ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Carla Carbatti


Derivas    

- IX

 

mais adiante, aqui, onde a terra para sempre perdida, retorna na umidade conjugal entre as chuvas, as montanhas e as rosas, semeio um pensamento roto. sua casca destruída, seu crânio exposto parece um âmbar, uma ciranda de crianças fantasmas.

 

e é com as mãos que sei a gestação, o solo do sonho, a firmeza dos espinhos e talos; também sei o rocio da palavra tocada pelo fenômeno, o desamparo das pálpebras ao conservar o tremor de uma duração: milhões de vibrações que o corpo acolhe: como um violoncelo, um disparo, o pensamento me golpeia o coração:
seu reino é sangue e silêncio
:

 

 

 

 

 

 

 

- VIII


saber-se, então, o momento em que a lágrima despenca, madura, reivindica seu direito de chão; saber-se germe para tocar a carne da palavra, pálida
inclinada à brancura do ignoto
:

 

 

 

 

 

 

 

-VII

 

lembre-se, minha irmã, o solo devastado é seu ventre e a barra surrada da saia batimentos involuntários do corpo; em algum momento terás que, em busca de alimento, de sol ou de água, contornar o desenho da linguagem; aí, emaranhada em fungos, obuses, lavandas, vozes, ruídos, querubins, cometas, levantarás tua casa, 
e te manterás em guerra
:

 

 

 

 

 

 

 

- VI


amor: verbo, vertigem, vertente: gestos suspensos no escuro 
técnica-tato-tateamento
aflora-se a superfície, a nota mais alta e aguda da música do tempo
antes que o corpo se acostume, aproxima-te ao teu deserto
e volta a traçar refúgios a céu aberto
:

 

 

 

 

 

 

 

- V


construi uma ponte de pedra para interligar matérias telúricas e estelares; mas as falhas, as lascas, as escoriações e seus incêndios foram quem me deram nome. encontrei a morte, a lonjura e a poeira nas violentas travessias pelas vazantes, pensamentos, línguas e de-encontros. fui placenta, fotossíntese, fósforo, índia, acácia do, re, mi rã
torvelinhos de átomos enamorados se autodestruindo na floração das manhãs
:

 

 

 

 

 

 

 

- IV


mãe, filhas, se soubesse amar, plantaria um ipê amarelo no poente das suas risadas. nada lhes ofereceria além desse segredo exposto à ventania, essa terra em fogo lááá
dentro
cinzas cintilâncias
pétalas de luz e carbono
:

 

 

 

 

 

 

 

- III


num dia livre subi numa árvore. minha mirada se pôs a voar, errática, sem mudar nada na paisagem, sem rastro. rastreando a matéria-alegre que somos e compartilhamos. o mundo surgia na pele do dia intensificando suas variações lumínicas, suas conexões eletroquímicas; parecia inclinar sobre mim sua sombra diáfana. chama. estalo. it. ponto de inflexão ou de ignição, sei lá,
não sei precisar a temperatura que dá origem à sensação
:

 

 

 

 

 

 

 

- II


sinto. me vinculo ao mundo para formar embriões de tempo e pensamento. como as demais formas de vida expresso meu ponto de vista me sendo
e sou imagem luz aroma silêncio
uma plantação de álamos trementes nas montanhas de San Juan de La Cruz
:

 

 

 

 

 

 

 

- I


é dia, transfigurações da luz abrem setembro entre meus dedos. dou-me aos movimentos lentos do começo. minha voz acolhe as ínfimas vibrações das ramagens roçadas pelos ventos. meu nome conhece os ritmos das cores que mudam e permanecem como tremores, como fluxos, como múltiplas existências que minha consciência não captura. meus olhos se ligam a trilhões de oscilações do azul evidenciando a palavra céu. a con'sonância da vegetação entre si afeta todos os nervos do meu corpo numa agitada corrente de presença e memória; digo, então, terra arrastando os erres como um galho de salgueiro
é setembro, aveludados musgos nas pedras impossibilitam que minha mirada endureça. dou-me a algo incessantemente mais novo. meu coração palpita entre a luz e a água em esporas secretas, se repete: obriga a si mesmo a algo diferente de si mesmo. meu pensamento encontra um lugar no mundo, mas vacila, se lança a uma fuga, sai à tona como um delírio químico, como um cristal transparente de impraticáveis significados. minhas mãos, então, se coordenam a um turbulento sistema de energias formando hiatos, saltos, afagos
escrevo,
suavemente,
é dia, é setembro

 

 

Carla Carbatti. Brasilega, mineira, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeteira com todos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Germina, Alagunas, Mallarmagens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Zunái, Contratiempo, etc., à Antologia RelevO 5 anos, ao ESCRIPTONITA: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi, e agrupadas no livro autoral, na cadência do caos.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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