ANO 8 Edição 90 - Março 2020 INÍCIO contactos

José Arrabal


A louca de Jericó    

....ORA, contando assim ninguém acredita, mas a bem da verdade já começa tudo errado : o desejo, esfomeando a realidade, não consegue perpassar na gravidez um melhor sentido da estrada para o que vai nascer : vindo o dia do parto para o que vem, ela deita (é sempre assim, é sempre assim), alastra as pernas para o alto dos tetos, joelhos abertos no momento exato : a criança sai sendo alguma coisa que abandona: entrada nela maior e mais forte do que a ferramenta do marido tocando a terra : ela fecha os dois polegares na garganta do feto, a criança geme aos poucos, chora o filho vivindo, mais os polegares apertando o gogó do feto afogado no corpo dela, quando lhe percorre um tremelique vazio, então : é, só: no feto, enfim morto, a criança nascida : contando assim, ninguém : acredita assim : se constatando a fome permanente do desejo que não se faz fartura, ela mata o feto e fica só : após as pernas arriadas no chão, um joelho se fecha noutro se recolhendo em si : ela se levanta e percebe que se esgotara aí alguma coisa que já existira nela sendo daí que no chão do quarto brota uma pedra roliça, imensa, cinzenta pedra, oito vezes maior do que a oitava espiral do olhar do pai : a pedra no quarto, a personagem ela se transformando nela, a mãe : a pedra do quarto dentro dela, também nela a Louca de Jericó : dois dentes do céu, um de carne um de pedra : na boca, o gosto da louca sentada na calçada, porta fechada da catedral, abóbora celeste : mais as pernas abertas, cantando por seu umbigo : êia êia êia Lôca de Jericó, êia êia êia Lôca de Jericó : e tudo se passando como se preciso fosse que as pessoas só tocassem na miragem da situação, na suposição do fato como narrativa do ocorrido mais presente do que o próprio acontecimento, sendo preciso posar, sorrir, falar, dizer, insinuar, instigar, fazer notar, mais representar, do que acontecer, sendo a vida : assim sendo o preciso neste lado : a cidade, notória, divina cidadania, endemônio do outro lado a louca vadiagem e a molecada defronte, no beira fio da calçada pelo jardim da praça em cumplicidade com a música de seus cantos : êia êia êia Lôca de Jericó, êia êia êia Lôca de Jericó : nessa aliança assim traçada, elo dessa louca à vadiagem da molecada, morando dentro dela a gargalhada nas pernas abrindo : quando o primeiro moleque, tirando da terra pequenina pedra, na fenda da louca joga a pedra : em tão, num falsete de histerismo, a louca grita : filho da puta, filho da puta, filho da puta : com outras pedras, menor, igual, pouco maior, jogadas: pedras, pedregulhos na fenda da louca assim na estrada e a louca rindo : filhodaputa, filhodaputa, filhodaputa : na oitava pedra já a louca esperneando, gargalhadas se abrindo das coxas em gemido de gozo bebendo sentido : meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor : até desfalecer : no instante, a molecada então em revoada da posição de antes, já no meio-fio sentada, tranqüilamente canta : goza, goza, goza, Louca de Jericó, goza, goza, goza, Louca de Jericó, goza, goza, goza, Louca de Jericó : e a louca : sim, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor, meu amor : a louca, alastrada nessa aliança, rodeada de pedrinhas, se desfaz aos poucos : com o gozo penetrando nos olhos da molecagem : esse acontecimento sabido e ocorrido assim : condenado por todas as senhoras de respeito, senhores de pudor em viraolho geral, a polícia se recusando a intervir por tamanha vergonha alcançando a soldadagem, o delegado, também, o padre, que tentara por vezes a louca afastar da porta fechada da catedral, o cardeal, o emissário papal, toda uma cambada de pulhas comiquetos enfim que, no costume daquele estar, se arma nos mais recônditos quartos das sepulturas, nos subterrâneos das ruas : e na praça somente a vadiagem, a louca, a molecagem e o estar naquele gozo em Jericó esfomeada de desejo : quando o moleque mais velho se levantando do meio-fio grita: ê Lôca, cê gozô mais nóis num gozô não, só ocê : é então a Louca de Jericó, se recompondo na cara do olho, molho repolho da molecada, canta : eu gozei por gozá, num gozei cum vocêis, num gozei cum vocêis, num foi cum vocêis queu gozei, nem cum as pedrinhas docêis : e eis então que assim fazendo o silêncio dissolve todo o grupo de moleques na certeza do que a louca dissera dela, retrazida de seu pedaço de vida, mordendo, mastigando aquilo vagarzinho por seus dentes : tudo acontecendo bem certo às seis da tarde num dia, noutro, o bastante para a molecada se recompor e se sentir de novo atraída pela paixão da Louca de Jericó : contando assim, ninguém : acredita a bem da verdade : desse desejo, belo dia, ela se levanta para a multidão que se junta em praça pública, pouco antes do acontecimento de todo dia, ela: se empertigando em pose de discurso grita : -"Jeruselênicos!!! Jeruselênicos!!!" : e os que haviam se juntado naquela praça olham prontamente a louca, atendendo à convocação prontificados com firmeza em estado de alerta frente ao grito assim chamados : cara de pasmo, do pasmo ao sarcasmo, a Louca de Jericó, mordendo a língua com seus dois dentes a língua pune pelo dito, saltando a língua fora, vocifera : descompostura necessária à  multidão ali então : bestalhões que aqui não se enxergam, vocês são de Jericó derrotada graças a mim mulher irada e não de Jerusalém nem de Atenas : como então atendem à  minha convocação, logo que são assim chamados, paspalhões dispersaivos, aqui não há ninguém além de mim capaz de se ver mas, esperem : a multidão entusiasmada de novo boquiabriusse na seqüência do espetáculo : uns e outros na espera por saber de alguma coisa por acontecer : em tão, a Louca de Jericó, começando a se masturbar, o indicador enfia bucetadentro : aloucagoza : e logo os que haviam ali ficado à espera de seu discurso se dispersam da cena, com o pavor dos cadáveres mortos de pudor e vergonha : como sempre, é sempre assim, é sempre assim : com a molecagem de novo chegando ao calçadão da praça, a louca, frente a isso, dessa vez, pelo dito, corta o rito no fio da meada, tudo mais parecendo fim de uma estrada : hoje não, o que foi, foi : o bastante : no que um moleque mais novo, pirralho da turma, se levanta e fala : hoje, sim : com o que a louca revida : é um problema de todos, hoje não para mim, hoje não para vocês : e entre os maiores e menores da molecada, um moleque tamanho médio se insinua e grita : que fodam todos : a Louca de Jericó, revidando, mais gargalhando, então, resolvida, abre as pernas : hoje, sim : que se fodam todos : e as pedrinhas nesse modo indo ao lugar certo do goza goza goza Lôca de Jericó : e tudo se dando como sempre e antes sempre, mais aloucagozando, até o instante em que a louca chora : sem postura definida, entre os maiores e menores da molecagem, outro moleque qualquer sussurra : ô Lôca, que hôve, cê tá chorando,  quiá Lôca : a louca, nada respondendo, sendo : no que melhor eles se entendem : cada moleque seu canto buscando na molecagem, a louca ficando só, chora : na praça : de seu colo em gravidez crescendo, ela estende as pernas : até os tetos da cidade : abrindo os joelhos : parindo uma pedra, imensa pedra rolando, no meio da praça ocupando lugar monumental : a louca juntando os joelhos um ao outro, com os pés toca no chão : seus olhos trincados sorrindo embora : voa naquela hora em que ela não é mais ela, personagem dela dentro dela, transmutada então nela :


