ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Luiz Eduardo de Carvalho


A viagem no Hidroavião de Alberto Bresciani, uma resenha.    

 

[Hidroavião, de Alberto Bresciani, Editora Patuá.]

 

Tenho raiva do Pessoa, do Quintana, da Coralina, do Leminski, do Drummond, do Chico, do Gullar, do Barros, da Hilst, do Gil e de uma centena de outros poetas que me roubaram infinitos versos que eu teria feito se os pensasse antes deles... Agora dei para ter raiva também, pelo mesmo motivo, de amigos que têm se tornado próximos pela identidade que sinto em relação a seus versos que jamais saberei imitar.



A viagem no Hidroavião de Alberto Bresciani proporcionou-me emoções vertiginosas, não por uma suposta precariedade do equipamento, insinuada nas linhas tão antigas e frágeis postas com encantadora delicadeza na capa, no entanto, muito ao contrário, por ser um seguro instrumento de reconhecimento de paisagens que, por mais que já tenham sido sobrevoadas por outros exímios pilotos da poesia, mostram-se como inéditas e ainda mais encantadoras na perspectiva em que são vistas das janelinhas desse voo.


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O sucesso do engenho deriva, talvez, de sua versatilidade: voa, pousa na água e na terra. Só não se alça ao quarto elemento: o ígneo deixa para o peito do passageiro incauto que se debruça sobre o panorama de sua poética irretocável, cujo estilo consolida-se paradigmático para nossos dias de tantas experimentações. Não que deva ser copiado, menos ainda vulgarizado, mas atentamente observado por todos que buscam agir no cerne da polissemia irradiada da quase ausência. Um ínfimo pulso elétrico egresso de criativos neurônios que é ampliado e transmitido pela antena da raça, como Ezra Pound preconizava o bom poeta.


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Como voar significa deslocar-se, o que implica em tempo consumido pelo espaço transpassado, e como tempo transcorrido sugere sucessão de fatos, aparecem no radar a bordo uma miríade de pontos de narrativas, das quais personagens e ou alter egos emergem isolados ou em blocos de poemas consecutivos. São histórias, causos, fábulas, memórias que costuram o itinerário desse voo com obrigatórias escalas para o reabastecimento de vazios com que conter os próximos poemas, carga preciosa a ser transportada para além do ponto final da jornada.



São poemas curtos, breves, coesos e sem tautologia, sem tartamudices. São densos: mais do que o ar, mais do que a água, mais do que a terra. É preciso sobrevoá-los e saboreá-los. Não se pode despencar sobre eles ou engoli-los afoitamente, pois seus versos têm a densidade do fogo: transformam tudo o que tocam.



Li do embarque ao desembarque na ordem sugerida pelo mapa temático do piloto. Agora, refarei a viagem, as viagens, vezes e vezes, saltadas, misturadas, repetidas, alternadas, sem ordem, sem plano de voo, sem direção ou destino. Em pura vertigem!



Depois do pasmo experimentado com os Fundamentos de Ventilação e Apneia (2020), da excelência conferida em Incompleto Movimento (2011) e em Sem Passagem Para Barcelona (2015) e, encerrado esse maravilhoso voo de Hidroavião (2020), eu fico aqui, diante da esteira de bagagem, aguardando ansioso pelo próximo lançamento!

 

 

Luiz Eduardo de Carvalho, escritor brasileiro que sempre atuou na intersecção entre Cultura, Educação e Política, tendo emprestado da Comunicação Social as ferramentas para as pontes. Estudou Farmácia e Bioquímica e Letras na USP e formou-se em Comunicação Social na ESPM. É licenciado em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Nove de Julho. Foi professor, teatrólogo, jornalista, publicitário, assessor político. Desde 2015, dedica-se exclusivamente à Literatura e já recebeu diversos prêmios, entre eles o Oliveira Silveira (com o romance “Sessenta e Seis Elos” - ed. FCP) e o de Incentivo à Publicação (com a peça “Evoé, 22”! - no prelo), ambos do Ministério da Cultura do Brasil. Publicou também “O Teatro Delirante” e “Retalhos de Sampa”, ambos de poesia, o primeiro em versos líricos e eróticos e o segundo com temática geral, pela ed. Giostri.

Alberto Bresciani, poeta brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de  “Incompleto movimento” (José Olympio Editora, 2011), “Sem passagem para Barcelona” (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura - Poesia de 2015) e “Fundamentos de ventilação e apneia” (Patuá, 2017). Integra, entre outras, as antologias: “Outras ruminações” (Dobra editorial, 2014), “Hiperconexões” (Editora Patuá, 2014), “Pássaro liberto” (Scortecci Editora, 2015), “Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine” (Revista Pessoa, edition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015) e “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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