ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista com Alexandre Brandão    

1 -) Numa metáfora do futebol, sei que você é botafoguense e que o meio de campo do time em 80 tinha um tal de Mendonça, craque de bola, como foi pensar nesta cancha, insinuante, para montar seu primeiro livro de poemas?

 

         Nunca fui bom de bola, mas, em sonhos de menino, ou eu era o camisa oito, um Gérson de passes milimétricos, ou o sete, nem tanto um envergador de adversários do naipe do Garrincha, mas um ponta improvisado, o Jairzinho da Copa de 70. Gérson e Jairzinho eram os caras da distribuição, do pensamento do jogo — e o Mendonça foi, num nível mais baixo, desses também. Aí, se trago para a poesia (para a escrita de modo geral), te digo que, sim, na etapa de elaboração do livro, quando fui dar cara a ele, fui esse meio de campo das antigas, ou seja, aquele que não é de dar andamento muito rápido ao jogo, mas de pegar a bola, cuidar dela um pouquinho e, só depois, lançá-la ao atacante metido entre os zagueiros.

 

Saindo da metáfora, a montagem do livro foi o encontro com material que existe nos meus arquivos há mais de 30 anos (os primeiros poemas são de meados da década de 1980, auge do Mendonça), mas foi também o exercício de produzir coisas novas (em 2019, escrevi muitas poesias). A montagem foi então o momento de sair um pouco do material bruto (segurar a bola) e pensá-lo com distanciamento (o Gérson costumava dar dois passinhos para trás antes de lançar a bola). Como organizar essa joça? Como aquele poema escrito em São Paulo, num momento de plena solidão (“Looking for others”), pode coabitar o livro com poemas sobre milhos e pipocas? A delícia da elaboração deste livro (e dos livros de modo geral) foi criar essa arquitetura e antever que o Pelé não estava entre os zagueiros, mas, se a bola fosse lançada lá entre aqueles brutamontes, ele apareceria e se encarregaria de fazer o gol.


        
2-) A famosa frase “A vida imita a arte” (obra). Estilo de vida e estilo de escrever prosódia de verve de vida, neste emaranhado de vivências no Rio de Janeiro, como a cidade que você habita há 40 anos foi sedimentando tua escrita poética? Você acredita que uma cidade pode servir de inspiração, ser uma musa para alguém?

 

         A cidade é fundamental, é musa inconteste. A cidade está em todos os meus livros. No caso das crônicas, isso é até uma obrigação, pois não há crônica que não fale de onde se vive. Mas meus contos exploram muito as várias cidades em que morei (Passos, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo). A parte final de “Estão todos aqui” (livro de 2005) é uma novela sobre jogadores, traficantes light e frequentadores de zona boêmia; era minha Passos com eco de histórias que ouvi e de personagens que conheci. Nesta novela, lá pelas tantas, há um capítulo que é uma ode à cidade (um poema em prosa, eu acho). No livro de poesias que estou lançando, as minhas cidades transitam por ele, e o Rio de Janeiro, onde estou há 40 anos, impera, é o protagonista. Nas primeiras versões do livro, já pensado como o ponto alto de minha celebração por ser um carioca adotado, não havia um poema diretamente dedicado à cidade. Um dia, comecei a escrevê-lo e saiu o último do livro, “Senhora do tempo, me conceda um minuto?”. Nele me equilibro entre a memória e um diálogo com o tempo, com a passagem do tempo. Não deve ser o melhor poema do livro, mas, para mim, é muito especial, talvez seja o que estou mais diretamente presente, mais eu do que lírico. 

 

3-) Observar um poema seria um ato de provocação? E por quê? Olhar e escutar te ajudou na lapidação de um eu lírico?

 

         Observar um poema? O que é isso, Fernando? Eu observo é o trânsito e a juventude na rua.

 

         Mas, pensando bem, taí, gostei, observo poemas. Como? Lendo-os, claro, mas também, inconscientemente, elaborando-os. O poema, antes de nascer, é um encontro com um desconhecido na rua, é uma trombada sem vítima a que se assiste ao descer a Voluntários da Pátria para ir encontrar com os Escritores de Ressaca. Neste sentido, o que se faz é uma observação inobservada, distraída. A observação é a excitação que nos leva à musa.

 

         Se é uma excitação, é uma provocação, pois os poemas respondem sempre a uma provocação, venha de dentro, da memória, das impossibilidades, venha de fora, da trombada, da trovoada, da beleza da juventude que passa indiferente ao meu lado. Por fim, acho que está claro que o olhar comanda tudo, mas a audição também. Ouço vozes, Fernando, e não as silencio.

 

4-) Há uma dialética interessante no seu ato de escrever. Pois você de um jeito como um bom brincante, reúne, rearranja formas e estilos que podem ser próximos, mas que na tua mão ganham uma vivacidade e um colorido, pois você, como diz um bom mágico, amalgama a coisa toda. Fale disso.

 

         Eita pergunta complexa, vou pedir ajuda aos universitários.

