ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Alfaya


Seria a vida uma festa?    

        Um título que periodicamente me levava a pensar é o que o escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961) supostamente teria atribuído aos anos em que viveu na capital francesa, por volta de 1920: “Paris é uma Festa”.

 

         Apesar do título atraente, por um desses descuidos do existir ainda não havia lido o exemplar de que disponho, uma edição rara da Civilização Brasileira, de 1967. Nestes dias, venho corrigindo essa falha, viajando pela obra. 

 

Levaram-me a tal jornada algumas coincidências.  Uma delas, uma persistente divagação aleatória na cozinha de meu apartamento, enquanto lanchava sei lá o quê.  Não me recordo da refeição, mas me recordo ainda muito bem do andamento das curiosas divagações.

 

         Perguntava-me se o título deveria ser levado a sério.  Isto é, será que de fato Hemingway, cujo engajamento político-social o levaria até a participar da guerra contra o fascismo na Espanha, de fato acharia que Paris era uma festa? Ou esse título seria apenas uma ironia,  uma isca lançada pelo autor de “O Velho e o Mar” para enganar o leitor disraído?  Título a sério ou pura ironia?

 

         Indaguei-me, por minha vez, se existiria mesmo algum lugar do mundo, que se pudesse dizer de boca cheia que fosse “uma festa”.  Aqui no Brasil, certamente que não é, muito menos, agora.  Mas se existisse algum lugar do mundo de que se pudesse afirmar “ser uma festa”, por certo esse lugar seria Paris.

 

         Isso porque não há como falar em “festa”, ao menos no seu sentido próprio, se não houver alegria e comemoração no meio.  Alguém poderá alegar: “Bom, onde houver gente reunida e movimento haverá festa.”  Não exatamente.  Nas lutas e nas guerras, grupos amiúde se reúnem e se movimentam, até com ares de dança, porém, para promover ataques uns aos outros.  Somente fascistas e nazistas poderão ver nisso algum motivo de festa.  Não.  Festa sem alegria não é festa.  Pelo menos em seu conceito nos dicionários, conforme os verbetes do Aurélio e do Houaiss.

 

         Quando se diz que alguém ou alguma coisa “é” isso ou aquilo, estamos lhe designando um atributo permanente e inerente.  O velho exemplo dos livros de Filosofia: “Todo homem é mortal.”  Sim, aconteça o que acontecer.

 

         Continuando a especular sobre o título da obra, concluí que não seria possível.  Isto é, impossível, mesmo a Paris, viver num estado de permanente festa.

 

         E o que é mais grave: admitir que algum lugar pudesse viver em permanente festa seria admitir que a vida “ser uma festa” também se revelaria possível.  E que se fosse possível em um lugar, por que não poderia ser assim em todos?

 

         Incidentalmente me recordei da famosa lenda (ou talvez história) de Buda.  Gautama, o jovem que futuramente se tornaria Buda, era um príncipe que vivia recluso pelo pai em seu castelo.  Não que o pai dele fosse cruel como um Bolsonaro, mas sim porque, muito pelo contrário, ele desejava poupar o príncipe da dor.  Vivia, pois, Gautama, isolado dos velhos e doentes, cercado de riquezas, de belas mulheres e vestimentas.  Respirava os melhores aromas, dançando e cantando num clima de permanente festa.  Porém, intrigado, Gautama queria conhecer o mundo, descobrir outros lugares, frequentar outras festas.  E assim ele secretamente deixou o conforto do palácio e foi para as ruas.  Tão logo o fez, deparou-se com a dor, a pobreza, o envelhecimento, a miséria humana.  Paris não era uma festa e, profundamente comovido, o jovem príncipe abandonaria o palácio, em busca de respostas, do sentido da vida.

 

         E andava eu ainda nesse clima de indagações, quando me chega o volume “Naqueles Tempos da Arte de Quintal, incluindo o livro de poemas Baú de Memórias”, do poeta brasileiro Rogério Salgado, domiciliado na cidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais.  E, entre os bons poemas da obra, encontro “Triste Poema”, em que coincidentemente Rogério afirma: “Não tentem alegrar meu poema / porque ele é sofrido como quem o redigiu.  // A vida não é uma festa / e nem um baile de debutantes / onde se dançam valsas (...).”

