ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Autógrafos: A arte das delicadezas    

Conheci-o em uma grande noite de autógrafos coletiva, no lançamento da coletânea organizada por Walmyr Ayala e César de Araújo: "Abertura poética - novos poetas do Rio de Janeiro”, em 1975 (minha primeira antologia). Como éramos muitos, quem adquiria o livro não passava por um, mas pela imensa mesa de autores. Folheava o livro e pedia o autógrafo dos poetas que mais gostasse. De repente, ele chega na minha frente e pede meu autógrafo. Sempre achei que dedicatória não podia ser formal: "com um abraço de", ou repetida, a mesma para todos; há que exercer a criatividade também através delas. Aliás, um dos maiores "autografadores" que conheci foi Herbert Daniel, sempre pondo a palavra certa para a pessoa certa, improvisando maravilhas. Como eu não conhecia quem estava diante de mim, perguntei seu nome. E ele me disse, em tom baixo: - Geir Campos. Ainda sem saber se acreditava mesmo, levantei os olhos e perguntei, em tom mais alto: – O grande poeta? Vi-o corar, juro, até porque meus colegas da mesa o olharam também. Ele respondeu, com a modéstia que lhe caracterizava: – "Só poeta"... Não me contive. Entusiasmada, declarei-me: "Geir, eu adoro você..." E me lembro que na dedicatória coloquei: da sua leitora e fã, Leila. Quando lhe devolvi o livro disse: - "Não são palavras vazias, gosto de muitos poetas, mas admiração mesmo, eu tenho por poucos". Ele sorriu, balbuciou um "eu também", me deu um beijo na testa e saiu rápido de perto. Minha noite estava ganha.

 

A partir daí, começamos a ter uma amizade sólida, mesmo à distância. Pouco nos vimos, mas nas vezes em que nos falamos por telefone ou por carta, havia entre nós uma sintonia muito grande. Em meus lançamentos posteriores, mesmo quando o poeta não podia estar presente, sempre se fazia representar por flores e cartões. Geir era de um bom-gosto estético extraordinário; eu o consultava para minhas antologias, porque ele estava sempre em contato com estilos novos e pouco tradicionais. Em 1978, foi ele quem me apresentou a outra grande escritora, Eunice Arruda, para mim uma das maiores haicaistas brasileiras contemporâneas. Ele me disse que não sabia se ela ia se enquadrar na proposta do meu livro "Mulheres da Vida", mas que, de qualquer modo, era interessante que eu conhecesse o trabalho dela. Eunice entrou na obra, lógico, porque a poesia dela, parecendo doce e suave, era tão contestadora quanto a de todas as outras integrantes do livro organizado por mim (ela era outra pessoa linda).

 

Geir Campos esteve sempre por perto e acompanhou minha trajetória com vivo interesse. Através dele, participei de um projeto de poesia no Centro Calouste Gulbenkian, e conversamos muito depois, sobre os rumos poéticos brasileiros daquela época – retalhados, amordaçados, censurados. São dele os três poemas abaixo. Transcrevo-os como uma pequena amostra da sensibilidade imensa e filigranada deste grande escritor.

 

GOTEIRA

 

Canta-me a chuva a mensagem
de estranhos, longínquos mares
onde talvez fui viagem
ou náufrago, peixe, polvo,
mosaico de espuma, pingo
de chuva — em que me dissolvo.

 

TESTAMENTO DE AQUILES

 

Não mostres ao inimigo
o calcanhar do parceiro:
ele traz armas consigo
e tem o tiro certeiro.

 

surdina

 

Baixo meu canto ao nível da sarjeta
e afino-o pelo sono do menino
que dorme entre seus trastes de engraxate:
já lhe tatua a pele a poeira preta
— e quem dirá se em seu peito franzino
é nuvem, pedra ou coração que bate?

 

Mais poemas em Blocos Online:
http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=3433&flag=

 

Recebi a notícia de que ele tinha morrido com quatro meses de atraso, em uma semana cheia de tristezas, como a antecipar mais esta. A princípio não quis acreditar, mas a notícia me foi infelizmente confirmada. Meu coração soluçou. Ele morreu discretamente, como viveu, sem nunca ter feito estardalhaços sobre seus trabalhos literários ou autopropaganda; porém, sua literatura foi marcante: Geir Campos deixou uma obra pessoal das mais instigantes (inclusive através de suas magníficas traduções) e, profundo conhecedor de poesia, nos legou o seu "Pequeno Dicionário de Rimas", compartilhando com todos o amor pelo fazer poético. Consulto sempre o exemplar que ele me enviou e sempre me sensibilizo com seu autógrafo, contendo uma sutil referência ao que lhe escrevi no nosso primeiro encontro: "Para Leila Miccolis, com o abraço do Geir, que é seu leitor e seu fã". Era o seu jeito de retribuir minhas palavras sinceras, através de uma dedicatória tímida, delicada e amiga, exatamente como ele era e como eu o sentia.

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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