ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Sobre o contemporâneo e o inútil    

A ensaísta Paula Cristina Costa referencia numa obra agora publicada (O Crepúsculo do Contemporâneo, Veja, 2020) que ser contemporâneo na literatura, na pintura, nas artes em geral não é o mesmo de ser coetâneo. Por exemplo, o que pode ter em comum um Fernando Pessoa e os muitos nomes que com ele se cruzaram no palco das literaturas nos anos 10 ou 20 do século XX? O que um autor como Cesário Verde que morreu tão jovem em oitocentos e que marcaria definitivamente todo o século XX poético, tem a ver com autores do seu tempo, esquecidos no baú da temporalidade?

 

Aliás, esta questão do contemporâneo conduz-nos a várias reflexões: uma delas é a validade da obra que é consagrada por exemplo nestes anos 20 do século XXI e o que está esquecido nas arcadas da memória. Picasso, Pessoa, Borges, Camões, Cervantes, tantos, são estrondos da literatura mundial. Vivem no Olimpo da grandeza literária.

 

Será que algumas vozes andam por aí ainda por descobrir? Sem dúvida. E no momento presente os apelidados de consagrados que andam a palmilhar todos os festivais da literatura e a arcar com prémios e são enfaticamente tidos como grandes senhores, resistirão ao tempo? Algures, no século XXII ou XXIII quem restará deste século de agora?

 

Tudo muda até a forma como comunicamos para um Outro. Na era das redes sociais quem não tem um perfil nestas plataformas poderá dizer-se que é muito conhecido? Claro que não é obrigatório ser-se um génio e estar na net. Mas os escritores mais jovens posicionam-se na virtualidade e bem pois dão como adquirido o contacto mais fácil através das ditas redes.

 

E as redes sociais com a evolução da realidade 5G resistirão a uma vastidão de novidades do universo virtual? Tudo se encontra em interrogação.

 

O escritor hoje já não é o profeta de Antero ou o Super Camões pessoano. O escritor é uma voz mais esmaecida do que antes.

 

Na obra de Nuccio Ordine, A Utilidade do Inútil, de 2013, o autor trabalha o conceito de inútil e do que é pretensamente útil. Todos convivemos e bem nas margens do inútil. É o inútil que nos dá vida e alento.  Aquele café que tomamos de manhã, aquele sabor de um qualquer chocolate, aquele olhar furtivo que lançamos a alguém na multidão que nunca poderemos sequer conhecer, isso é a legendagem do inútil. Enfim, o prazer da vida nos momentos do quotidiano. Alguém não contém rituais no dia a dia? Pequenas pausas. Pequenos fragmentos de um nada. De um tudo.

 

O escritor não é um utilitário, podendo, contudo, ser ele próprio um consumista desesperado, um quase utilitarista nas suas mensagens implícitas.

 

A própria filosofia é a liberdade do inútil. A filosofia emerge na Grécia antiga na irrupção de uma desconstrução narrativa e de consciência individual ou coletiva. Ainda hoje a Filosofia encontra-se no catapultar de uma inquietação da mente face aos grandes questionamentos do real.

 

Viver, comer, morrer, amar, sofrer, pensar. Poderemos algum dia fugir à morte?  À morte de quem amamos, à morte de nós próprios? Amar é quase uma obrigação nos dias de hoje. Amar alguém é o palco de literatura sem fim, fórmulas de livros de autoajuda.

 

Somos a sociedade do espetáculo e da promoção do sentir. Quando fazemos amor temos de forçar o corpo ao orgasmo.

 

Somos a sociedade da obrigação de ser feliz. A felicidade obrigatória pode ser uma tirania.

 

Temos liberdade no Ocidente. Mas há muitas zonas do mundo sem liberdade, com carências alimentares e de saúde terríficas. Nós no ocidente olhamos de alto para uma grande parte do globo onde a fome, o sofrimento total, as precaridades subsistem juntamente com a miséria. Somos complacentes. Solidários à distância.

 

A Europa é o continente onde qualquer refugiado gostaria de ser acolhido. Temos bons hospitais, temos emprego para fornecer, temos aparentemente dinheiro. A Europa está envelhecida. Precisa de mão de obra jovem.

 

Mas olhamos de viés para os refugiados. Não é só a cor da pele. Somos desconfiados por natureza. A liberdade neste ocidente foi sendo adquirida aos poucos desde a celebérrima Revolução Francesa.  Em África lá vão continuando as guerras e alguns ditadores. Não só por África.

 

O que vale é que gerações de jovens desses países lutam cada vez mais pela liberdade dos costumes e da expressão. Lutam e de certeza irão vencer.

 

Ser contemporâneo e inútil é bom para nós, sentados no sofá da complacência, na nossa imensa abundância.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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