 

         Abismado com a sincronicidade, decido que preciso urgentemente ler o livro de Hemingway.  Começo o empreendimento, e, logo nas primeiras páginas, uma surpresa: no original, o título do livro é diferente: “A Moveable Feast”, cuja tradução literal é: “Uma Festa Móvel”.  Pesquisando na Wikipédia, descubro que há uma relação entre o título original e o conceito de “festas móveis”, nos calendários, ou seja, aquelas que, a exemplo do carnaval e da Semana Santa, não ocorrem em datas fixas.

 

         Poucos passos depois, há uma epígrafe geral à obra, em que fica muito clara a associação entre “Paris” e “festa”.  Trata-se de um trecho que autoriza completamente a versão adotada para o famoso título, em mais de uma edição feita para nosso idioma (e também para o francês).  Senão, vejamos: “Se, na juventude, você teve a sorte de viver na cidade de Paris, ela o acompanhará sempre até o fim da sua vida, vá você para onde for, porque Paris é uma festa móvel.” (Ernest Hemingway)       

 

De fato, embora o livro seja uma publicação póstuma e se tenha concluído muitos anos depois do período que retrata, sua fonte são cadernos escritos na juventude do autor.  Fala-nos do relacionamento com sua primeira esposa, Elizabeth Hadley Richardson, com quem viveria de 1921 a 1927 (em 61 anos de vida, Hemingway teria quatro esposas).

 

         Em minhas reflexões anteriores à leitura do livro, eu me perguntava como Hemingway considerara algum lugar do mundo uma “festa”, isto é, como pudera considerar, de algum modo a “vida” uma festa, se, como se sabe, ele dera fim a si mesmo (suicídio com arma de fogo).

 

         Porém, ao constatar que o livro lhe retratava o tempo da juventude, compreendi melhor.  Um aspecto que se evidencia no livro é que, embora fossem tempos financeiramente difíceis para ele (ainda desconhecido, em começo de carreira), havia na pessoa dele (talvez até mesmo mais do que em Paris) uma energia de festa.  No relato autobiográfico, com sabor de uma longa crônica divida em capítulos, sente-se a força pulsante de um escritor em movimento, em constante deslocamento, por uma cidade que era então o coração da cultura mundial.  A “Cidade das Luzes”, a cidade onde nasceu e floresceu o sentimento Iluminista, que hoje, em várias partes, governantes pequenos e obscuros insistem tanto em querer apagar.

 

         Mas afinal, Paris era ou não era uma festa para Hemingway?  Qual o saldo?  Qual a resposta?  Dificulta um pouco obter-se absoluta certeza a respeito da questão, o fato de a obra ter passado por inúmeras interferências editoriais, inclusive com inclusão e exclusão de textos, mudanças na ordem dos capítulos e tudo mais.  Isso se pode depreender da leitura do verbete “A Moveable Feast”, na Wikipédia.

 

Por outro lado, ainda não cheguei ao fim do livro, mas estou quase na metade.  No entanto, penso que por mais que tenham sido feitas alterações, há um tom, um estilo tão permanente ao logo dos capítulos que se torna viável apresentar uma conclusão a respeito.

 

No momento, depois de ter avistado a estátua do General Ney, que serviu a Napoleão, e de ter participado de um insólito encontro entre Hemingway e o escritor inglês Ford Madox Ford (1873-1939),  no frequentadíssimo café La Closerie des Lilas, entendo que sejam consistentes as observações que se seguem.

 

         Apesar da epígrafe introdutória, longe de ser um livro de clima “festivo”, a narrativa é marcada por uma perceptível ironia e não poupa de uma crítica ferina nem mesmo algumas das personalidades ilustres que lhe frequentam as páginas.  De teor autobiográfico, além de Ford Madox Ford (retratado de uma maneira extremamente mordaz), o livro relata os encontros de Hemingway com Gertrude Stein,  Scott Fitzgerald, James Joyce, Ezra Pound e outros.

 

         Em suma, há na obra um misto de encanto e desencanto perante a vida.  Também, perante as pessoas, mesmo as mais intelectualmente consideradas na época. 

 

A “festa”, no fundo, sempre se revela uma jornada dolorosa, conquanto consideravelmente fascinante.  E por mais que seja “bonita, pá” (Chico Buarque), resta no fim sempre uma melancolia.  Ao término, o único sentido que realmente encontramos é, paradoxalmente, a própria e interminável busca de sentido da vida.

 

 

Ricardo Alfaya, Rio de Janeiro, Brasil. Escritor, revisor e livreiro virtual, com 38 anos de atividade literária, cinco livros de poesia publicados e inúmeros textos em prosa, nos mais diversos periódicos impressos e virtuais.  Contato: alfayalivreiro@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


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