ANO 8 Edição 89 - Fevereiro 2020 INÍCIO contactos

Huggo Iora


Poemas    

NUANCES CLIMÁTICAS

 

Rasuro a distante paisagem com meu lápis
                                                    [ficcional.

 

À montanha, dormente, finjo ser passional
pois a desejo revelada, em nudez
doce e descarada, entregue de uma
                                                          só vez
ao dilúvio.

 

No eco de sua perpétua surdez
jazem os cânticos dos românticos iludidos
daqueles que acreditam que dor de amor
                                                           é pior
que dor de parto, aturdidos
pelo aperto do abraço de quem parte
para voltar só em outras chuvaradas.

 

O fogo nada mais consome
tampouco as chagas assustam,

 

e essa montanha, um dia, some
junto com essa paisagem que,
                                                         até lá,
receberá um outro nome.

 

 

 

 

 

 

ANIMAIS DE AMOR

 

Andavam os dois de mãos dadas,
as roupas velhas já atadas

 

adivinhando-se um no outro,
cinema sem rolo nem roteiro,
passos lentos nas calçadas

 

como se o tudo e
                                        o nada
fossem mera questão
de interpretação.

 

 

 

 

 

 

O GAROTO

 

o garoto de uns
vinte e poucos

 

que não tem morada
nem um sobrenome

 

adormece em plena manhã
à porta de uma padaria
enquanto o sol bate
em cheio
no seu pescoço pendido
para o lado

 

onde pessoas
passavam                                      apressadas.

 

 

 

 

 

 

ENTULHO EMOCIONAL

 

hoje eu chorei
meu peito trancado
calado
entalado

 

aconteceu tudo breve
e quieto,
susto de furto,
chuvarada que lava
os dejetos das calhas.

 

chorei dos olhos
água que não
é benta
para desidratar
minhas poças de dor
estagnadas no fosso
da garganta

 

o cansaço
tomou pra si o meu despertar,
e do meu rosto
a aurora
foi fria madrugada.

 

hoje eu chorei
entulhos de lágrimas,
ou senão
sucumbiria
até
ventar-me nada.

 

 

 

 

 

 

CANÇÃO DA DESPEDIDA QUE NÃO SE FOI

 

e quando tu fores embora
e meu pranto rolar
até o teu rosto,
instalar
em teu lindo pescoço
marcas de adoração,
sou eu quem vai te secar
com a aspereza de minha língua,
meus seis sentidos,
meus poemas não lidos,
meu idiota idioma
que em Roma
faz-me o desentendido.
sou eu quem vai te guardar
nas gavetas perfumadas,
nos pensamentos mais caros,
nas florestas do coração.
sou eu quem vai cantar
teus olhos,
tuas orelhas,
tua perigosa tradução,
quando tu fores embora.

 

 

 

 

 

 

INEXISTENCIALISMO

 

alterno entre pódios
e fracassos

 

não mensuro, da leveza,
o peso de meus passos
mas gosto de deixá-los marcados
no deserto das cidades que visito.

 

corro quando canso
e empaco se transito,
há vezes em que até desconfio
se eu realmente existo.

 

quando a tristeza
de dar as caras inventa,
transbordo todo pra dentro,
depois masco em tabletes
um sorriso de menta

 

se muito quero
vou lá e tento,
se não posso
eu simplesmente vento.

 

 

 

 

 

 

JARDIM TRANSGRESSOR

 

as rosas brancas
trespassam
os limites impostos
pelas grades do portão

 

exalando, do pequeno botão,
seus caprichos e liberdade
aos que na rua passam

 

rasgando
com a ponta dos espinhos,

 

numa irredutível candura,

 

a covarde capa
da censura.

 

 

 

 

 

 

BELEZA PURA

 

és
meu amor
uma beleza rara,
um soneto de rimas caras
e métrica rigidez

 

és meu amor
natureza que Deus fez
para se maravilhar
em seu trono de prata,
despido da veste barata,
costurada em começo
de mês

 

és beleza sem plásticas
amor meu,
rio de corredeiras plácidas
com espumas elásticas
onde meu corpo
se perdeu

 

és
uma beleza hoje,
meu amor,
quase extinta
aquela que recusa a tinta
e exibe na pele caminhos
de dor.

 

 

 

 

 

 

TECITURA

 

A boca tua entreabre um suspiro louco
Que me
Abala!

 

Tigre velho de vaidades e bengala...

 

Viro e me reviro
Sob lenço e luto,
Na bruta esperança de
Matuto
Domar-te, sem teres escolhas ou
Estrelas.

 

Amarrar-te apertada
Pelo fio das virtudes
Em cama alheia,
E ali te
Tecer como a aranha
Tece a teia.

 

 

 

 

 

 

UM ROSTO MULTIDÃO

 

O anonimato
Preserva-me as mãos
De serem incendiadas
Pela opinião pública.

 

Contento-me com o papel
De homem normal:
Dois olhos na cara!
Pelos na região púbica!

 

E um dissabor imortal
Ao Presidente
Da República!

 

Sou sujeito sem complementos
Ou predicados,
De ignota insignificância,
Que planeja sonhos
E arquiteta-os realidades alcançáveis
Somente aos dedos da infância.

 

Detesto o glamour
E sua suntuosa veste
Para um evento determinado...

 

Não me faço manequim
Estacionado em vitrines,

 

Dispenso
Ser observado.

 

Sou homem simples...
Matutino...
Composto por pele
E rubro barro...

 

Enquanto caminho distraído pelas ruas
Do meu desconhecido
Bairro.

 

 

Huggo Iora nasceu na cidade de São José, em Santa Catarina, no ano de 1992, maio. Criou-se com os pais e um irmão mais novo. Assistiu a filmes, escutou músicas diversas, andou pelas ruas com os amigos sem celulares, leu livros. Começou a escrever como necessidade vital aos vinte, mais ou menos. Poemas... Contos... Mas trabalha na área da educação física. Tem esposa e dois filhos. Publicou em 2018 seu livro de estreia — E Sem Demora – versos diversos num liquidificador —, e no ano seguinte, o próximo — Balada Desafinada e outros concertos. Ambos de poesia. Sonha, ainda, em viver disso.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Fevereiro de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alfonso Díaz de la Cruz, Alicia Leonor, André Gardel, Angelita Guesser, Antônio Torres, Calebe Morais, Deusa d’África, Edimilson de Almeida Pereira, Eduard Traste, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Henrique Dória, Hermínio Prates, Huggo Iora, Ian Veink, Ivone Maria Silva, JAN DOčEKAL ; ALFONSO PEÑA, José Arrabal, Juan Carlos Moisés, Kátia Borges, Lahissane, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonora Rosado, Luis Carlos Muñoz Sarmiento, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Milton Lourenço, Moisés Cárdenas, Nirton Venancio, Ramon Carlos, Ricardo Alfaya, Ricardo Echávarri, Ricardo Ramos Filho, Rivaldo Chinem ; Adelto Gonçalves, Roberta Tostes Daniel, Waldo Contreras López, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

GIOVANNI DOMENICO TIEPOLO, 'The triumph of Pulcinella', 1753-1754


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR