ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


A Uber da manipulação e o gangsterismo na informação: o intelectual comprometido e a acção política    

Numa entrevista a Jürgen Habermas, porventura o filósofo vivo mais influente do Ocidente, o entrevistador perguntou o que pensava da decadência da figura do intelectual comprometido, que teve um papel de relevo na formação da opinião pública ocidental nos anos 60 e 70 do século XX. Habermas respondeu que a deterioração das estruturas do que podemos designar por esfera pública foi determinante para essa decadência.

 

De facto, os intelectuais comprometidos com o progresso (entendido em termos civilizacionais) não podem existir onde já não há público para receber os seus argumentos e pensamentos. Onde a terra por cultivar foi calcinada, onde foi lançado ácido vendido como adubo.

 

O grande inimigo do intelectual comprometido é a fragilidade da esfera pública, da sociedade enquanto ator político coletivo. O intelectual comprometido só sobrevive enquanto espécie viável num meio com certos pressupostos culturais e sociais, num meio que se interessa por política, pela polis, num meio propício ao conflito das ideias. Hoje em dia já não existe esse meio com tradição intelectual que remontava à Grécia. A sociedade das tecnologias da informação, da globalização, do neoliberalismo, destruiu-o, como as alterações climáticas destruíram o ambiente provocando alterações que inviabilizaram a vida de certas espécies.

 

A atual sociedade da informação implantada a partir do Ocidente é a sociedade do vazio. A sociedade da palmilha do telemóvel com um ser atrelado.

 

O efeito fragmentador da Internet deslocou o papel dos meios de comunicação tradicionais, pelo menos entre as novas gerações. Mas a desintegração dos laços sociais já começara antes de surgirem as tendências atomizadoras das novas sociedades. A desintegração da esfera da intervenção pública iniciara-se com o que podemos designar pela mercantilização da atenção, isto é, pelo negócio de atrair consumidores a mercados específicos de ilusão de que cada um é livre de escolher e irresponsável pelas suas escolhas. Um mundo de que o supermercado é o paradigma.

 

Os Estados Unidos, com o domínio exclusivo da televisão privada, são um exemplo chocante da atomização e da destruição de laços que permitem a defesa de uma sociedade contra os seus predadores, os falsos profetas de que basta obedecer para ser feliz e aceder a tudo.

 

Os novos meios de comunicação, as redes e a publicidade subliminar, intensificaram o efeito corruptor de elos de ligação entre indivíduos, de que a alteração de designações é um exemplo, de trabalhadores para colaboradores, de consumidor e utente em vez de cidadão, de uberização, do empresário a título individual, da “estrela”, do “famoso”.

 

O individuo, indefeso, está à mercê de uma modalidade da mais insidiosa forma de mercantilização, cujo objetivo é desviar a atenção dos cidadãos da exploração económica e levá-los a aceitarem serem desarmados das suas defesas. A título de exemplo, os dados dos clientes são roubados sem o seu conhecimento para melhor serem manipulados enquanto consumidores e enquanto cidadãos, como acabamos de saber pelos escândalos do Facebook Cambridge Analytica.

 

Neste processo de perversidade política, o intelectual comprometido é visto como uma ameaça pelo sistema de destruição de laços e de cilindragem das opiniões públicas organizadas para obter produtos normalizados e padronizados. As vacarias e os aviários são os modelos a reproduzir para enquadrar política e socialmente os humanos, e substituem os sindicatos, as comissões, as associações políticas, as assembleias (exceto as de acionistas). A comunicação de massas serve esse objetivo.

 

Lenine deixou a interrogação: Que fazer? O intelectual comprometido deve procurar respostas para encontrar o que é necessário fazer e esse é que é o busílis da questão A grande questão do intelectual é perguntar o que é preciso fazer. Ora o sistema de domínio atual – o neoliberalismo – sabe o que é necessário fazer para manter e aprofundar o seu domínio. Não necessita de intelectuais, necessita de bonecos de ventríloquo – os comentadores avençados e domesticados.

 

A grande manobra, a grande revolução a que assistimos desde os anos 80 e que é designada por neoliberalismo ou globalização, que conduziu à financiarização da economia e à judicialização da política, foi e está a ser levada a cabo através da captura dos meios de manipulação de massas. A revolução neoliberal conquistou a partir de dentro os instrumentos de comunicação, expulsando os intelectuais comprometidos, acusados de falta de isenção, de neutralidade, de marxismo, de militância, e promovendo os seus altifalantes (egos falantes) à categoria de missionários. São estes “meninos de Deus” que surgem nos ecrãs e no espaço da opinião pública e que substituíram os agentes de uma reflexão útil e utilitária.

 

Na medida em que o sistema de domínio, e é disso que se trata nos meios de comunicação e nas redes sociais, pretende definir quais são as condições de adaptação das teorias gerais da sobredeterminância do individualismo às particularidades de uma sociedade concreta, assim vai atribuindo diferentes papéis aos seus instrumentos na orquestra de vendedores com lugar cativo nos meios de comunicação.

 

E assim ganham a vida tipos como Paulo Portas, Marques Mendes, José Gomes Ferreira, Fátima Bonifácio, Rogeiro, Fernandes, Rodrigues dos Santos e tantos outros saídos na sua maioria do ninho de serpente de “O Observador”, que fornece “comentadores” ao domicílio como a Uber fornece táxis e refeições de fast food. Esses títeres com formas de patos ou de robertos que abrem e fecham a boca manipulados pela mão do dono e falam pela sua voz saída das entranhas circulam pelas cadeiras das redações e pelos ecrãs das televisões, sempre os mesmos, caninamente fidelizados.

 

Os movimentos de compra e venda de meios de comunicação, de troca de peões nas estações de televisão fazem parte da estratégia de Steve Bannon, o papa da extrema-direita americana, que depois do sucesso na eleição de Trump anunciou a transferência para a Europa, a fim de organizar uma nova operação política, capaz de unir os partidos populistas do continente europeu. Para atingir esse objetivo criou The Movement (O Movimento) e estamos a assistir aqui em Portugal à promoção dos seus mercenários, substituindo os intelectuais que antigamente intervinham no espaço público.

 

O que, em boa parte, os meios de comunicação social nos apresentam hoje nos seus ecrãs são gangsters, dêem-lhe o nome que quiserem!    

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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