ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Adriana Versiani


Treze canções de amor e morte para Alejandra Pizarnik    

A gaiola virou pássaro, enfaixei suas mãos e coloquei sobre elas pesadas pedras.
Amordacei-as, para que você não sinta dor.

 

Seus dedos tocam a chuva.

 

A jaula virou muro, quebraram-se as xícaras e tenho um milhão
de cacos nos olhos.
Ceguei-os, para que você não sinta dor.

 

Chove e meus dedos tocam os seus.

 

Que a morte seja doce e nos vista de seda.

 

*

 

 

 

 

 

 

Crisálida pendurada no lustre da sala.
A luz de mercúrio não explica.
Noite adentro, asas dançam aos poucos
e vejo soar um ruflar imóvel.

 

*

 

 

 

 

 

 

Seu nome chão, pai e pó.
Mãe, seu nome.

 

*

 

 

 

 

 

 

Você chama.
Arde em mim, Alejandra.
Alejandra,
você,
seu nome.

 

*

 

 

 

 

 

 

Um anjo sangra na sacada e ela,
ferida,
mergulha para dentro do sono.

 

Panos para sempre no varal da infância.

 

*

 

 

 

 

 

 

A ave sobre o banco do jardim
onde nos tocávamos.

 

Havia febre.

 

Sua ausência é essa chuva que me acompanha.

 

*

 

 

 

 

 

 

Ajoelhei-me para desamarrar as botas
e percebi nódoas de sangue no cadarço.
Chamei por seu nome Alejandra,
enquanto procurava por vestígios nas frestas dos tacos.

 

*

 

 

 

 

 

 

Vidro líquido na retina,
corpo coberto de espelhos,
fogo-fátuo,
hálito que perfuma meus pés.

 

*

 

 

 

 

 

 

O corpo lançado ao mar foi feito em pedaços por peixes famintos.
Nunca atraiu as românticas ostras,
que permaneceram fechadas sobre suas pérolas.

 

*

 

 

 

 

 

 

Um animal invade a noite trágica.
Com cólera de fera e sangue nos olhos,
rompe a margem do espelho.

 

*

 

 

 

 

 

 

Acabou o banquete dos mortos.
Na areia do deserto escrevo seu nome:
Alejandra água viva sol aceso no céu da boca.

 

*

 

 

 

 

 

 

Punhos cerrados.
Escorre entre os dedos uma alma delicada de mulher.

 

*

 

 

 

 

 

 

Tenho medo de não saber nomear o que não existe.
Ela não existe.

*

 

 

 

 

 

 

Vem, lua,
Vem sol e eu,
jamais estive aqui nessa fogueira imprecisa.

Alejandra,
meu amor,
me diga.

 

Adriana Versiani dos Anjos (Ouro Preto,1963). Tem diversos livros de poemas publicados, dentre eles: A Física dos Beatles (2005), Conto dos Dias (2007), Livro de Papel (2009), A Lâmina que matou meu pai (2012), Três pedras (2014), Chove (2017). Integrou o Grupo Dazibao de Divinópolis/Belo Horizonte. Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. Foi editora do Jornal DEZFACES. (via “Fórum das Letras”)

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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