ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Deema Mahmood


Poemas    

A Butterfly

 
As a raw butterfly, I float at home
In the time of the kitchen
Cutting a piece of it for poetry that is beyond curtain
Nobody knows that a poem melted down from me
Whereas washing dishes
 A storm of words swept me while cooking okra
I sometimes, don't have any explanation for the momentum covering me while grilling fish

 

Like pendulum, the stanzas vibrate in my head
I want them likewise, swinging and stressing
Not to be polished by the vapor of frying and the smell of cleaning powders
May I wrap them in  a towel, not to be wet by moisture while cooling in the fridge
Scarcely, I hurried to write down my stanzas
That spouts from the kitchen, on the mobile notes

 

When my home day ends, I look at the mirror
Touching my eyelashes, eyes, lips and my roses
So, I have rapture from my lissome completion

 

The idols of poetry that tempted me at the kitchen,
Lurks in my braid and refuses to get out
I try to remember but in vain, as if fell in the soup plate
Of my husband who swigged it saying:
Explain to me why some of your food is more delicious than others

 

In other times,
He winks me flirting at the mirror
Pulling out the poetry stanzas from my gypsy hair
Printing them with his music on my lips
Then, I want to step to complete the poem!

 

Translated by  Mary Madec

 

 

 

 

 

 

Uma Borboleta

 
Como uma borboleta crua, flutuo em casa
Na hora da cozinha
Cortar um pedaço dela para a poesia que está além da cortina
Ninguém sabe que um poema  se derreteu por mim
Considerando que ao lavar a louça
Uma tempestade de palavras varreu-me enquanto cozinhava quiabo
Às vezes, eu não tenho nenhuma explicação para o momento que me cobre enquanto grelho o peixe



Como um pêndulo, as estrofes vibram na minha cabeça
Quero-as da mesma forma, balançando e stressando
Não deve ser polido pelo vapor da fritura e pelo cheiro de pós de limpeza
Posso envolvê-las numa toalha, para não serem molhadas pela humidade enquanto esfriam na geladeira
Mal me apressei a escrever as minhas estrofes
Que jorram da cozinha, nas notas móveis


Quando termina o meu dia em casa, olho para o espelho
Tocando meus cílios, olhos, lábios e minhas rosas
Então, tenho arrebatamento  com a minha  fina conclusão


Os ídolos da poesia que me tentaram na cozinha,
Espreitam na minha trança e se recusam a sair
Eu tento lembrar, mas em vão, como se tivessem caído no prato de sopa
Do meu marido, que girou dizendo:
Explica-me por que alguns alimentos são mais deliciosos que outros


Noutros momentos,
Ele pisca-me o olho flirtando no espelho
Puxando as estrofes de poesia do meu cabelo cigano
Imprimindo-as com sua música nos meus lábios
Então, eu quero dar um passo para completar o poema!

 

Tradução do inglês por HENRIQUE DÓRIA

 

 

 

 

 

 

The Death of a Poet


I heard that a close-by poet crouched inside the mouth of death
I don’t know him
But the squeaking that smacked my nerve ends
Alerted me to the void around
Perhaps because death sensors in my imagination gleaming in all directions showed no mercy.
They were loading children, teenagers,beautiful women,
Paupers, vendors, old people, lovers, and gays for free
And dumping them into junk yards full of skulls, epitaphs, and skeletons
While cutting white surrender flags into shrouds, and silly coffins


*


A poet dies
That means the curve of the street corner will be sharper
That bullshit will pour out of the belly of indifference
That more holes and garbage will accumulate in the back street
That pine and oak trees will bend
That the executioner will increase the number of guillotines getting ready for the massacre


 *


When the poet dies the wall on which jasmine sleeps
will fall 
The maysaloon will wither, doves will cry
Seas will pour into rivers
Vine tree will yield raisins
And young maidens will awaken from love dreams


*


The poet overflows with love that exceeds life
Life can’t suffer him, so it mutilates itself.
A little while in the coffin,
And he’ll seep into the eye of the sun
After hiding it from the eye of death
And hiding death from death itself.
He’ll gather its light into balls that he’ll roll over the earth
So that others dance with butterflies on their way to death!

