ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Atanasius Prius


No zoo tropical    

A maioria, às vezes mais outras menos, dos animais brasileiros têm o maior sentido ecológico do mundo. Gostam tanto de animais que até elegeram um capivara com pele de homem para dirigir a manada. E assim fizeram com que os burros mordessem o rabo com inveja de não serem tão como ele. Por não terem orelhas pequenas como as capivaras. Queriam ser mais do que são, ter também pele de homem. Mas não só os burros. Piranhas, jacarés, jararacas, urutus, ratos de esgoto, e até camelos foram importados só para terem inveja do capivara com pele humana.

 

Agora é mais idolatrado pelos seus do que o bezerro de ouro. Missas e incensos não lhe faltam para compensar os banhos de merda. Gritos, cânticos, sermões, deo gratias misturados com bilhões de reais por lhes terem dado um Messias.

 

Laudamus te dizem os que têm a cabeça entre os dentes, a boca no traseiro e os pés voltados para trás.

 

Laudamus te dizem os idiotas, os atrasados, os ladrões, os cagões, os caceteiros, os pistoleiros, os arruaceiros, os calaceiros, os corriqueiros, os maluqueiros, os matreiros, os embusteiros, os grosseiros, os alcoviteiros, os pirangueiros, os carcereiros, os pardieiros, os brigadeiros, os sobranceiros, os traseiros, os traçoeiros, os bagunceiros, os bandoleiros, os cangaceiros, os desordeiros, os milongueiros, os maconheiros, os fazendeiros, os puteiros, os candongueiros, os caloteiros, os cueiros, os fraldiqueiros, os onzeneiros, os ratoneiros, os bisbilhoteiros, os macumbeiros, os fuxiqueiros, os doleiros, os caceteiros, os trambiqueiros, os mandingueiros, os fiteiros, os baixeiros, os chibateiros, os pais-de-chiqueiros, os punheteiros, os trampolineiros, os pantomineiros, os patranheiros, os chicaneiros, os traiçoeiros, os faroleiros, os gazeteiros,os mosquiteiros, os quadrilheiros, os financeiros, os milagreiros, os cambalacheiros, os trapaceiros, os lambareiros, os pataqueiros, os peidorreiros, os batoteiros, os unheiros, os ronceiros, os curriqueiros, os linguareiros, os bravateiros, os foleiros, os besteiros, os lombrigueiros, os fraldiqueiros, os lambisqueiros, os boateiros, os cameleiros, os louvaminheiros, os batateiros, os azeiteiros, os broeiros, os bruaqueiros, os asneiros, os rezingueiros, os moedeiros, os rameiros, os carneiros, os aborteiros, os patrioteiros, os cabresteiros, os toupeiros, os chibeiros, os andadeiros, os ranceiros, os chasqueiros, os piolheiros, os chafurdeiros  e,  com o cu sentado na cabeça de todos, os banqueiros-ladroeiros-cagamerdeiros.

 

E com animais assim  de tanta qualidade tudo vai ser melhor estrumado na terra brasileira. Os pastores já podem cagar à vontade porque deles é o reino do Brasil.  O cagar evangélico na terra brasileira é semear ouro.  Profetizam eles com a sabedoria que lhes vem do altíssimo: não é só casa, carro e televisão que lhes daremos - todos os brasileiros poderão  cagar à vontade em penicos de ouro se escutarem a nossa palavra entregando a nós tudo o que é seu. E apontam o seu exemplo: a nossa merda já sai dourada porque deus está connosco. Nós sabemos o que ele quer. É a nós que ele revela o futuro quando estamos sentados na sanita. Sigam-nos em manada e serão como nós se tiverem manha para isso. A falta de dinheiro  é o maior pecado, o maior sinal de que deus não está connosco. Lembrem-se também que ele é o deus dos exércitos: tragam convosco pistolas, carabinas, metralhadores, granadas e bombas para matar os maus, os que não nos seguem. Não se esqueçam que não bastam bombas de mau cheiro. O carnaval não é todos os dias. Nem bastam as granadas que espalham pulgas e piolhos que são fabricadas nas favelas.

 

Erguendo as mãos ao alto, cantavam e dançavam os pastores conduzindo a sua manada a gritar-lhe que o Brasil era de deus e que deus lhe tinha enviado o seu Messias.

 

 Mas a dúvida instalou-se numa ovelha que estava perto do pastor mor quando este, no fim do sermão, se peidou.

 

O que depois sucedeu contaremos no próximo capítulo.

 

Amen.

 

Atanasius Prius é um monge anacoreta que se cansou de jejuns, sacrifícios com cílios nas coxas, e orações quarenta e oito horas por dia, e resolveu fazer-se goliardo – o que também não conseguiu porque não tinha jeito nem para as mulheres nem para o vinho. Por isso virou analista político.
Salvé.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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