ANO 8 Edição 89 - Fevereiro 2020 INÍCIO contactos

Angelita Guesser


Poemas    

#noname1

 

eu quero estar num mundo sem abreviações
quero ser a estrada que leva ao infinito
quero enfrentar a aspereza mazelas dessa vida

 

nua, como quando rompi os segundos do infinito

 

na dureza desse percurso, quero ser águia
que busca colecionar o espanto
de estar no conforto das mutilações sofridas
pela crua palavra encravada na tua garganta

 

quero encontrar na superfície das ruínas
uma forma de apreciar tuas fraturas
me confundir, no entremeio do impossível
com o ensaio dos ecos que dialogam entre si

 

e ainda, ser aquela que mesmo em queda livre
[cai em pé

 

 

 

 

 

 

#eueela

 

vejo a lua
assim como
quem vê um filme

 

ela é intensa
apaga o escuro
do céu
é alívio de dor
e apelo
de amantes.

 

vejo a lua
em dia de eclipse
como quem
sai para trabalhar

 

ela é
luz para dias
sombrios
é riso em
dias tristes

 

vejo a lua
e ela me vê

 

e assim
passamos a noite
juntas
eu e ela
ela e eu.

 

 

 

 

 

 

#rocha

 

às vezes busco ser um outro
me ver em um outro corpo
outra face, outros gostos
assim, descubro quem sou

 

busco ventar em outros mares
de azares cruéis
no sexo bizarro dos golfinhos
assim, sustento o que sou

 

aguardo meu futuro, incerto
feito pólen em boca de beija flor
que luta pelo mundo
o combate dos covardes

 

se existo, desconheço
escorro por entre os dedos
feito areia do deserto
num mundo que não nasci

 

e feito grão em rocha
esqueço meu obscuro passado
para num sopro de esperança
renascer na rotina solitária de
apenas ser

 

 

 

 

 

 

#espaço

 

eu e você, lado a lado, desconexos
assim como leitura de mapa de campo minado
nesse assombroso espaço, viajamos entre nuvens de algodão de mãos dadas
navegamos nas sombras do avião, que por ora não passa mais
depois viramos para o vazio, patenteando continuar o mesmo sonho
e aquela música que não sai da cabeça ecoa, toca no fundo dos dias sem tocar a enseada [que estávamos sentados com aquela mesma mulher, que conhecemos há dias atrás

 

seríamos loucos? ou apenas nos amamos?

 

hoje não quero mais ouvir a tua voz repetindo inúmeras vezes que devemos desistir
tenho medo de realmente estar enlouquecendo. na verdade, me permito mais uma vez [sonhar e navegar e querer ver aquele mesmo avião não sumir por entre as nuvens
na falta de repetição, corro atrás da sombra que desenha nos campos linhas sinuosas que [afastam de ti toda a verdade
na falta de repetição não encontro as palavras, que a essa altura, na morbidez do agora [não situam tempo e espaço

 

 

 

 

 

 

#descoberta

 

descubro que há em mim
a perfeita ironia
de confundir coragem com força
sinto meus poemas
indomáveis arrastarem pelo tempo
teus desejos tanto quanto dominam
meus braços, arrancando-lhes à força
a força da vontade
desconfio que há em mim uma beleza original
que doma tuas pernas e arrasta tuas certezas
tanto quanto tua fera grita de amor
descubro que o tempo carrega
dentro do ventre a força da coragem

 

(estes poemas são retirados do livro Entre um eco e outro, edit. Letramentos, 2020)

 

 

 

 

 

 

busque-me em poesias
dispo-me de revoluções estéticas
não sou daquela que se impressiona
por narizes e peitos
feitos por aquele que repudia
a explícita vaidade operá(tó)ria

 

quero ser pétalas para
em intervalos breves
da vida forrar teu caminho
e no mais absurdo suspiro
ser Aristarco do teu amor

 

com mistério deixe-me conduzir
a perplexidade das tuas dores
para que dances com prazer
no intervalo de meus versos
o corpo moldado pelo toque do amor
o corpo moldado pela intimidade
daqueles que de amor gozam.

 

 

 

 

 

 

[I.2] revolução estética

 

demorei ao te conhecer
passaram-se horas
tomei-te em mim, nessa demora
cavalguei teu corpo, cuidadosamente
com mãos perecíveis
no breu do submundo

 

para que me tomes, sem pressa,
presa, e me conheça, e me devores
que me faça carne, eterna

 

volúpia de duas mulheres
fêmeas, rijas de prazer
que buscam se esconder
igual a hora primeira
no breu do submundo.

 

 

 

 

 

 

[I.7] fêmeas do submundo

 

a ti escrevi cartas
e incendiei-as mil vezes,
uns ventos te avisaram
outros levaram-nas até ti

 
enquanto o tempo te devora
no gosto me consome
e no gesto, de afeto dissoluto
eu mesma, diluída em dor
me assusto com a tua chegada

 

e aos poucos te somo a mim
para que quando chegares
de todo, num instante extasiado
olhe-me e, deslizando
por entre minhas entranhas,
entenda que sou terra e pertenço a ti.

 

 

 

 

 

 

[I.11] terra

 

atenta, hoje sou o que vejo
não sei quantas já fui
nem em quantas me tenho

 

a cada momento me estranho
e continuo
nunca me vi inteira
de tanto ser, nunca senti
apenas procuro existir

 

sou eu meu próprio horizonte
na margem que construí
num mundo diverso
torno-me aqueles de quem
desisti

 

sigo, passo por passo
páginas viradas
tento esquecer aquelas que fui
torno-me alheia aos olhos do que senti
e escrevo versos porque
me fazem lembrar de ti.

 

 

 

 

 

 

[II.5] passo de areia

 

os lençóis da cama enrugados
revelam os rastros do fogo convertido em prazer
observo absorto as fumaças do cigarro
nocivas e desonestas no teto do quarto
falam-me mansamente na penumbra
sobre os afetos perdidos
das risadas constrangidas
que raramente revelavam o prazer
de desfrutar a lascívia de nosso amor

 

o sustento dessa vida acabou-se
feito vinho em mesa de bêbado
que com alegria derrama no seio da amada
sem desfrutar da leveza dos cristais roubados

 

onde estais, ó minha amada?
me diz que caminho tomar
guia-me nesta escuridão do amanhecer
sem acordar,
confundido na bagunça do teu coração
pego-me a esperar que me devolvas
a alegria de poder o teu corpo outra vez
respirar.

 

 

 

 

 

 

[II.17] cama e mesa de bêbado

(poemas inéditos)

 

 

Olá, eu sou a Angelita Guesser. Sou natural do Rio Grande do Sul, e hoje moro em Florianópolis, mas a partir de junho estarei residindo em Portugal. Me formei em Psicologia e Direito, me especializei em psicanálise e estudo a imigração de mulheres pelo mundo. Trabalhei por 18 anos com psicoterapia, mas vim me apaixonar pela escrita. Escrevo poemas, contos e romances.

SITE: www.aguesser.com
INSTAGRAM: angelita.guesser

Lancei meu primeiro livro Foda-se (Ed. Autora, 2020). Estou lançando meu segundo livro Entre um Eco e Outro (Letramento, 2020) em junho.

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GIOVANNI DOMENICO TIEPOLO, 'The triumph of Pulcinella', 1753-1754


Paginação:

Nuno Baptista


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