                                                                                       
          [...engraçado, até que foi bonito, todo mundo arrumado assim de terno, gravata, paletó, calça preta, sapato duas cores : a família inteira reunida : oito rapazes, o pai tão bem vestido, ela : carregando a mala, nós, sem entendermos bem o porquê de seu olhar naquele rosto fino magro mais também rosto gordo redondo : nunca se deixando bem perceber a diferença: todos num ônibus rodando a cidade por ruas desconhecidas, tão íntimas de todos nós que notá-las não seria em vão para o espanto geral : naquele dia o ônibus saindo da cidade, num portal de estrada parando, na beira da estrada : uma pedra como que um altar : todos nós rodeando a pedra : os filhos em semicírculo, o pai de lado, a mãe se ocupando da pedra, a mala sobre a pedra, a mãe abrindo a mala, mostrando a cada filho a mala vazia : eu, começando a ver em meus irmãos o mesmo rosto meu, a minha mesmidade em cada um, só : uma expressão diferente no que se sente a mala da mãe vazia : com apenas um sussurro calmo da mãe : eu  vou embora : e na prova dos nove, o pai, no ensejo de seu desejo, fazendo seu discurso por tempos de eterna idade, começando por grunhidos, lamúrias, ameaças : num apogeu de culpas : e, a mãe, olhando fixo no olhar do pai sorri, a mãe sorri, reabrindo a mala vazia mostrando, descendo da pedra, tocando estrada em pé : só nós, oito voltando com o pai : de novo a cidade, o trajeto não olhado das ruas de nossas não notadas intimidades desconhecidas e, eu, às escuras ouvindo a pedra da praça parida por mulher nominada Louca de Jericó, vendo a cidade que não se chama Jericó, se chama Um : assim contando ninguém acredita : lá estando a pedra na estrada como a do quarto na casa : nós oito num só : o pai : no quarto uma pedra, como em todo quarto, a pedra da praça, na porta da estrada...

