ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Clécio Branco


Fascismos moleculares II    

A Bíblia pode ser um livro perigoso de se ler, principalmente se o leitor estiver desejando o poder. No livro, baseados numa crença e nos valores morais, os homens poderão fazer suas teorias do bem e do mal e legitimar suas ações fundados na “vontade de Deus”. Ela está cheia de cenas de execução, de assassinatos por motivos fúteis e de violência contra a vida. 

 

Livro complexo, onde um rei assassino, ladrão de esposa do amigo e, possivelmente, nos dias de hoje seria condenado, também, por pedofilia - entrou para a história como sendo “o homem segundo o coração de Deus”. 

 

É preciso saber ler esse texto chamado Bíblia. Não é bem um livro de religião, mas pode ser um livro de filosofia. Os autores, prisioneiros de seu tempo, escavam a alma humana e expõem os desejos mais secretos dos homens à luz do dia. Sobretudo quando a questão é o “pecado”. Da mesma forma, os gregos expõem nas mitologias algo similar – a desmensura do desejo. 

 

Não que a Bíblia, e a mitologia grega, aprovem atos contra a vida – creio eu – trata-se de uma forma narrativa. É como se o escritor disse: “é assim que eu vejo”.

 

Gostaria de analisar uma situação especifica em que, o desejo de matar esbarra com o mais puro amor pela vida. É outro momento da Bíblia, depois dos muitos derramamentos de sangue do Antigo Testamento. Vejamos:
“Os escribas e fariseus trouxeram à Sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na Lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? 

 

Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas, Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (São João 8: 3-11).

 

 Elias Canetti [1], pensando o processo de apedrejamento, traça uma marca entre um indivíduo e uma massa, sobretudo quanto ao conceito de massa de acossamento vista por ele em Masse et puissance. Momento em que a moralidade dos costumes pode alcançar toda a sua força devastadora. Também quando a obsessão pela verdade pode operar a transformação da verdade no próprio anti-cristo. São os mesmos processos de transformação do desejo em desejo fascista. Algo se passa no interior dos indivíduos transformando significativamente a ordem do desejo.

 

Se no cristianismo o Cristo morre pelo homem - sendo esta a mais sublime verdade sobre o amor – como poderia o homem matar os seus semelhantes em nome da verdade? Como poderia o Deus de amor aprovar leis de execução por pecados? Não há verdade alguma nessa teoria da verdade que tenta justificar a pena de morte por apedrejamento – como se Deus se ocupasse da vida sexual das pessoas. 

 

Aquela massa de homens da religião - guardadores do sábado - tem todas as características das massas de acossamento de que nos fala Canetti. 

 

A massa tem uma meta a alcançar, o apedrejamento daquele que deve morrer. Neste caso, a massa não tem personalidade, não pensa além de sua meta. Nem mesmo percebe que a ultrapassada lei de apedrejamento não poderia ser executada sem incluir o outro que participou do adultério. 

 

Na massa, a razão perde o seu sentido, todos querem participar - querem jogar pelo menos uma pedra na vítima. Provavelmente, depois de dispersos, irão a um bar da esquina para narrar o grande feito:


- “Você jogou quantas pedras na vadia?”.

 

- “Quantas pedras você acertou no corpo da miserável?”

 

- “Em que área do corpo?”

 

- “Você viu quem atirou a pedra fatal”?

 

-“Eu gostaria de saber, para dar parabéns e recomendar a comissão da igreja para que a promova a um cargo de poder”.

 

Como diz Canetti, “aquelas que acertam têm maior peso e valor”. Sobre a vítima repousa a maior densidade da massa - é  ela que faz a massa ser uma massa. Em torno da vítima a massa reúne toda a sua força, a sua fúria assassina se compacta em torno da meta de matar. 

 

Naquele instante a massa é um corpo que exclui as ações individuais, por isso não há como dialogar com ela. “A vítima nada lhe pode fazer”. Ela foge como um animal perseguido pelos seus predadores. É assim que a massa de acossamento cresce por contágio, no caminho em que ela passa perseguindo a sua vítima muitos indivíduos abandonam os seus postos individuais para se agregarem ao corpo da massa – e ela cresce como massa sob o efeito do fermento. 

 

Eles não precisam saber individualmente sobre a meta da massa. Logo adquirem a intensidade da meta. Perdem os seus braços que passam a ser um único braço a ser estendido na execução da vítima. 

 

A única exigência é que apanhe uma pedra no caminho, de tamanho e peso suficiente para abrir uma ferida, causar uma fratura, romper um vaso, produzir dores. 

 

A massa é composta de homens e mulheres de religião. Talvez por isso, alguém tenha dito que a religião, em dado momento, é a vergonha de Deus. 

 

De um lado a massa que acossa, do outro um individuo acossado e só, diante do corpo da massa, sem nenhum responsável que possa defender. 

 

Os amantes que se beneficiaram de seu corpo se encontram  subsumidos na massa. São agora um só corpo que goza com a execução iminente. 

 

Se a turba a arrancou da cama, no justo momento do ato sexual, ele não deveria estar também ali, para ser apedrejado? 

 

Ainda hoje as religiões fazem esse tipo de concessão ao macho. Não parece ser tão grave quando o adultério identifica apenas o homem. É da ordem cultural. “É da natureza masculina”, dizem a respeito. 

 

Sendo da natureza masculina, não seria lógico que eles adulterassem somente entre eles, homens com homens? Na verdade, o patriarcalismo é a face escondida do fascismo – trata-se do mais poderoso agindo sobre o menor e mais frágil, o poder sobre o despossuído de poder.

 

Voltemos à “mulher adultera” que, supostamente adulterou sozinha. O crime foi o ato que envolve a traição. Quem com ela se deita para fazer amor está traindo alguém.  Nesse caso, a sociedade religiosa e civil autorizava a sociedade a formar uma massa de assassinos. Ninguém precisava se preocupar com punição – “se deus existe, tudo é permitido”. O fato de ter ido para a cama com alguém, legitimava o apedrejamento – esse tipo de execução era feita em praça pública. A justiça divina misturada ao Estado.  

 

Canetti diz que uma das características do matar coletivamente é levar o condenado a um campo aberto para executá-lo diante do maior número de olhares possível. 

 

“Todos participam do ato de matar, atingido pelas pedras de todos eles, o culpado sucumbe. A ninguém se delegou a tarefa de executar; a comunidade inteira mata. As pedras a representam: elas são a marca de sua decisão e de seu ato” (CANETTI, 1966, p. 50). 

 

Uma massa é convicta de seus propósitos. Eis todo o perigo das convicções dogmáticas, mata-se por convicções. São elas que invertem o sentido de toda lógica da vida. É, também, quando ideias adquirem o poder de subjugar a vida. 

 

A vida sob a supremacia das ideias se refugia numa máquina de morrer. Ideias passam a mandar na própria vida que se amofina na vergonha de viver. Os condenados da massa de acossamento costumavam dar razões aos seus algozes. Nesse momento, os indivíduos passam a desejar a própria submissão.

 


 [1]CANETTI, Elias. Masse et puissance. Éditions Gallimard, 1960.

 

 

Psicólogo, teólogo e mestre em filosofia. Clécio Branco é professor de pós-graduação em Psicologia Clínica e professor da Escola de Administração Judiciária do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde também coordena de Projeto de Saúde e Qualidade de Vida da Mútua dos Magistrados. 

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


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