ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: A dor não é só de quem tem    

A morte já não chega por telefone através de longas espirais metálicas. Surge quase imediatamente, os corações ligados por nuvens, tudo se guarda em algum arquivo virtual etéreo, embora não em forma de flocos de algodão, nuvens estranhas. As redes embalam notícias de toda sorte, em uma passada de olhos no celular conhecemos perdas quase ao mesmo tempo em que o viajante partiu.

 

Quando eu era menino, imaginava entusiasmado o tempo de falarmos ao telefone vendo as pessoas. Em minha visão infantil, o nosso destino seria em um lugar parecido com o dos Jetsons, um futuro automatizado, de empregadas robôs, trânsito de pequenos carros voadores nas ruas. Mas sonhava com os pés no chão, sabendo ser impossível uma coisa assim tão formidável, imagens e conversas correndo pelos fios concomitantemente. Contudo, havia certo fascínio em acreditar na possibilidade. Afinal, estava tudo no Júlio Verne, o escritor dos submarinos, da viagem à lua, do centro da Terra. Ele me fazia subir em balões e lá de cima a visão era formidável.

 

Meninos eu vi! Acabo de falar com minha mulher, ela está na Finlândia. Nos enxergamos e conversamos wireless. Não foram necessários cabos nem fios. A gente, em close, esteve próximo como se a terra gelada fosse na sala ao lado.

 

Agora meu desejo é outro. Já não tenho mais dúvida. Um dia poderemos ser teletransportados, a bola azul em que vivemos será menor, pequena tal uma bolha de gude. Já não existirão fronteiras, portas, chaves, fechaduras. Qualquer um poderá estar em todo lugar, atravessar paredes, distâncias incríveis em segundos.

 

Mas o texto se desviou, comecei pretendendo falar de dor. Não sei a razão dele ter trazido visões do futuro. Talvez pelo fato de não escaparmos dele A morte e a dor estão garantidas, são companheiras nos espreitando desde sempre, volta e meia certeiras atingem alguém próximo, carregam mais um pedaço de nossa alegria. Aos poucos vamos esvaziando nosso estoque de felicidade. Como viver do mesmo jeito após tantas perdas? A vida nos garante um bom punhado de lágrimas, envelhecer é seguir em direção ao solitário reduto daqueles desprovidos de amor. No fim foram-se quase todos, enterramos cacos de nossos corações. Vamos nos traumatizando, calejados em seguir em silêncio atrás de caixões, tristes, logo seremos nós.

 

Em família as conversas são estranhas. Uns desejam ser cremados, outro preferem o caminho tradicional, lápides, caixões bonitos. Pedem flores, detestam rosas, nada religioso, música. E me vejo tentando imaginar minha preferência. Brinco dizendo não ter certeza de se irei acabar. Talvez por não ver sentido em tal decisão. Nada serei depois de morto, logo não posso ter desejos. Façam comigo... Quem fará? Não tive filhos. E não ter tido filhos me pesa como o diabo agora quando meus movimentos são mais lentos, incômodos nas juntas me atormentam, os ralos cabelos brancos me liberam assentos nas conduções. Não sei o motivo de haver tanta tristeza por isso ultimamente. Há um grande vazio. Como se meus dias tivessem sido inúteis. Talvez o tormento exista pela consciência de não ter amado o máximo possível. Nenhum amor, dizem, se compara ao filial. Então, por consequência,  nunca pude amar meu quinhão máximo de amor. Não deixa de ser um aleijão. É mais solitário chegar ao final do caminho sem ser pai.

 

E nesta crônica triste, poderia aliviar o leitor me desculpando e dizendo para ficarem tranquilos, afinal a dor é de quem tem. Mas não. A dor é de todo mundo. Não existe vivente no mundo capaz de chegar ao fim do caminho em paz, tranquilo, sem deixar para traz alguma pendência insolúvel. Todos choram faltas, erros, esquecimentos. Ser infeliz é mais natural e não existe a possibilidade de voltarmos no tempo. Ou será que isso também será possível no futuro? Teríamos driblado a indesejada das gentes.

 

Se aprendemos a falar no telefone vendo o interlocutor do outro lado, se fatalmente nos desmaterializaremos para nos materializarmos em outro canto, certamente seremos turistas das eras. Meu irmão irá gostar de ver dinossauros. Eu tenho medo de andar de avião, acho que o receio seria igual, ficaria por aqui mesmo. Certo de que a dor não é apenas de quem tem, todos sofremos um bocadinho.

 

Março/2020

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR