ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Antônio Torres


O Discreto Rubião    

Recordo-o num longínquo fim de tarde, talvez em 1974 ou 75. Estávamos num bar, ao fundo de uma galeria escura, nas proximidades da Imprensa Oficial, onde até hoje se edita o Suplemento Literário Minas Gerais, criado por ele e, por muitos anos, considerado a melhor publicação do gênero, em nível nacional. Recordo a cidade: pelo seu clima agradável, só podia mesmo ser Belo Horizonte, em tempo de primavera. Doces ares de uma província já não tão provinciana: um pouco do que a cidade tinha de melhor estava à mesa. Nem todos os bons escritores mineiros haviam partido em busca de mundos mais efervescentes. Ali estavam Oswaldo França Jr., Wander Piroli, Roberto Drummond, Benito Barreto, Adão Ventura, Duílio Gomes, Geraldo Magalhães, tantos, tantos. Até o carioca Sérgio Sant’Anna, que vivia lá, podia perfeitamente ser confundido com um deles. À cabeceira, um mestre – o decano Murilo Rubião.

 

Recordo-o em sua ereta elegância, economia de gestos e sobriedade verbal: lembrava mais um gerente financeiro do que um homem de letras. O autor de O ex-mágico não iria retirar nenhuma mágica da manga. Inútil esperar alguma pirotecnia do contista de O Pirotécnico Zacarias. Ele era tido e havido como precursor do realismo fantástico, muito antes de os hispanos dominarem a área. Fantástico, esse Rubião? Melhor imaginá-lo um ser humano normal, que bebia o seu uísque num copo longo, falando pouco e devagar. E quando pedimos a conta, fomos informados que ela já havia sido paga pelo cavalheiro de paletó e gravata que ia se retirando como chegara: discretamente. E assim, para o visitante, mais uma lenda ia por terra – a de que todo mineiro é mão-de-vaca.

 

Não houve um segundo encontro. Quer dizer, não deu para lhe pagar “a próxima”, insistindo que a outra havia sido dele. Agora só na eternidade, em que a outra havia sido dele. Agora só na eternidade, em que não acreditava. Incrível. Um dia depois da sua morte  chega de BH um jornal com estas suas exatas palavras: “Como abandonei a religião e sou hoje um agnóstico, a minha tendência é não aceitar a eternidade e também não acreditar na morte em vida. Então fico nesse círculo constante entre a eternidade e a vida, sem aceitar essa separação entre a vida e a morte”. Tudo bem, velho Rubião, só que não dá mais para discutir isso com você, numa segunda rodada.

 

Mas não foram só dois dedos de prosa e uma despesa de bar o que muitos de nós ficamos-lhe devendo. Ao inaugurar a coleção Nosso Tempo, da Editora Ática, nos anos 70, com uma tiragem inicial de 30 mil exemplares para O Pirotécnico Zacarias, que se esgotou rapidamente, ele contribuiu para uma mudança de postura editorial em relação aos escritores brasileiros. O recatado Rubião nunca fez alarde disso. Ele morreu como viveu: mineiramente.

 

O texto acima foi publicado no Caderno Idéias, no Jornal do Brasil em 29/09/91

 

 

O escritor brasileiro Antônio Torres é o oitavo ocupante da Cadeira nº 23 na ABL - Academia Brasileira de Letras. Nasceu no dia 13 de setembro de 1940, num distrito de Inhambupe chamado Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no sertão baiano.  Foi repórter no Jornal da Bahia, a partir de 1961, transferiu-se para o diário Última Hora, de São Paulo. Na capital paulista, veio a trocar o jornalismo pela publicidade, tendo sido redator e diretor de criação em várias agências de São Paulo, Portugal e Rio Janeiro. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação do ano. Seu universo romanesco é constituído de cenários rurais, urbanos e da História. É também contista, cronista e autor de uma história para crianças. Sua obra tem tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países, da Argentina ao Vietnã. De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde realizou oficinas literárias, palestras e aulas inaugurais nos campos do Maracanã, São Gonçalo (Faculdade de Formação de Professores) e Duque de Caxias (Faculdade de Educação da Baixada Fluminense).  

Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. Recebeu inúmeros prêmios como em 1987 – Prêmio Pen Clube do Brasil para Balada da Infância Perdida, 1997 – Prêmio hors concours da União Brasileira de Escritores para O cachorro e o lobo. Em 1998 recebeu a comenda de Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês, pelas suas obras publicadas na França até então, Essa terra e Um táxi para Viena d’Áustria. Em 1999 – Selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para Meninos, eu conto. Em 2000 – Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. 2001 – Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9ª. Jornada Literária de Passo Fundo, para Meu querido canibal. 2007 – Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, para Pelo fundo da agulha. Em 2015 – Selo Oficial dos 450 anos do Rio de Janeiro para Meu querido canibal e O nobre sequestrador. Em 2016 - Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro - 2016, concedido pela Academia Carioca de Letras. Tem cinco romances publicados em Portugal (Meu querido canibal, O nobre sequestrador, Essa Terra, O cachorro e lobo, Pelo fundo da agulha), e um conto numa antologia feita pela Teodolito com a Fnac para o dia mundial do autor.

Ronaldo Cagiano, escritor, ensaísta e crítico brasileiro que vive em Lisboa, escreveu sobre a publicação de três obras de Antônio Torres então recém-publicadas em Portugal, em resenha publicada no blog Etudes Lusophones estudesluso@gmail.com, da Sorbonne - e inédita em Portugal:
 “Autor captura a realidade do migrante num país em transe”:
(...) Finalmente chega a Portugal um dos mais importantes escritores brasileiros, cuja obra é um marco na bibliografia brasileira por fazer um recorte da realidade de um país em transformação a partir da realidade de seus personagens, particularmente o migrante nordestino, que em grande marcha desde os anos cinquenta do século passado, deixou o interior agreste e sem perspectivas para tentar a vida e a sorte nas grandes metrópoles.

Já tendo vivido alguns anos em Lisboa na década de 60, Antônio Torres é (re)descoberto em Portugal em dose tripla, com a publicação pela Editora Teodolito, de três de seus principais romances: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo Fundo da agulha”, trilogia que tematiza esse deslocamento geográfico, temporal e psicológico de seus protagonistas, (...)”

O texto acima foi publicado no Caderno Idéias, no Jornal do Brasil em 29/09/91

Bibliografia sobre Murilo Rubião:

http://www.bibliotecapublica.mg.gov.br/index.php/pt-br/suplemento-litelario/edicoes-suplemento-literarios/edicoes-especiais-1/48--48/file

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


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Nuno Baptista


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