ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

Gustavo Cerqueira Guimarães


A poesia "dolabélica", de Marcelo Dolabela    

Marcelo Gomes Dolabela foi um destacado poeta de Minas Gerais a partir do último quarto do século XX, precisamente desde a Poesia Marginal. Nasceu em Lajinha, a 350 km da capital, na região do Caparaó, divisa com o Espírito Santo, no dia 17 de setembro de 1957.

 

Marcelo graduou-se em Letras pela UFMG, mas, antes, quase se formou em Veterinária, pela mesma universidade. Desde então, foi professor de disciplinas ligadas ao campo das letras em variados cursos do ensino superior, com destaque para sua atuação no UNI-BH, entre os anos de 1992 e 2009. Tornou-se mestre em Educação, Administração e Comunicação, em 2001, pela Universidade de São Marcos, com o trabalho intitulado "A poesia do slogan". Iniciou o doutorado em Estudos Literários pela UFMG, mas se desligou do programa.

 

Atento, já em 1981, Glauco Mattoso, um dos maiores poetas e conhecedores da poesia de língua portuguesa, em seu clássico livro "O que é Poesia Marginal", incluiu o Dolabela como uma voz especial desse movimento poético, em Belo Horizonte, nos anos 1970. Para Mattoso, “a palavra ‘marginal’, sozinha, não explica muito. Veio emprestada das ciências sociais, onde era apenas um termo técnico a especificar o indivíduo que vive entre duas culturas em conflito, ou que, tendo-se libertado de uma cultura, não se integrou de todo em outra, ficando às margens das duas. [...] Na verdade, ‘marginal’ é simplesmente o adjetivo mais usado e conhecido para qualificar o trabalho de determinados artistas, também chamados ‘independentes’ ou ‘alternativos’. [...] Dizer que um poeta é marginal equivale a chamá-lo ainda de ‘sórdido’ e ‘maldito’. [...] Em suma: a poesia não é mais aquela coisa ‘séria’. A própria palavra ‘poesia’ deixa de ser intocável para virar objeto de jogo e brincadeira” (1981).

 

A Poesia Marginal (ou Geração Mimeógrafo) foi um movimento sociocultural de artistas (Marcelo Dolabela, em Minas Gerais, Nicolas Behr, Distrito Federal, Ana Cristina Cesar, no Rio de Janeiro, Ulisses Tavares, em São Paulo etc.), que consistia, dentre outras ações, em publicar experimentos no campo das artes literárias de conteúdo político. Assim, às margens do mercado editorial brasileiro, contra a censura imposta pela ditadura militar à época, os poetas publicavam plaquetes, cartazes, cartas, manifestos, folhas volante, livros de artista, grafismos etc.

 

Marcelo, o dolabélico, publicou mais de 50 livros, com tiragens pequenas, em sua maioria, por isso circulou tão pouco, preferiu assim. Dentre eles, "Coração malasarte" (1980), "Radicais" (1985), "Poeminhas & outros poemas" (1994 e 1998), "Amônia" (1997), "Letrolatria" (2000), "Batuques de limeriques" (2005), o excepcional "Lorem Ipsus: antologia poética & outros poemas" (2006), que, como Carlos Drummond, condensa e reflete 30 anos de sua trajetória literária, "Trevas daltônicas" (2015), "Guilherminas" (2015), "Duchas Duchamp" (2015) e o belíssimo "Acre Ácido Azedo" (2015). Tinha uma consciência assustadora da grandeza de sua obra, um "total controle", e era avesso às trocas baldrocas do meio literário. Isso ele me ensinou com maestria ao longo de quase 30 anos de encontros pelos bares belo-horizontinos e lajinhenses, foi uma referência ímpar. Que bom chegar a Belo Horizonte e (re)conhecê-lo – um poeta "fracassado" reconhece o outro. A capital foi bem mais acolhedora.

 

Marcelo lançou seus dolabelismos também em direção à música, foi letrista, vocalista e fundador da banda Divergência Socialista, “Christiane Keller” (1986) e “Lilith Lunaire” (1990) são, sem dúvida alguma, dois dos álbuns mais importantes da cena do rock belo-horizontino. John Ulhoa, do Pato Fu, Mário Santiago, Silma Dornas, Rubinho Troll, Gato Jair e Fabiane Andropov são alguns dos integrantes que passaram pela banda.

 

Dentre outras atuações artísticas, Dolabela publicou textos ao longo de muitos anos no jornal "Hoje em Dia" e escreveu roteiros para os cineastas mineiros Patrícia Moran, "Maldito Popular Brasileiro: Arnaldo Baptista" (1991), e Rafael Conde, com destaque para o premiado "A hora vagabunda" (1998), um dos curtas-metragens mais importantes do cinema brasileiro.