 

Translated by Nordddine Zouitni

 

 

 

 

 

 

A Morte dum Poeta

 

Ouvi dizer que um poeta próximo se agachou dentro da boca da morte
Eu não o conheço.
Mas o guincho que bateu no terminal dos meus nervos
Alertou-me para o vazio em redor
Talvez porque os sensores de morte brilhando na minha imaginação em todas as direções não mostraram misericórdia.
Estavam a carregar crianças, adolescentes, mulheres bonitas,
Pobres, vendedores, idosos, amantes e gays de graça
E a despejá-los em ferros-velhos cheios de crânios, epitáfios, e esqueletos
Enquanto cortavam  rendidas bandeiras brancas em mortalhas, e caixões tolos


*


Um poeta morre
Isso significa que a curva da esquina será mais nítida
Que a estupidez vai sair da barriga da indiferença
Que mais buracos e lixo se acumularão na rua dos fundos
Que o pinheiro e o carvalho vão dobrar
Que o carrasco aumentará o número de guilhotinas preparando-se para o massacre


*


Quando o poeta morre a parede em que o jasmim dorme
vai cair
As maias irão murchar, pombas vão chorar
Mares vão derramar-se nos rios
A videira vai dar passas
E as jovens donzelas despertarão dos sonhos amorosos


*


O poeta transborda de amor que excede a vida
A vida não pode sofrer com ele, então mutila-se.
Pouco tempo no caixão,
E ele vai infiltrar-se no olho do sol
Depois de escondê-lo do olho da morte
E de esconder a morte da própria morte.
Ele vai reunir a sua luz em bolas que vai rolar sobre a terra
Para que outros dancem com borboletas a caminho da morte!

 

Traduzido do inglês por HENRIQUE DÓRIA

 

 

 

 

 

 

Fetus's  Becoming

 
I become a fetus
 roll on myself like a ball
This remembering  feeds me  
 I get high on the musk
Of  the umbilical chord
The melded odours of my parents

 

I bask in my beginnings
My mother and I and I as one 
 As we orbit our  universe

 

Now the clear water sits
On the  sediment
My true self without mask or gayle
Free from algay  and colours
I arise without myths and  predictions
Free to become.

 

Translated by Suha Al Sebaei    

 

 

 

 

 

 

Tornando-me um Feto

 
Tornei-me um feto.
 rolar sobre mim como uma bola
Esta lembrança alimenta-me  
 Fico pedrado com o almíscar.
Do acorde umbilical
Os odores misturados dos meus pais

 

Regressei ao meu princípio
A minha mãe e eu como um só. 
Como se orbitássemos o nosso universo

 

Agora a água límpida senta-se
No sedimento
O meu verdadeiro eu sem máscaras ou bonecas
Livre de gelatinas e cores
Eu surjo sem mitos e previsões
Livre para me tornar.

 

Traduzido  do inglês por  HENRIQUE DÓRIA

 

 

Deema Mahmood
Poeta egípcia.

Nasceu em 1972.

Licenciatura em Ciências da Computação e Estatística, 1993.

Professor assistente durante muitos anos nos departamentos de Ciências da Computação, Matemática e Estatística bem como na Faculdade de Educação do Cairo, e na Faculdade de Ciências da Saúde em Abha, Arábia Saudita.

Publicações:
- Tranças de Espírito (Poesia), Dar Al-Adham, Cairo, 2015.

- Eu Procuro Confrontos com o Horizonte  sobre um Violino (Poesia), Dar Al Ain, Cairo, 2017.

- Um terceiro livro de poesia em andamento

Muitos dos seus poemas foram traduzidos para inglês, francês, espanhol e português e publicados em várias antologias nessas línguas.

Participou também em muitos eventos culturais e de poesia nacionais e internacionais.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


FICHA TÉCNICA


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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