado em Jequié, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Pequim, Paris, Salvador, Porto Seguro e outras cidades. Reside atualmente em Lisboa, Portugal, onde se dedica a escrever e a desbravar novos países, além dos mais de 30 que já conhece. É poeta, letrista de canção popular, romancista, cronista e ensaísta, autor dos romances Glória Partida ao Meio (7 Letras 2010); Adeus, Fernando Pessoa (7 Letras, 2014); História de Roque Bragantim – Olhares do Campo (Cultura Editorial, 2017); e do ensaio biográfico Jacques Brel – A Magia da Canção Popular (7 Letras, 1998), entre outras publicações. Divide-se, desde a adolescência, entre as duas maiores paixões de sua vida: a política e a literatura.

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