 

Além disso, o lajinhense foi um perspicaz colecionador e pesquisador da produção artística independente de Belo Horizonte, de poesia e de música brasileiras, autor do seminal livro "ABZ do Rock Brasileiro" (1987) e curador da exposição "Rock Brasileiro em 1000 discos", 2012. Marcelo deixou um arquivo/patrimônio de valor incalculável, em todos os sentidos. A qualidade e força de seu trabalho é muito grande e o Brasil precisa, sem pressa, conhecê-lo melhor.

 

Sendo assim, torcemos para que sua vastíssima produção artística seja sistematizada e chegue ao alcance de todos.

 

Saravá, meu, íntimo, poeta lajinhense! Meu poeta mais dadá de Beagá... Deixe, deixe estar. Agora, é com a gente. A regra foi sempre clara/escura: poesia neles! Eles não suportam poesia.

 

Confidências de lajinhense
(Marcelo Dolabela)

 

não escrevo mais
oh musas as musas
me abandonaram

 

agora que preciso tanto
que tenho tempo
o Costa Lima ao alcance das mãos

 

todas as rimas
todos os hemistíquios
todas as sintaxes

 

palavras não me faltem
olhem para as estantes
os dicionários riem com desdém

 

nem um haicaizinho
uma risível quadra
um soneto em ABAB ABAB CDC DCD

 

não vou me enganar
poema de ontem é bom
mas é bom de ontem

 

pedem-me um poema
como pediram a J. C.
mas falta-me coragem

 

de fingir escrever
de fingir escrever um poema
de fingir escrever um poema sobre o poema

 

estou morto
os parentes ligam por precaução
oferecem ajuda

 

não sou mais poeta
não tenho parentes
sou mal agradecido

 

talvez dedicar-me à tradução
à edição
aos tipos móveis

 

traduzir pra quê
não sou mais poeta
oh maldito Gutenberg

 

valei-me coração das trevas
valei-me coração materno
valei-me coração vagabundo

 

eu que não fui pra Abissínia
eu que não escrevi um poema pra Virgem Maria na areia
eu que não sobrevivi a um naufrágio

 

saibam todos
amar não me faz mais poeta
odiar quem dera

 

uns tomam absinto
outros cocaína
eu me intoxiquei de saudade

 

vá embora
leve suas coisas e suas joias
me deixei morrer

 

quis ser Werther mas falhei
quis ser Torquato e falhei
quis ser Wladímir falhei

 

a poesia sabia que eu era fraco e me abandonou
a poesia sabia que eu não tinha dinheiro e me abandonou
a poesia sabia que os inimigos são tantos e me abandonou

 

às portas de Pasárgada
em uma cidade de funcionários
em um desfiladeiro longe do monte Fujiyama

 

não há fisioterapia
não existe tempo lógico
não tem remédio e nunca terá

 

é difícil e não se acostuma
a rolar na cama
a dizer tanta coisa quando ama.

 

(2002)

 

Bibliografia:

 

Do livro "Lorem Ipsus: antologia poética e outros poemas" (2006), p. 171-173.

 

Para saber mais sobre Marcelo Dolabela:

 

A Poesia Marginal em Minas Gerais (Entrevista com Dolabela): https://www.youtube.com/watch?v=RU2zjnb10CQ  - 29’30” a 53’00”.

 

Marcelo e uma de suas influências artísticas (Centenário do Dadaísmo, Programa Agenda, 2016): https://www.youtube.com/watch?v=dZ2qxdaDKWc .

 

Sobre o Divergência Socialista (Entrevista com Silma Dornas): https://www.youtube.com/watch?v=EFDR6VTBEhs .

 

Marcelo Dolabela no programa Vereda Literária: https://www.youtube.com/watch?v=iJhBi1AvLmg .

 

Breve história (Entrevista com Dolabela no Maletta, onde se sentava constantemente, merece uma estátua, né?!): https://www.youtube.com/watch?v=cNSkYs6GGyY .

 

"A hora vagabunda" (1998), de Rafael Conde, com roteiro de Marcelo Dolabela em parceria com o diretor: https://vimeo.com/20714378 .

 

Sobre a exposição "Rock Brasileiro em 1000 discos", 2012 (https://www.youtube.com/watch?v=sShfZobGS3M ).

 

Clipe do Divergência Socialista: https://www.youtube.com/watch?v=Zq7FNY12aIU .

 

 

Gustavo Cerqueira Guimarães é doutor (2013) e mestre (2005) em Estudos Literários pela UFMG, com trabalhos sobre Al Berto e João Gilberto Noll. É graduado em Psicologia (1999) e Letras (2012) pela PUC-Minas. Realizou pesquisa de pós-doutorado em Estudos Literários/UFMG, PNPD-Capes (2013-2018). Publicou o livro de poesia "Língua" (Selo Editorial, 2004) e a vídeo-performance "Lançou a palavra: São Victor do Horto opera milagre em Assunção" (CineFoot, 2018). Atualmente, é editor da revista FuLiA/UFMG (2016-2023) e professor de Literatura Brasileira da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Maputo, Moçambique, pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), atuando também como curador do Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM). Edita o site autoral:
www.gustavocerqueiraguimaraes.com

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


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Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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