 

Deixa eu te dizer: sou um sujeito intuitivo, no campo artístico, meu primeiro impulso não é racional. Estudei economia, é minha formação profissional. Estudar economia (sem ser com viés marxista, que é crítico e menos preocupado com a “salvação” da economia capitalista) é um treinamento para ser ministro da economia. O tempo todo os professores estão armando cenários que você, estudante, candidato a economista, deve entender e para os quais deve dar uma solução. Exige muito claramente um treinamento e um posicionamento. Uma política pode muito bem beneficiar certo grupo de pessoas em detrimento de outros. Assim, você tem de estar embasado teoricamente e ciente de suas posições político-sociais. Para mim não é fácil ser economista, ou este tipo de economista; é uma exigência constante, terrível.

 

Bem, por conta dessa espécie de cobrança, uma pressão de fato, fui, enquanto me aproximava da literatura, pensando que nela o espaço seria mais livre, e eu não teria que me sujeitar a influências, nem me preocupar com a consequência do que eu produziria. Ainda que hoje não concorde muito com esse ponto de partida, sou um cara que escrevo à brinca, de mãos dadas com a curiosidade. Meus poemas buscam sempre um ritmo, acho que é isso. Nunca estudei teoria, não me lembro nem das aulas básicas, aquelas em que nos ensinavam sonetos, versos de pés quebrados, nada disso. Assim, trabalho com duas forças: minhas inobservâncias e a ideia de dar a elas um ritmo.

 

Será que respondi? Onde estão os malditos universitários? Já sei, devem estar naquela tarefa interminável de destruir o forró e o sertanejo.

 

5-) A companhia de um bom verso é igual de um bom amigo? Mesmo em "Barcerias", que poderia se ater só ao cenário do bar, parece que ali há convívio social. Você curte?

 

         O verso, a literatura de modo geral, é uma boa companhia. Há livros que valem mais que mil conversas. Posso citar clássicos como “Os miseráveis”, que acabei de ler, e outros escritos mais recentemente: “A marca humana”, do Philip Roth, ou, para dar um exemplo atual e brasileiro, “Mágica para cegos – contos e contracontos”, do Marco Túlio Costa. Com esses livros há diálogos em dois níveis (pelo menos). O que se procura ao se sentar com um amigo no botequim: falar e ouvir histórias; e o que nós, escritores, queremos de outros escritores: dialogar, sem falar nem ouvir, apenas lendo e sacando as técnicas usadas, as grandes reviradas na trama, as frases que nos dão inveja.

 

         Mas a vida não é feita só de livros, então a gente precisa de bons amigos de carne e osso. E esses amigos, ainda que não reservemos a eles nenhuma de nossas camadas profundas, ainda que sejam apenas amigos da superfície, são fundamentais. Amigos mais livros nos garantem uma boa parte da estabilidade emocional — que se completa com o amor em suas várias vertentes, do erótico ao fraterno.

 

         Ora, ora, ainda não falei de “Barcerias”. É um poema antigo, escrito lá nos anos de 1980. Nessa época, eu vivia praticamente em botecos. Fui criado em botecos, comecei a beber muito cedo. No interior, beber fazia (acho que ainda faz) parte do processo de crescimento masculino. Uma grande bobagem, mas fui criado assim. Essa vida botequeira me levou ao poema, que começa assim: “Uns vão à missa, nós, ao bar”. Veja, ele esbarra no Pai Nosso, brinca com sua estrutura. Por sorte, não sou muito conhecido, ainda não fui ameaçado por essa “apropriação”. Seja como for, logo que enviei um conjunto de poemas ao Suplemento Literário de Minas Gerais, recebi a notícia de que “Barcerias” e outros dois (“Looking for others” e “Musa”) seriam publicados. No retorno, vinha uma anotação no “Barcerias” chamando a atenção para isso que você aponta: o alcance social do poema. Pois o boteco é um lugar de convívio (e do diálogo e da amizade, ainda que rasteira), normalmente de um convívio muito heterogêneo, pois se juntam (e se atritam) pobres e ricos, machões e gays; quer dizer, assim era nos botequins do interior de Minas que eu frequentava e que me levaram a escrever o poema citado.

 

6-) Você poderia dizer-se politicamente que é um demolidor de muros? A ironia não escolhe lados, ela prefere a fraternidade do riso. Ou seria uma terceira via? Como isso se dá no seu livro?

 

         Sou um sujeito irônico. Acho que sou mesmo um tanto quanto cínico. Isso então se esparrama pela minha literatura. Meus contos, por exemplo, são meio duros, ainda que tenham humor, um humor absurdo. Nos poemas, acho, encontro certa leveza. Por que é assim não sei. É assim. Pode ser que a cobrança rítmica do poema peça a leveza. De todo jeito, não escrevo poema-piada, arranco aqui e ali um sorrisinho do leitor. Ou pelo menos daquele leitor que é adepto do camuflado, do indireto. Sou desses.

