ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Sonetos portugueses    

Soneto português I - A cave


Que parte do meu corpo ama e sofre?
Há mesmo um sítio em carne onde transcorra
amar, sofrer, criar, sonhar... quem pode
dizer-me onde encontrar quem, cá, não morra


de medo, por saber onde reside
o monstro que é o amor? Dizei-me onde
guardamos o gostar. Onde ele incide?
Onde ele faz morada? Onde se esconde?


Se eu soubesse o sítio, a cova, a cave
talvez cortasse o vínculo, esse entrave,
que insiste em me fazer de hospedeiro


do parasita mais que formidável:
o amor, que me transforma em miserável
fadado a padecer de corpo inteiro.


 

 

 

 

 

Soneto português II - Atado a cada pedra um pé fendido


Quem sabe um Deus piedoso me perdoe
de tanto andar pecando sobre a terra
na violência extrema de ser doce
com um coração que o puro ódio encerra


Quem sabe, amor, então tudo não fosse
um jeito estranho de perder-se em guerra
pelo simples fato de achar que a posse
de ser contrário ao que tudo se espera


me desse a calma de escolher as coisas
pelo viés da inversa coisa dada
como julgando clara a escura noite


ou negra a ofuscante manhã clara
saboreasse em gozo a dor do açoite
de achar que é doce essa vida amara


 

 

 

 

 

Soneto português III - Ganimedes

 

Quisera eu que um deus alado
em seu desejo me provesse
com seu furor e um longo abraço
e ao fim restasse que eu me desse

 

inteiramente, corpo e alma
Sem opção: nem não, nem sim
e dessa forma, em total calma,
eu me entregasse ao gozo, enfim.

 

Submeter-me aos seus caprichos
entre a carícia e o gesto irado
Sei bem que os deuses são lascivos

 

Devoram almas aos bocados
E a nós o doce sacrifício
o bom destino, o leve fado?


 

 

 

 

 

Soneto em redondilha maior

 

Se tudo é um simulacro
- parte de um todo postiço –
existe um mundo castiço
no micro que oculta o macro?

 

O mundo tem cheiro e viço
tem brilho, mesmo no escuro
Quanto mais perco, procuro
aquilo que dão sumiço.

 

Saiba, de agora em diante,
meu amigo ignorante:
- Não se deve ignorar

 

que é mais que um bonsai gigante
a árvore mais distante
que o olho possa alcançar

 

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título “Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito”).  Alguns trabalhos publicados: “O livro de Loraine” (romance, 1998), “logomaquia: um manefasto” (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano “Antologia do Conto Brasiliense” (2004) e  “Todas as gerações” (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro “Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem”, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos “Nebulosa fauna & outras histórias perversas”. Publicou em 2018 o volume de poesias “Babelical”, pela Editora Patuá e em 2019 o romance “Grande Mar Oceano”, pela Gato Bravo. Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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