ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Wanda Monteiro


Três Poemas    

A Matilha

 

Tensões de face a face
mãos vestidas de esporas _ dedos em riste
carnívoros gestos na exatidão dos golpes
rosnam sua cotidiana covardia

 

no estio da luz a orfandade do sol
sombras adentram pulmões
a melancolia reflui nas veias dos que tentam resistir
são implacáveis as patas do fascismo

 

 _ a matilha avança passo a passo

 

os dias nascem rarefeitos e sequer sustentam
a combustão no peito de quem sonha
as noites levantam muros de silêncio
não há sono _ há vigília acesa respira 
o éter gélido de fantasmas redivivos

 

_ a matilha avança passo a passo

 

a história tem suas raízes arrancadas e abrasadas
na fogueira de negra crista onde sua morte é decretada
nada mais assoma a memória das estações
os rebanhos gozam ao respirar o enxofre exalado por pastores
que proclamam a negação de lutas
e sagas na amplidão do humano

 

_ a matilha avança passo a passo

 

nenhum deus se rebela
todos dormem seu sono lisérgico de abandono e desistência
a besta no cio sai dos confins do tempo e avança suas garras sobre a paz
_ a matilha chega e alinha-se em flancos

 

os rios secam
a vida deixa de ser corrente e caudalosa
na paisagem mortal as margens são áridas
o chão é ocre
tudo é  sequioso
o mal rasteja de coturnos raivosos
sobre leitos cobertos de sangue
de lama
de lodo

 

 

 

        

 

 

A morte esse canto branco de mal intencionada lira

 

 
Nesses dias em que tudo ri e rosna
nessas noites em que tudo sangra e cala
não há como digerir o fruto dos ocasos
são espinhos cravados na garganta
a latejar o pus da voz perdida
Não há como proferir a palavra medo
sem rasgar o céu
sem rasgar o chão
esse chão adoecido de paralisia
e desmotivo
esse chão onde tudo se alastra ao agouro
das sombras
esse chão onde tudo se corrói
ao éter dos desafetos
esse chão onde toda esperança hiberna
em pálpebras fechadas
de olhos cegos de futuro
esse chão fendido na contrafação das forças 
coberto de feridas
órfão de paz

 

O medo não acende a vida
o medo acende a morte

 

A morte é  um enorme silêncio
um canto branco
de mal intencionada lira
que atravessa a vida
deixando-a em pedaços

 

***

 

 

 

 

 

 

Nascente

 

O poeta tem o rumor da palavra
e a visão atenta à imagem
projetada dentro dos olhos

 

essa paisagem nua
guarda a nascente
onde habita o silêncio

 

nesse silêncio
toca a música do poema

 

 

Wanda Monteiro, advogada,  escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas no Estado do Pará, Brasil. A escritora que participa ativamente em vários projetos de incentivo à leitura em várias regiões do país, tem centenas de textos poéticos publicados em importantes revistas literárias_ impressa e digitais_  veiculadas em várias regiões do pais, como Mallamargem, Revista Gueto, Acrobata, Diversos &Afins, Relevo, Lavoura, Zona da Palavra, Vício Velho, Ruídos, LITERATURA BR, LITERATURA &Fechadura, DesEnredos, InComunidade (Lisboa). Escreve como colaboradora, ensaios e crônicas para várias  revistas digitais em defesa do Estado Democrático de Direito e é colaboradora da Revista Alfarrábios RJ.
Obras publicadas
O BEIJO DA CHUVA, 2008, Ed Amazônia;
ANVERSO, 2011, Ed Amazônia;
DUAS MULHERES ENTARDECENDO, 2015, Ed TEMPO _ em parceria com a escritora Maria Helena Latinni;
AQUATEMPO, 2016, Ed Literacidade;
ZONE Território Livre _Em parceria com as escritoras Giselle Ribeiro,  Deolinda Nunes  e com a fotógrafa Tina Gomes, selo independente;
A LITURGIA DO TEMPO E OUTROS SILÊNCIOS , 2019, Ed Patuá.
AQUATEMPO AQUATIEMPO  - Editora 5, 2020

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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