 

                               : e tudo sendo um modo de se ler a história, e tudo sendo um modo de se ver as coisas, e pontuar histórias na marcação do tempo : após o parto do feto morto nascido feito vivo, ela lambe na pele do filho vivo os pedaços de placenta : seu sangue no feto colado : e fala : o feto morto nasceu, eu não matei a criança : na minha língua pedra tem gosto de pedra : só isso, e : meus pés com eles um dia eu vou andar : com os filhos sempre olhando a mãe repetindo, pedra tem gosto de pedra, a criança não nasceu morta, eu matei o feto e olhem aí a pedra : o bastante no restante, ninguém, acreditando no que acontece, pois, nas contas da história, a criança sempre nasce com a morte do feto que abandona a mãe, sendo o certo, quando no meio dos quartos surge uma pedra, na praça das cidades outra pedra, assim sendo : o fenômeno nem chegando mais a preocupar : nada mais natural essa pedra, essa imensa pedra e : a mãe vivendo com o pai até morrer dia após dia da pedra na praça : sem dúvida há muito dizem todos, monumentando alguma história, um tempo de um outro tempo, de um outro rei, havendo até os que vão criando feitos heróicos, batalhas quiméricas, ficção coletiva, placas de bronze, saudações turbulentas, explicando a pedra, escrevendo a história : professores de lendas tristes dessa carnificina das controvérsias : no que se sente ausente a vadiagem dos que procuram ser tranqüilos com a diferença : mais o canto da molecagem sentindo falta da Louca de Jericó, e os filhos nascendo pedras de outras mães surgindo em outros quartos : o que com o tempo vai deixando de ser novidade no que então se vê que isso sempre aconteceu na solitária cidade do Um, ávida : sendo os equívocos da história diagonais cortando as letras ás de todas as palavras femininas, assim perpassando, com as mãos do pai, labirintos sujos, borrões em vírgulas, curvas viradas, toda a barafunda da desumana história : os sintomas de hermetismo desta história (ela sendo, no entanto, tão clara, feito o mal-estar na rotina compulsória dos trabalhadores nas fábricas e a náusea na freqüência obrigatória do sexo para as mães no lar dos casais monogâmicos) : até o dia em que, por seus pés, estando a mulher nela a mãe vai EMB...

 

SP/SP

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances publicados em cerca de 50 obras de editoras no Brasil e no exterior. Entre essas obras sobressaem: “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “Stalin” (Editora Moderna), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Editora Paulinas), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole), “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora) e “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2013). josearrabal@ouol.com.br (Registro na Biblioteca Nacional/BR )

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2020:

Adriana Versiani, Alberto Murillo, Antônio Torres, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carla Carbatti, Carlos Matos Gomes, Carlos Orfeu, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Clécio Branco, Deema Mahmood, Elisa Scarpa, Elke Lubitz, Ender Rodríguez, Fernando Andrade, Gustavo Cerqueira Guimarães, José Arrabal, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luciana Tonelli | Seleção de poemas: Ana Caetano Depoimentos: Adriana Versiani, Carlos Augusto Novais, Gláucia Machado, Hugo Pontes, Luciano Cortez, Marcus Vinícius de Faria, Ricardo Aleixo, Vera Casa Nova., Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Nagat Ali, Omar Castillo, Orlando van Bredam ; Rolando Revagliatti, entrevista, Prisca Agustoni, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Taciana Oliveira, Wanda Monteiro, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Der Schrei der Natur', 1893 | EDVARD MUNCH, 'Det Syke Barn', 1885-1886.


Paginação:

Nuno Baptista


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