 

         Isso não quer dizer que trabalhe apenas no nível da ironia, às vezes resvalo para emoções mais pungentes. Penso nos poemas dedicados a meu pai e a minha mãe, aos poemas políticos ou que tratam de questões tão urgentes (a violência policial no Rio de Janeiro, a tragédia climática).

 

         Agora, Fernando, você dizer que sou um demolidor de muros... Nesses tempos? Você está querendo me meter em encrenca. No máximo, quebro uns tijolos e abro espaço para um olho espiar dali o mundo de lá. Um buraquinho num muro e um olhar curioso podem muito. É isso que eu faço: buraquinho nos muros. 

 

7-) Como foi a leitura do original por seus compadres?

 

         Puxa, isso foi lindo, todo o processo foi lindo. Não acredito que a escrita seja um processo solitário do início ao fim. Se fosse assim, para que haveria o leitor?

 

         Então, sempre que escrevo, busco um diálogo, um aconselhamento. E vou elegendo amigos no vai da valsa. No caso do “Nenhuma poesia: uma antologia”, meu primeiro livro de poesia, editado pela Patuá, a coisa foi se consolidando aos poucos. Tudo começou na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto em 2019. O homenageado local foi o Gilberto Abreu, escritor que também é de Passos, mas vive em Ribeirão há muitos anos. O pessoal da feira perguntou como ele queria a homenagem, e ele disse que gostaria de promover uma conversa com outros escritores de sua cidade natal, a nossa Passos. Então fomos convidados eu, o Alexandre Marino, o Marco Túlio Costa e o Antonio Barreto (que não pôde ir, infelizmente). Fizemos uma mesa linda, realmente linda. O Gilberto, o mais velho de nós, tem uma história incrível, foi um dos que sofreram com a ditadura. Ele falou sobre isso, contextualizou suas opções, nos falou de sua trajetória de professor (ele foi meu professor, mas, por conta de questões políticas, saiu no meio do ano e mudou-se de Passos para Ribeirão Preto), de vereador e, claro, de escritor e compositor.

 

         Terminada a mesa, e ainda emocionados, nos refugiamos em um bar (as barcerias continuam). Mesa de bar, você sabe, é lugar de conversas uníssonas e dissonantes, ou seja, numa hora nos concentramos num só assunto, noutras se formam vários papos paralelos. Numa dissonância, eu, o Alexandre Marino e a Nádia Monteiro, companheira do Alexandre, minha amiga de muito tempo, começamos a falar de poesia, e eu tive a ideia do livro. Imediatamente, eles se comprometeram a lê-lo e dar opiniões. E assim fizeram. Digo que foi uma oficina literária de graça e por e-mail. Aprendi muito com a leitura dos dois.

 

         Antes de receber o retorno desses primeiros leitores, eu pensei: o xará e a Nádia são muito amigos, devo procurar outras pessoas mais distantes. Me armei da maior cara de pau e escrevi para a Adriane Garcia e o Alberto Bresciani, dois poetas que admiro muito, e pedi que dessem uma lidinha (papo de mineiro, sabe cumé?), nada muito profundo, que me dissessem se o livro me faria passar vergonha. Tive deles outro retorno incrível. O Bresciani me mandou todos os poemas com um comentário.

 

         Ou seja, tudo que eu queria aconteceu. Encontrei parceiros, gente que se alia a um atormentado que está lutando com sua produção literária e seus demônios. Aí cutuquei com vara curta o editor Eduardo Lacerda, e ele disse sim. Por fim, na hora de decidir sobre a capa do livro, o poeta, cancioneiro, artista plástico e bom de copo Leonardo Almeida Filho — que já havia me ajudado em um poema do livro (“Entre coelhos e tartarugas”) — postou um quadro que acabara de pintar. O Eduardo achou lindo. Eu achei lindo. Perguntei ao Eduardo: dá uma capa? Deu.

 

         Livro para mim, só com parcerias. E barcerias.

 

8 -) Há um tom em você, em suas incríveis variáveis, pela palavra de pront(o)a, aquele arremate de bate pronto, tipo chapa... tipo voleio do futebol. Como você gosta de pegar (n)a palavra?

 

         Gosto de pegar as palavras pela boca. É isso mesmo. Enfio o dedo na boca da palavra, seguro e puxo a língua dela pra fora. E aí eu digo: então, palavrinha, qual é a tua?

 

         Você sabe que as palavras são dissimuladas, fingem que dizem uma coisa e dizem outra. Sendo assim, não se pode brincar com elas. É isso que faço, não brinco com elas para poder brincar com o seu uso. Ou até para não brincar. Pois a palavra que vai ao poema, depois dessa conversa séria, pode servir a um encantamento ou a um espanto.

 

         Presto mais atenção à sua pergunta e me toco que voltamos ao futebol, ao voleio. O voleio, na realidade, é um improviso diante da necessidade. Ou se joga na bola em voleio ou se perdem a bola e a chance do gol. O poema é bem isto: um chute que não consta entre as soluções fáceis.

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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